Financeirização das políticas de habitação é reflexo de práticas antigas, diz pesquisador | AGÊNCIA FAPESP

Financeirização das políticas de habitação é reflexo de práticas antigas, diz pesquisador Em palestra na FAPESP Week France, Fabrice Bardet, da Université de Lyon, destaca que o setor imobiliário ganhou relevância na transformação estrutural do capitalismo contemporâneo; pesquisador pretende, por meio de pesquisa colaborativa, entender a perspectiva histórica desse processo na França e no Brasil (foto: Wikimedia Commons)

Financeirização das políticas de habitação é reflexo de práticas antigas, diz pesquisador

27 de novembro de 2019

Maria Fernanda Ziegler, de Lyon | Agência FAPESP – A produção do espaço urbano se alterou profundamente nos últimos 30 anos em razão de políticas públicas e do aumento da importância dos circuitos transnacionais das finanças.

“O setor imobiliário ganhou relevância na transformação estrutural do capitalismo contemporâneo, processo reconhecido por autores de diversos campos do conhecimento como financeirização”, disse Fabrice Bardet, da Université de Lyon, em palestra apresentada na FAPESP Week France.

Bardet publicou recentemente um trabalho sobre o que ele chama de "contrarrevolução contábil", que mudou ou intensificou a forma de financeirização das políticas urbanas e, sobretudo, de moradia. A perspectiva de estudo está focada na governança das políticas públicas urbanas de um determinado local para entender quem são os “donos das cidades”.

“Nos anos 1970 e 1980, os principais atores, na França, eram os donos de terra, o Estado, os desenvolvedores. Hoje há um novo tipo de ‘dono’: o investidor financeiro. E esse novo ator tem o poder de redesenhar o desenvolvimento das cidades”, disse.

O foco do estudo, ele ressalva, não está na questão de circulação de capital, mas no cálculo de como serão as cidades de amanhã.

“O cálculo financeiro está invadindo organizações e também os espaços públicos. Antes, os donos das cidades usavam técnicas contábeis para calcular as riquezas. Para isso era preciso olhar para o passado, calcular o preço do terreno, os gastos com impostos, construção e manutenção. Já a técnica financeira tenta avaliar o futuro. Não é só a margem operacional que importa, mas também o retorno e o quanto vai valorizar. Como se vê, são padrões completamente diferentes e que não olham da mesma maneira para o lucro”, disse.

No entanto, Bardet afirma que, embora pareçam duas eras distintas, uma é consequência da outra. “Descobrimos que, lá no começo, os atores contábeis já se valiam de técnicas financeiras. Talvez o que chamamos de financeirização hoje seja só a expansão de uma prática muito antiga de um sistema muito bem construído na França”, disse.

Bardet tem realizado há cinco anos pesquisas colaborativas com as professoras Lucia Shimbo e Cibele Rizek , ambas do Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP).

O plano agora é lançar, em parceria com pesquisadores brasileiros, um projeto de pesquisa colaborativa sobre estudos urbanos e desenvolvimento imobiliário sob a perspectiva histórica da financeirização. O projeto é apoiado pelo Centre Nacional de Recherche Scientifique (CNRS).

“É uma maneira de desenvolvermos nossa perspectiva em relação ao desenvolvimento da avaliação financeira de territórios e também de discutir com colegas interessados pela relação entre habitantes e seus territórios. Nosso interesse é fazer também um link com o que chamamos agora de avaliação ambiental”, disse Bardet

O simpósio FAPESP Week France acontece entre os dias 21 e 27 de novembro, graças a uma parceria entre a FAPESP e as universidades de Lyon e de Paris, ambas da França. Leia outras notícias sobre o evento em www.fapesp.br/week2019/france/.
 

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