Baudouin Jurdant, Carlos Vogt e Pierre Fayard (esq.p/dir.) discutem desafios da divulgação científica na sociedade do conhecimento (foto: Fernando Cunha)

Formar espíritos críticos

Baudouin Jurdant (Universidade de Paris 7), Carlos Vogt (FAPESP) e Pierre Fayard (CenDoTec) debatem, em seminário em São Paulo, desafios da divulgação científica na sociedade do conhecimento

20 de outubro de 2006
Formar espíritos críticos

Baudouin Jurdant (Universidade de Paris 7), Carlos Vogt (FAPESP) e Pierre Fayard (CenDoTec) debatem, em seminário em São Paulo, desafios da divulgação científica na sociedade do conhecimento

20 de outubro de 2006

Baudouin Jurdant, Carlos Vogt e Pierre Fayard (esq.p/dir.) discutem desafios da divulgação científica na sociedade do conhecimento (foto: Fernando Cunha)

 

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP - Quando se fala em divulgação científica, é comum pensar em formas de transmitir conhecimento para o público leigo, democratizando o saber. Mas ela é bem mais do que isso, como aponta Baudouin Jurdant, professor da Universidade de Paris 7, na França.

"A divulgação é uma etapa da própria produção científica", disse em conferência no seminário 'Estratégias para a divulgação científica na sociedade do conhecimento', nesta quinta-feira (19/10), em São Paulo. O evento, promovido pelo Centro Franco-Brasileiro de Documentação Técnica e Científica (CenDoTec) e pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, inclui o lançamento do livro Cultura científica: Desafios (Edusp/FAPESP), com contribuições de pesquisadores franceses e brasileiros.

Jurdant defende que o pesquisador faça a divulgação para compreender melhor o que faz, adquirindo condições de inserir seu trabalho em uma integração sociocultural das ciências. "A divulgação científica não é um tipo de degradação da ciência. Ela participa da construção da objetividade científica", disse.

O professor francês também destacou a necessidade de se evitar a comum postura "didática" da divulgação científica. "Aprender ciência por meio dos veículos de comunicação é um itinerário inconcebível. Ninguém se torna físico lendo uma revista de física, por mais bem feita que seja", disse.

"A difusão se faz com palavras, não se adquire o status de cientista simplesmente aprendendo a língua científica. Se há conhecimento, que é transmitido pela divulgação, trata-se de um conhecimento de cultura", afirmou Jurdant.


Divulgação e conhecimento

"Sobre a questão das estratégias de divulgação, valeria a pena perguntar qual a relação entre divulgação científica e o que está englobado pelo conceito de cultura científica", disse Carlos Vogt, presidente da FAPESP, participante de outra conferência no evento, juntamente com o diretor-geral do CenDoTec, Pierre Fayard. Para ele, a cultura científica estaria relacionada com a sociedade do conhecimento, que caracteriza um modo de organização.

"Nessa nova sociedade, entramos em uma situação em que as diferenças entre o mundo e sua representação se tornam tênues. A questão da relação entre natureza e cultura é redesenhada. Estudos como os de Lévi-Strauss dão conta das constantes universais entre as diferentes manifestações culturais que podem mostrar o quanto a expressão do conhecimento decorre da estrutura da mente humana", disse Vogt, que também é presidente do CenDoTec.

Fayard destacou a evolução da transmissão de informações científicas na sociedade do conhecimento. "Antes dos anos 70, o modelo empregado era conhecido como ‘difusão científica’. Depois, veio o movimento da ‘ação cultural científica’, em que, no lugar de difundir o conhecimento, o foco eram as perguntas dos não-especialistas, da vida cotidiana", disse.

"Mas, quando se fala em sociedade do conhecimento, a dúvida maior é como pensar em uma comunidade que inclui ao mesmo tempo cientistas e não-cientistas. O mais importante, nesse caso, não é tanto o conteúdo científico, mas o poder da pergunta. Em vez da difusão, é preciso buscar um diálogo criativo. A sociedade do conhecimento é uma sociedade na qual o conhecimento se cria a partir do interesse, da necessidade, da pergunta", afirmou Fayard.

Segundo Vogt, é fundamental, ao se falar em estratégias de divulgação científica, levar em conta as mudanças nos padrões de consciência, que criam "indagações sobre nossos destinos e papéis no mundo".

"Quais são os limites do conhecimento? São internos ao próprio conhecimento, ou são de ordem ética? Divulgação científica não é suprir o déficit de conhecimento, mas formar espíritos críticos", disse Vogt.

O segundo e último dia do seminário "Estratégias para a divulgação científica na sociedade do conhecimento", nesta sexta-feira (20/10), contará com palestras de Ernst Hamburger (Instituto de Física da Universidade de São Paulo), Débora Garcia (Canal Futura) e Yurij Castelfranchi (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas).

Local: Auditório da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootécnica da USP - Av. Orlando Marques de Paiva, 87 - Cidade Universitária - São Paulo

Mais informações: www.fumvet.com.br


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