Açúcares ricos em frutose, como o xarope de milho, são muito presentes em alimentos ultraprocessados (foto: Freepik)

Saúde
Frutose em excesso altera intestino e aumenta risco de diabetes tipo 2 e doenças no fígado
03 de abril de 2025

Estudo que envolveu pesquisadores da USP e da Université Laval, no Canadá, mostra que mudanças intestinais precedem o descontrole glicêmico e o acúmulo de gordura hepática. Segundo os autores, o problema está na frutose adicionada a alimentos ultraprocessados

Saúde
Frutose em excesso altera intestino e aumenta risco de diabetes tipo 2 e doenças no fígado

Estudo que envolveu pesquisadores da USP e da Université Laval, no Canadá, mostra que mudanças intestinais precedem o descontrole glicêmico e o acúmulo de gordura hepática. Segundo os autores, o problema está na frutose adicionada a alimentos ultraprocessados

03 de abril de 2025

Açúcares ricos em frutose, como o xarope de milho, são muito presentes em alimentos ultraprocessados (foto: Freepik)

 

Agência FAPESP – O consumo excessivo de frutose – comum em dietas com alto teor de alimentos ultraprocessados – modifica a forma como o intestino responde à glicose, aumentando a absorção desse açúcar e comprometendo o controle da glicemia. Essa foi a conclusão de um estudo publicado na revista Molecular Metabolism por pesquisadores da Université Laval (Ulaval), do Canadá, e do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

Segundo os autores, esses efeitos observados em camundongos precedem a intolerância à glicose e o acúmulo de gordura no fígado, dois fatores ligados ao desenvolvimento do diabetes tipo 2 e da doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD, na sigla em inglês). E a absorção intestinal alterada é o gatilho do problema.

No estudo, camundongos foram alimentados durante sete semanas com uma dieta em que 8,5% da energia vinha da frutose – proporção considerada elevada, mas ainda próxima do consumo humano médio. Em apenas três dias, os animais já apresentavam um aumento na capacidade do intestino de absorver glicose, antes mesmo do surgimento da intolerância à glicose. Após quatro semanas, a glicose já não era eficientemente removida do sangue e, ao fim do estudo, observou-se acúmulo de gordura no fígado – condição que pode evoluir para quadros mais graves, como a cirrose.

Curiosamente, mesmo com esses efeitos adversos, os camundongos não desenvolveram resistência à insulina nos músculos ou no tecido adiposo, indicando que o descontrole glicêmico inicial ocorre por alterações no intestino e não por falha na resposta insulínica periférica.

A explicação para esse fenômeno pode estar na ação de um hormônio chamado GLP-2, produzido por células do intestino. Os pesquisadores constataram que o consumo excessivo de frutose eleva os níveis circulantes de GLP-2, substância que estimula o crescimento da superfície intestinal e o aumento da absorção de nutrientes. Ao bloquear o receptor desse hormônio (Glp2r) com uma droga, foi possível impedir o aumento da absorção de glicose, evitando tanto a intolerância quanto o acúmulo de gordura no fígado.

No entanto, a estratégia de bloqueio do Glp2r não é facilmente aplicável a humanos, pois esse mesmo receptor está envolvido na proteção da barreira intestinal contra infecções e inflamações. Isso reforça a complexidade do papel do GLP-2 na saúde metabólica.

"Mostramos que o aumento da absorção de glicose pelo intestino ocorre antes da intolerância à glicose. Isso abre caminho para o uso desse mecanismo como um biomarcador precoce", disse à Assessoria de Imprensa do ICB-USP Fernando Forato Anhê, professor da Faculdade de Medicina da Ulaval e coordenador da investigação. "O teste de absorção intestinal de glicose é barato, seguro e já utilizado em humanos – bastaria aplicá-lo em um novo contexto."

Apoiada pela FAPESP por meio de quatro projetos (20/12201-4, 22/14545-8, 20/06397-3 e 22/02829-1), a pesquisa foi conduzida por Paulo H. Evangelista-Silva, doutorando no Programa de Pós-Graduação do Departamento de Biologia Funcional e Molecular do ICB-USP, em coautoria com Eya Sellami, pesquisadora da Ulaval, e Caio Jordão Teixeira, pós-doutorando no Departamento de Fisiologia e Biofísica do ICB-USP.

Na próxima etapa, apoiada pelo Canadian Institutes of Health Research (CIHR), o grupo vai investigar como o microbioma intestinal pode ser manipulado para reduzir os efeitos nocivos do excesso de frutose.

Fruta é aliada

De acordo com Evangelista-Silva, os resultados do estudo se referem ao consumo de frutose adicionada a alimentos ultraprocessados. “Frutas in natura são ricas em fibras, que ajudam a retardar a absorção de glicose e aumentam a saciedade. Além disso, contêm nutrientes benéficos para a saúde intestinal e hepática”, explicou.

A pobreza nutricional dos ultraprocessados, com baixo teor de fibras e altos níveis de açúcares adicionados – como o xarope de milho e o açúcar de cana –, sobrecarrega o organismo. Evangelista-Silva recomenda priorizar alimentos in natura, conforme orienta o Guia Alimentar para a População Brasileira, desenvolvido pelo Ministério da Saúde com apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

O açúcar de cana-de-açúcar e o xarope de milho são exemplos de açúcares ricos em frutose amplamente utilizados pela indústria em alimentos ultraprocessados. Confira abaixo alguns exemplos:

• Refrigerantes e sucos industrializados (mesmo os 100% fruta)
• Cereais matinais e barras adoçadas
• Biscoitos recheados e doces industrializados
• Pães e bolos prontos (como bisnaguinhas e pão de forma)
• Chás prontos e bebidas esportivas adoçadas
• Molhos industrializados (ketchup, barbecue etc.)
• Iogurtes adoçados, sobremesas lácteas e geleias

O artigo High fructose rewires gut glucose sensing via glucagon-like peptide 2 to impair metabolic regulation in mice pode ser lido em: www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2212877825000080?via%3Dihub.
 

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