No bolicho, nas fronteiras do Sul do Brasil, contadores de 'causos' ou 'cuentos' fazem uma simples conversa virar um espetáculo

Fronteira que não divide, congrega
17 de janeiro de 2006

Pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria mostra como os povos que vivem na divisa entre Argentina, Brasil e Uruguai usam as narrativas orais para transmitir as tradições e costumes comuns

Fronteira que não divide, congrega

Pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria mostra como os povos que vivem na divisa entre Argentina, Brasil e Uruguai usam as narrativas orais para transmitir as tradições e costumes comuns

17 de janeiro de 2006

No bolicho, nas fronteiras do Sul do Brasil, contadores de 'causos' ou 'cuentos' fazem uma simples conversa virar um espetáculo

 

Agência FAPESP - Separados por fronteiras apenas políticas, os povos que vivem nos limites entre Argentina, Brasil, Uruguai conservam tradições e marcas de sua convivência. Os costumes e visões de mundo estão presentes nas narrativas orais disseminadas por contadores de "causos" ou "cuentos", pessoas comuns cuja habilidade de contar histórias é capaz de fazer uma conversa de bar virar um espetáculo.

"A transmissão de valores e práticas que se dá por meio da narração de histórias é parte fundamental da ‘cultura da fronteira’", explica Luciana Hartmann no artigo Performance e experiência nas narrativas orais da fronteira entre Argentina, Brasil e Uruguai, publicado no número 24 da revista Horizontes Antropológicos.

Professora do Departamento de Artes Cênicas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), doutora em antropologia, Luciana afirma que o desempenho dos contadores é decisivo na organização e na transmissão da experiência regional.

Diferentemente do que se observa nas narrativas escritas, nas interpretações o tempo e o espaço do contador se encontram com os da audiência (os ouvintes), possibilitando interação e diálogo. Desse modo, a forma de expressão do narrador está em constante avaliação e, quanto mais hábil, mais intensa a experiência e fixação da mensagem.

A pesquisadora analisou dois tipos de "causos", um cômico e uma história pessoal. O primeiro demonstra o conceito de "performance como espetáculo" – que tem maior elaboração estética e caracteriza grande parte das performances da fronteira.

A narrativa é de um certo "seu" Reni, reunido com amigos no gabinete de um vereador de Caçapava do Sul (RS). Usando recursos de linguagem, como o discurso direto, alongamento de sílabas e onomatopéias, ele conta a história do proprietário de um figueiral que espantava quem ia roubar figo dando tiro de espingarda.

A história questiona valores de propriedade privada e coloca a vitória da esperteza diante das regras sociais. "E quando iam roubar figo lá, ele dava tiro para tudo quanto era lado. Aí os caras descobriram que ele tinha medo de assombração (...) E, aí, quando viram, ele tava lá, aparecendo o cano da armazinha. E, aí, o da frente dizia assim: ‘No tempo que eu era viiiivo aqui era o caminho do fiiiigoo...’ (...) ‘E eu que sou mooooorto vou agarrar o dos ooooutrooooos...’"

Como exemplo de "performance como desempenho" – que pressupõe o envolvimento integral do contador na história e enfatiza o conteúdo em detrimento da forma – a pesquisadora mostra a narrativa de Barreto. Dono de um bolicho (bar/armazém) e orador conhecido na fronteira, ele descreve sua vida e os costumes do tempo em que era moço com palavras que misturam português e espanhol recorrendo à linguagem poética. Falando dos bailes, por exemplo: "tirava para dançar... já perguntava: ‘tu me quer e eu te quero, nós semo dois quero-quero’".

À medida que o narrador se sinta estimulado ou desafiado por sua platéia ele pode usar mais recursos de linguagem para se fazer entender. Para a pesquisadora, "a prática de contar e ouvir histórias na fronteira está inserida em complexos eventos de fala que representam a vitalidade de uma tradição que é recriada dia após dia".

Para ler o artigo, disponível na biblioteca eletrônica SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui.


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