Elizabeth Agassiz conseguiu detectar o lado humano das mulheres amazônicas. Ela visitou a floresta brasileira entre 1865 e 1866

Encontro de mulheres
14 de julho de 2005

Análise dos relatos de viagem da norte-americana Elizabeth Agassiz, que esteve na Amazônia brasileira em 1865, na expedição Thayer, permite melhorar o conhecimento das mulheres amazônicas daquele tempo

Encontro de mulheres

Análise dos relatos de viagem da norte-americana Elizabeth Agassiz, que esteve na Amazônia brasileira em 1865, na expedição Thayer, permite melhorar o conhecimento das mulheres amazônicas daquele tempo

14 de julho de 2005

Elizabeth Agassiz conseguiu detectar o lado humano das mulheres amazônicas. Ela visitou a floresta brasileira entre 1865 e 1866

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - O dia é 29 de agosto de 1865. A norte-americana Elizabeth Agassiz (1822-1907), mulher do naturalista suíço Louis Agassiz, que conduziu a importante expedição Thayer pela Amazônia brasileira, chega a um casebre no interior da então província do Pará. O relato chega a ser emblemático, sem idéias preconcebidas.

"Fizeram-nos afável e doce acolhida. As mulheres se agrupam em volta de mim e passam em revista as minhas vestimentas, porém sem grosseria nem rudeza. A rede que prende os meus cabelos muito lhes preocupa; depois pegam em meus anéis, meu correntão de relógio, e, evidentemente, discutem entre si a ‘branca’ (...)."

O trecho foi destacado por Fabiane Vinente dos Santos, pesquisadora da Coordenação de Sociodiversidade em Saúde do Centro de Pesquisas Leônidas e Maria Deane, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em Manaus, a partir dos relatos feitos por Elizabeth.

Em artigo publicado na revista História, Ciência, Saúde – Manguinhos, Fabiane faz uma análise do diário de viagem da expedição científica que percorreu o Brasil em 1865 e 1866. Todo o material foi publicado em forma de livro, na Inglaterra, em 1867.

"Minha atenção recaiu sobre Elizabeth não apenas pelo fato de ela ser mulher, e portanto portadora de um ponto de vista diferente de outros naturalistas e do marido, mas por ela ter tido a oportunidade de se aproximar das mulheres das localidades onde passou e de nos fornecer um pequeno esboço delas, grandes desconhecidas nossas", disse Fabiane à Agência FAPESP.

O marido de Elizabeth, e ela própria também, tinha uma visão muito determinista do mundo. O grande objetivo da viagem do naturalista europeu ao Brasil era provar, por exemplo, que Charles Darwin estava errado quando escreveu a teoria sobre a evolução das espécies. Para o naturalista suíço, a história natural nada mais era do que reflexo da visão do criador. Ele não aceitava a independência da natureza como defendia Darwin.


Partido das mulheres

Parte das impressões de Elizabeth, alocadas por Fabiane no subtítulo O encontro definitivo com a mulher amazônica, mostra que, ao menos em alguns momentos da viagem, a cronista se despiu das idéias européias. "Grande parte dos autores reforça apenas o preconceito e o determinismo do casal Agassiz, e essas outras impressões mais humanas acabam passando meio despercebidas", explica a pesquisadora da Fiocruz.

"Já era dia feito quando fui acordada pelas mulheres da casa, trazendo-me, com seus bons-dias, um apanhado encantador de rosas e jasmins colhidos nas proximidades. Depois de uma tão amável atenção, não lhes pude recusar o prazer de assistirem à minha toalete, e ainda menos deixar de consentir que abrissem a minha maleta e retirassem dela, um a um, todos os objetos." Na análise de Fabiane, esse trecho revela que Elizabeth acabou apresentando uma visão mais humana das mulheres amazônicas a partir do momento que ela passou a ter relações solidárias com elas.

"Ela fornece elementos importantes, como o impacto que a Guerra do Paraguai teve sobre a Província do Amazonas e também o papel das mulheres que experimentavam novas formas de ‘autonomia’ (bem entre aspas mesmo), impensável então para as áreas urbanas no país", explica Fabiane. Como o exército brasileiro foi buscar grande parte de seus homens em solo amazônico durante a guerra, o drama das mulheres sozinhas foi reforçado por uma grande mudança na estrutura social das comunidades.

"Atenuando algumas pré-noções, que até então marcavam seus comentários com notas extremamente moralistas, Elizabeth depara com uma mulher singular, com uma ‘vida invejável’. Ela toma partido das mulheres, denuncia a situação calamitosa da província do Amazonas durante a guerra", afirma Fabiane. Antes de mostrar esse entusiasmo com as mulheres locais, as frases do diário escrito pela norte-americana sempre apresentavam os indígenas como uma etnia frágil e, muitas vezes, imoral.

Para Fabiane, a visitante estrangeira acaba por apresentar uma nova possibilidade de análise das questões sociais da Amazônia, diferente do que tradicionalmente pautava as produções sobre a região. "Apesar de o discurso não estar totalmente pautado nessas questões mais humanas, isso não invalida a importância da contribuição que ela faz", afirma Fabiane.

O artigo, publicado no primeiro número do volume 12 da revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, pode ser lido na íntegra na biblioteca eletrônica SciELO (Bireme/FAPESP). Para ler, clique aqui.


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