Distritos de inovação devem contribuir para a reindustrialização do país, afirmam especialistas | AGÊNCIA FAPESP

Distritos de inovação devem contribuir para a reindustrialização do país, afirmam especialistas Políticas públicas e iniciativas que buscam criar um ambiente inovador nos municípios foram debatidas em mais um evento do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação (imagem: reprodução)

Distritos de inovação devem contribuir para a reindustrialização do país, afirmam especialistas

04 de novembro de 2022

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – O Brasil vem sendo palco de um prolongado processo de desindustrialização. A participação percentual do setor industrial no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro caiu quase pela metade ao longo das quatro últimas décadas, de 19,1% no início dos anos 1980 para 10,5% atualmente. No mesmo período, o percentual do PIB brasileiro no PIB global baixou de 2,8% para 1,4%.

Políticas de reindustrialização, que incorporem os critérios de sustentabilidade ambiental e justiça social, são urgentemente necessárias. E iniciativas como a criação de polos de desenvolvimento tecnológico, distritos de inovação e incubadoras de empresas devem ser pensadas, formatadas e postas em prática com tal objetivo.

Este foi um dos tópicos enfatizados no evento virtual “Inovação nos Municípios”, organizado no âmbito do Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação e que reuniu, no dia 24 de outubro, quatro especialistas no assunto.

O Ciclo ILP-FAPESP de Ciência e Inovação é resultado de uma parceria entre o Instituto do Legislativo Paulista (ILP) e a FAPESP. O objetivo é promover eventos de divulgação científica e tecnológica dirigidos a legisladores, gestores públicos e interessados.

Participaram desta edição Newton Frateschi, professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (IFGW-Unicamp) e vice-presidente do Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação de Campinas, que relatou os resultados obtidos no ecossistema de inovação da cidade; Vera Monteiro, professora de Direito Administrativo da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que fez uma apresentação detalhada do plano de implantação de um distrito de inovação na zona oeste da capital paulista, próximo ao campus da Universidade de São Paulo (USP); José Eduardo Fiates, diretor de Inovação e Competitividade da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, que vinculou os temas da inovação e da reindustrialização e reportou as experiências realizadas em Florianópolis; e Heraldo Ourem, diretor de Inovação e Competitividade Empresarial do Porto Digital, que trouxe dados sobre esse empreendimento exitoso em curso na cidade de Recife.

Aberto por Paula Schneider, analista legislativa do ILP, o seminário ainda teve uma fala de Leonardo Liébana, diretor de Comunicação da Assembleia Legislativa de São Paulo. E a moderação de Carolina Mota Mourão, assessora científica da FAPESP.

Frateschi destacou a necessidade de serem criados hábitats para a inovação. E informou que o “ecossistema de inovação de Campinas” é resultado de uma longa história, que começou em 1887, com a fundação do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), e culminou em 2018, com a conclusão da primeira etapa de construção do acelerador de partículas Sirius no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

“A peculiaridade desse sistema foi apoiar-se em instituições muito fortes, que dependiam pouco da interação entre si e da participação do poder público. Daí a necessidade de ações estruturantes, como a Lei de Inovação e a criação do Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação”, disse.

A partir da liderança do poder público, estabeleceu-se entre os diversos atores do sistema uma sensação de pertencimento à região, fortalecida por ações específicas, como a criação, pela Prefeitura, do Polo de Inovação e Desenvolvimento Sustentável (PIDS) como base para a implantação de um distrito moderno, de uso misto, voltado para inovação: o Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável (HIDS).

Esse histórico poderá, eventualmente, embasar iniciativas semelhantes em outros municípios, como a própria cidade de São Paulo. O Centro Internacional de Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo (CITI-SP) é um projeto com esse objetivo, como mostrou Vera Monteiro na segunda exposição do painel. “A ideia desse projeto, desenvolvido por equipe multidisciplinar, foi criar uma espécie de acelerador do processo de inovação no Estado”, disse a professora da FGV.

O projeto prevê o estabelecimento de uma área no município de São Paulo onde governo, universidades, institutos de pesquisa, laboratórios, agências de fomento, empresas de base tecnológica, incubadoras, aceleradoras e startups possam, dentro do mesmo ambiente urbano, potencializar sua atividade. A partir de um terreno de sua propriedade, o Estado atuaria como um indutor desse objetivo.

O projeto foi desmembrado em várias etapas. O chamado CITI I, que representa a primeira etapa, já existe, concentrado no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e incorporando várias empresas em área contígua à Cidade Universitária. O projeto segue com o CITI II, que recebeu o nome de Distrito de Inovação, e objetiva tanto reposicionar São Paulo no ambiente internacional quanto possibilitar a solução de problemas locais.

“A ideia é atrair todos os atores envolvidos no processo de inovação e, ao mesmo tempo, agregar a população do entorno. O que não se quer é criar mais um espaço excludente. Seus objetivos: gerar negócios que resultem em inovação, ampliar o esforço de inovação de grandes e médias empresas, promover o desenvolvimento de startups, aumentar a inserção do Estado de São Paulo no ambiente internacional de inovação e apoiar iniciativas para o desenvolvimento de talentos”, afirmou Monteiro.

O projeto foi inspirado em experiências como Barcelona@22 (em Barcelona, Espanha), Cornell Tech (em Nova York, Estados Unidos), Porto Digital (em Recife, Pernambuco) e o Dubai Science Park (em Dubai, Emirados Árabes). Se implementado integralmente, deverá estender-se por uma área de cerca de 80 mil metros quadrados (m2).

Em contraste com esse foco no planejamento, a criação do ecossistema de inovação de Florianópolis foi, como disse Fiates, um processo “caórdico”, combinando um pouco de caos e um pouco de ordem. “Muitas coisas aconteceram completamente por acaso. Na década de 1970, quando foi criada a Universidade Federal de Santa Catarina [UFSC], não existia indústria em Florianópolis. Apesar de parecer negativo, isso acabou sendo positivo, porque os professores se dedicavam totalmente à universidade, com ensino integral, pesquisa e extensão”, disse.

Segundo o diretor de Inovação e Competitividade da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina, o local também fez a diferença, porque muitos estudantes mudaram-se para Florianópolis atraídos pela beleza da cidade e a qualidade de vida que ela proporcionava. A partir da UFSC, o processo avançou com a criação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Catarina (Fapesc), inspirada pelo modelo da FAPESP, e, agregando incubadoras, programas de empreendedorismo, engajamento de entidades de classe, apoios federais e estaduais, resultou em iniciativas como o Sapiens Parque, hoje o parque mais estruturado da região, e outros hábitats tecnológicos de grande porte.

“Com 4,5 milhões de m2, a apenas 200 metros do mar, o Sapiens Parque, iniciado em 2002, já tem hoje cerca de 300 mil m2 de prédios construídos. É um parque de inovação que visa receber empresas de base tecnológica, empresas de serviços, empreendimentos nas áreas de arte e cultura, universidades, estabelecimentos comerciais e hoteleiros, com a possibilidade de residências temporárias”, informou Fiates.

Na outra ponta da costa brasileira, o Porto Digital, em Recife, Pernambuco, é uma experiência que conjuga inovação e inclusão social. “Com 22 anos de existência e cravado no coração da cidade, pode ser considerado o maior e mais relevante parque tecnológico urbano da América Latina”, informou Ourem.

Segundo o diretor, Recife vivia na época de criação do Porto Digital um processo de evasão de cérebros. “Embora tivesse uma grande capacidade de formação de capital humano qualificado, a falta de atividade econômica na região, piorada com o processo de abertura econômica da década de 1990, resultava em uma situação em que as pessoas formadas nas universidades e que haviam completado seus mestrados e doutorados iam embora em busca de oportunidades de trabalho. Além disso, ocorria um processo de degradação urbana na área central da cidade, muito comum em grandes metrópoles. Toda a atividade econômica que circulava na área portuária tinha se deteriorado”, contou.

Uma estratégia, tendo o governo estadual como protagonista, foi posta em prática para criação de cluster global de serviços de tecnologia e software que, ao mesmo tempo, proporcionasse um processo de recuperação urbana de uma parte da cidade que foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). “Os dois grandes propósitos, que permanecem até hoje, eram requalificar o tecido urbano central, cultural e histórico, que necessitava de reocupação, e criar um espaço de oportunidades para que o capital humano de alto nível pudesse permanecer e se desenvolver em sua própria região. Todo o casario histórico em torno do marco zero da cidade está hoje ocupado por atividades intensivas de ciência, tecnologia e inovação. Mais recentemente, a área do Porto Digital foi ampliada para os bairros adjacentes, agregando possibilidades de moradias no centro”, informou Ourem.

O êxito do Porto Digital, “criado em uma região periférica de um país periférico”, como lembrou o diretor, foi basear-se em um ecossistema universitário de alto nível, principalmente nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemáticas, que possibilitou a formação de mais de 600 doutores em ciência da computação e a maior quantidade per capita de estudantes de tecnologia da informação de todo o Brasil.

O evento virtual “Inovação nos Municípios” pode ser assistido na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=mue0hDwV52I.
 

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