Agência FAPESP - O Brasil, nas primeiras décadas do século 18, foi palco de uma terrível guerra microbiológica. Os portugueses, que haviam declarado guerra aos índios Aimorés – a quem chamavam pejorativamente de botocudos, nome que acabou ficando mais consagrado pelos historiadores – espalharam cobertores com o vírus da varíola pela floresta. Os nativos, ao levarem os cobertores para as aldeias, eram contaminados.
Os últimos remanescentes dos Aimorés, que viviam entre Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espirito Santo, foram vistos em 1920. Uma foto da época, apresentada na quarta-feira (8/9), no 50º Congresso Brasileiro de Genética, em Florianópolis, emocionou o próprio conferencista, o médico Sérgio Danilo Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais.
"Estamos trabalhando com um modelo filogenético para detectar as linhas genéticas dos botocudos, o que costumo chamar de garimpagem homopátrica", disse Pena à Agência FAPESP. Segundo os dados obtidos até agora, ele acredita que foi possível conseguir, muito provavelmente, resgatar tipos genéticos dos Aimorés. O processo dessa obtenção não ocorreu de uma forma tão simples como pode parecer.
A cidade de Queixadinha está localizada no meio do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais. A população que vive lá está isolada e esquecida. As taxas de analfabetismo e de esquistossomose estão acima dos 60%. "Os botocudos – o apelido é decorrente de uma madeira em forma de círculo que eles usavam no lábio e que, para os colonizadores, lembrava uma rolha de vinho, um bodoque – viviam naquela região, por isso resolvemos investigar", explicou Pena.
Entre 173 indivíduos analisados, segundo o trabalho apresentando em Florianópolis, foram verificadas 74 linhagens matriarcais. Os pesquisadores conseguiram identificar 70% de grupos genéticos, chamados de haplotipos, exclusivos daquela cidade. A comparação das amostras de sangue dos moradores do Vale do Jequitinhonha com outras típicas de Minas Gerais, que por sinal representam toda a diversidade encontrada no Brasil, permitiu aos pesquisadores acreditar no resgate da linhagem dos Aimorés.
"Os ameríndeos que vivem ao sul do Equador apresentam quatro haplogrupos fundamentais, nomeados de A, B, C e D. Nas amostras de Queixadinha, o grupo C apareceu em uma freqüência muito mais alta do que a encontrada no resto do Brasil", explica Pena. O cientista não tem dúvidas de que pelo menos encontrou uma população bastante diferenciada na cidade mineira.
A equipe comandada por Pena, que também já fez estudos sobre as linhagens africanas que chegaram ao Brasil, está garimpando, como o mesmo enfoque filogenético, as linhagens genéticas de outras tribos no Brasil que também foram exterminadas em um passado não muito recente. "Costumo brincar que depois do genoma, do proteoma e do transcriptoma, temos agora o ancestroma", disse Pena.
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