Difícil inserção feminina | AGÊNCIA FAPESP

Conferência no Rio de Janeiro discute a partir de quarta (17/11) a participação e problemas enfrentados pelas mulheres no meio científico

Difícil inserção feminina

17 de novembro de 2004

Por Washington Castilhos, do Rio de Janeiro

Agência FAPESP - Historicamente, a ciência tem sido vista como uma atividade masculina. Até mesmo a imagem que costuma representar um cientista é a do homem de óculos, vestindo um jaleco branco, geralmente idoso.

"Esse estereótipo do cientista homem que está no inconsciente coletivo é uma imagem equivocada", observa a bióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Jacqueline Leta, uma das organizadoras da conferência "Mulher-Ciência: Mulheres Latino-Americanas nas ciências exatas e da vida", que acontece de quarta-feira (17/11) a sexta, no Hotel Othon do Rio de Janeiro.

A conferência terá um enfoque muito mais sociológico do que histórico. "A proposta é focar nos problemas que as mulheres enfrentam na ciência, visando à formulação de políticas públicas", explica Jacqueline.

Estudos apontam que a participação das mulheres na ciência sempre foi significativamente menor que a dos homens e que elas costumam enfrentar discriminação. No artigo As mulheres na ciência brasileira: crescimento, contrastes e um perfil de sucesso, Jacqueline mostra dados que sustentam o contraste. Na Academia Brasileira de Ciência, por exemplo, as mulheres ocupam cerca de 8% das cadeiras: são apenas 26 num total de 353 membros.

O estudo aponta também a disparidade no sistema de concessão de bolsas, especificamente na questão das bolsas de produtividade, que são as de maior nível hierárquico. Segundo dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), em 2002 havia, para cada pesquisador homem, 0,84 pesquisadora cadastrada no Diretório de Grupos de Pesquisa.

A relação diminui muito na concessão de bolsas de produtividade: para cada pesquisador contemplado com essa bolsa, há apenas 0,48 pesquisadora na mesma situação. "Homens e mulheres são avaliados da mesma forma, mas têm papéis distintos. O mérito não é pautado pela contribuição científica", afirma Jacqueline.


Desequilíbrio insistente

Por quê a física ou a astronomia são áreas tidas como predominantemente masculinas? Qual a causa para esse desequilíbrio de gêneros nas ciências? As mulheres são excluídas ou simplesmente não querem ocupar esses cargos?

"São tantas as informações contra a inserção de mulheres na ciência que elas podem não saber que querem entrar para essas áreas", acredita a pesquisadora, referindo-se aos estereótipos criados pela sociedade como uma das causas da escassez de mulheres no meio.

"Somos seres socialmente construídos, sofremos influência do meio. Se a mãe ou a professora dizem para uma criança que matemática não é coisa de menina, ela vai procurar outra área, mesmo tendo aptidão para a matemática. É necessário um trabalho no país de desconstrução desses mitos", acredita.

Além disso, as diferenças salariais por discriminação de sexo e até mesmo problemas de assédio sexual podem ser fatores que afastam as mulheres dos centros científicos. Há alguns anos, o artigo Nepotism and sexism in peer-review, publicado na Nature, causou polêmica no meio científico ao revelar que as pesquisadoras suecas recebiam 50% a menos do que colegas do sexo oposto.


Temas em discussão

Os participantes da conferência no Rio de Janeiro discutirão temas como as dificuldades sofridas no local de trabalho, carreira e família, estrutura de poder e ascensão profissional.

Uma das propostas é a atração de jovens para as diversas áreas da ciência. Para isso será analisado o papel da mídia e da educação na formação de estereótipos. A mesa redonda "Políticas Públicas em Ciência e Tecnologia" contará com a presença da ministra Nilcéia Freire, da Secretaria Especial da Mulher.

A contribuição da mulher na ciência e no desenvolvimento da América Latina também será enfocada. Cientistas como a tcheca naturalizada brasileira, Johanna Döbereiner (1924-2000), serão lembradas. A bióloga descobriu, no século passado, a íntima associação de determinadas bactérias com plantas e percebeu que essas agiam como uma espécie de adubo natural. Quando colocadas junto às sementes de soja, estimulavam o surgimento de estruturas nas raízes que facilitavam a maior absorção do nitrogênio do ar para as plantas.

Esses estudos permitiram a redução a zero dos custos com adubos nitrogenados, já que a bactéria fornecia "gratuitamente" esse elemento diretamente à planta. O resultado foi uma economia gigantesca na lavoura da soja – estimada em US$ 1,5 bilhão por ano –, tornando o país um dos líderes na produção mundial de soja.

Mais informações: www.cbpf.br/~mulher


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