O virologista Edison Durigon, da USP, esclarece pontos importantes sobre a gripe aviária e estratégias que devem ser levadas em consideração para que uma catástrofe possa ser evitada (foto: E.Geraque)

Encruzilhada pandêmica
19 de julho de 2006

O virologista Edison Durigon, da USP, esclarece pontos importantes sobre a gripe aviária e estratégias que devem ser levadas em consideração para que uma catástrofe possa ser evitada

Encruzilhada pandêmica

O virologista Edison Durigon, da USP, esclarece pontos importantes sobre a gripe aviária e estratégias que devem ser levadas em consideração para que uma catástrofe possa ser evitada

19 de julho de 2006

O virologista Edison Durigon, da USP, esclarece pontos importantes sobre a gripe aviária e estratégias que devem ser levadas em consideração para que uma catástrofe possa ser evitada (foto: E.Geraque)

 

Por Eduardo Geraque, de Florianópolis

Agência FAPESP - Pela primeira vez na história da humanidade os virologistas estão conseguindo acompanhar a chegada de uma pandemia em tempo real. Com os meios de comunicação disponíveis hoje, e a crescente preocupação mundial com a transmissão do vírus da gripe aviária, todo novo caso é amplamente estudado e debatido. Por isso, nenhum pesquisador discorda de que a situação precisa ser monitorada em todos os cantos do mundo. É como se todos estivessem diante de uma encruzilhada.

"O risco existe em qualquer lugar. No Brasil, pelo menos podemos dizer que o vírus ainda não chegou. Todos os nossos dados indicam isso", disse Edison Durigon, virologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, à Agência FAPESP.

Durante palestra realizada na 58ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Florianópolis, o cientista esclareceu pontos importantes sobre a gripe aviária e divulgou dados que precisam ser levados em consideração para que uma catástrofe possa ser evitada.

Do ponto de vista evolutivo, uma das incongruências percebidas na relação vírus e hospedeiro, seja esse segundo conjunto representado pelo pato, ganso, frango, gato ou mesmo o homem, é que a patogenicidade do invasor é tão grande que ele acaba, em poucas horas, destruindo quase todos os órgãos do organismo infectado.

Talvez por isso uma das possibilidades para o futuro próximo pode ser uma estabilização do vírus dentro das várias populações. Ou seja, ele pode deixar de ser tão forte e tornar-se igual aos microrganismos que causam, por exemplo, a gripe comum. Mas, mesmo nesse caso, a diluição da patogenicidade poderá ser registrada tarde demais, quando o vírus H5N1, da gripe aviária, estiver totalmente adaptado ao homem.

"Para que isso ocorra, faltam apenas duas mutações nos aminoácidos do vírus. Hoje, os humanos ainda não têm receptores para esse vírus do tipo H5, apenas para os tipos H1, H2 e H3. Os casos registrados até agora foram de infecções que começaram já dentro do pulmão. Lá existem formas de o vírus entrar. Mas, para isso, a exposição deve ser feita a uma carga viral muito grande, como ocorre quando o indivíduo lida com uma ave contaminada. Não basta apenas um espirro", explicou Durigon.

De acordo com o pesquisador, o acompanhamento de patos (hospedeiro natural do vírus) e outros animais é essencial porque, a partir do momento em que um ser humano indicar a doença, e o vírus dentro dele for adaptável aos receptores superficiais – do nariz por exemplo –, será tarde demais. As previsões, antes mesmo de serem alarmantes, são reais e sombrias.

"Com o avião, se a pessoa for contaminada hoje em Hong Kong, ela vai chegar a São Paulo antes de manifestar a doença, o que ocorre em dois dias. Se ela for na 25 de Março [local de comércio popular na capital paulista que chega a receber mais de 1 milhão de pessoas aos sábados], a contaminação será muito grande. As estimativas falam em até 300 milhões de pessoas atingidas em todo o mundo, ou 5% da população mundial, se o vírus que causar a pandemia tiver alta patogenicidade", disse Durigon.

Com o relógio da pandemia disparado, todo cuidado é pouco, segundo o virologista. "A gripe aviária ainda não é inevitável. Mas se a gripe espanhola chegou em um momento [1918] em que 20% da população estava nas cidades, hoje temos 70%. Além disso, em todos os 226 casos já registrados de óbitos da gripe aviária, as pessoas tiveram assistência médica adequada e tomaram o medicamento indicado, mas a droga só faz efeito se for ministrada nas primeiras 24 horas da infecção. Se a situação for das piores, teremos dificuldade até mesmo para enterrar as pessoas", disse.

Durigon lembra que o governo brasileiro está preocupado com o problema e tem tomado medidas preventivas, como treinar equipes de veterinários para tratar adequadamente das suspeitas. Para o pesquisador, com um monitoramento adequado será mais fácil criar bloqueios geográficos nas regiões do mundo afetadas inicialmente pelo novo vírus H5N1, quando ele surgir.

"A arma mais efetiva seria a vacina. Mas, desde o momento em que o microrganismo for isolado pela primeira vez até a produção de vacinas, vai demorar de seis meses a um ano. Outro problema é que nossa capacidade atual é suficiente para vacinar apenas 30% da população", disse.

Para o pesquisador, criar uma consciência entre a população, e não alarmá-la, é outro caminho importante. Principalmente em regiões como no Norte e Nordeste do Brasil, onde existe um convívio muito grande, nos quintais das casas, entre animais e o homem.


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