Em um dos testes, os índios tinham que identificar qual círculo estava sem uma bola exatamente em seu centro
(imagem:Science)

Geometria espontânea
20 de janeiro de 2006

Pesquisadores estrangeiros fizeram dois tipos de testes não-verbais com crianças e adultos de uma tribo dos índios Munduruku, no Pará. Os resultados, garantem os cientistas, não deixam dúvidas: o ser humano nasce com a intuição geométrica em seu cérebro

Geometria espontânea

Pesquisadores estrangeiros fizeram dois tipos de testes não-verbais com crianças e adultos de uma tribo dos índios Munduruku, no Pará. Os resultados, garantem os cientistas, não deixam dúvidas: o ser humano nasce com a intuição geométrica em seu cérebro

20 de janeiro de 2006

Em um dos testes, os índios tinham que identificar qual círculo estava sem uma bola exatamente em seu centro
(imagem:Science)

 

Agência FAPESP - No mínimo, os pesquisadores que se interessam pela capacidade cognitiva do ser humano já têm mais um assunto para acalorados debates. Artigo publicado na edição desta sexta-feira (20/01) da revista Science sugere que os conceitos básicos da geometria euclidiana já nascem com as pessoas.

Para provar essa hipótese, um grupo de pesquisadores, liderado por Stanislas Dehaene, da Unidade de Neuroimagem Cognitiva do Colégio da França, resolveu fazer dois tipos de testes não-verbais no interior da Amazônia. Mais precisamente, eles estiveram em uma tribo dos índios Munduruku, que vive no Pará, nas margens do rio Cururu, um dos afluentes do Tapajós.

O primeiro tipo de teste foi feito com o intuito de compreender os conceitos básicos de geometria existentes no cérebro dos índios. Após analisar as respostas de 14 crianças, todas com 6 anos de idade, e de 30 adultos, eles concluíram que existe intuição geométrica nos moradores da tribo paraense, mesmo eles não tendo acesso à escola ou experiência com símbolos gráficos e mapas.

Apareceu na frente dos índios, em uma tela de computador, um painel com seis quadros. Em apenas um havia uma linha torta. Nos demais, as retas eram perfeitas. Ao serem perguntados, na língua deles, sobre qual desenho era mais "feio" ou "estranho", 93% dos participantes indicaram o quadrado que diferia dos demais. O bom resultado de acerto ocorreu em muitas variações desse mesmo teste.

O segundo teste era mais interativo. A pessoa recebia um mapa em papel com o desenho de três objetos, dispostos no formato de um triângulo. Em um deles havia uma marca que indicava que havia algo escondido sob ele. O participante, a partir de então, ficava em contato com o mesmo mapa, mas desta vez os objetos estavam no chão da aldeia e, portanto, em um espaço tridimensional. Os índios precisavam encontrar o objeto escondido, que havia sido desenhado no mapa da folha. A média de acerto foi de 71%.

Portanto, segundo os autores do estudo, boa parte dos índios Munduruku conseguiu pensar em duas e depois em três dimensões, perceber o mesmo padrão geométrico em duas diferentes escalas e encontrar algo com base em três pontos. O teste do mapa foi repetido três vezes com cada participante.

Apesar dos resultados obtidos – crianças e adultos norte-americanos foram usados como grupo controle - algumas críticas já apareceram ao estudo, conforme publica a própria Science na sua sessão de notícias. No texto, alguns pesquisadores acham que os testes feitos na Amazônia não servem para medir a capacidade inata de perceber os conceitos primitivos da geometria.

Não houve diferença significativa entre crianças e adultos. E entre esses dois com as crianças norte-americanas. Os mesmos testes feitos entre os adultos nos Estados Unidos deram resultados bem diferentes. Apesar da diferença, atribuída à variabilidade cultural, os pesquisadores são categóricos. "Os conceitos geométricos básicos, assim como a aritmética básica, são constituintes universais da mente humana."

O artigo Core Knowledge of Geometry in na Amazonia Indigene Group pode ser lido por assinantes no site da Science, em www.sciencemag.org.


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