Reprodução de obra de Jean Baptiste Debret

Crença científica
27 de novembro de 2003

Com base em estudos realizados em comunidades indígenas, Liana Trindade, antropóloga da Universidade de São Paulo, mostra a importância da crença do paciente em seu médico e nos procedimentos terapêuticos

Crença científica

Com base em estudos realizados em comunidades indígenas, Liana Trindade, antropóloga da Universidade de São Paulo, mostra a importância da crença do paciente em seu médico e nos procedimentos terapêuticos

27 de novembro de 2003

Reprodução de obra de Jean Baptiste Debret

 

Por Eduardo Geraque

Agência FAPESP - A cena é recorrente em tribos guaranis. Primeiro, determinados integrantes da aldeia começam a perder peso e ficam mais fracos. Em seguida, passam a sentir um certo vazio e a vida parece perder sentido. A doença, chamada de "susto" ou "espanto" entre os índios, pode ser comparada à depressão que surge nas sociedades modernas.

O ritual de cura, feito pelo xamã, consiste em uma evocação aos espíritos. A crença é que a doença tenha surgido porque algum espírito da natureza roubara a alma do indivíduo acometido. O processo dura 12 horas. Além de danças e cânticos, durante todo o tempo o vapor do tabaco que sai do cachimbo do xamã é inalado pelo paciente.

"O cachimbo é o que na antropologia se chama de símbolo-chave", disse Liana Trindade, professora associada em Antropologia da Universidade de São Paulo, atualmente aposentada, durante conferência no primeiro Simpósio Internacional sobre o Uso de Plantas Medicinais em Psiquiatria, nesta quinta-feira (27/11), em São Paulo.

Para a pesquisadora, a cura geralmente subjetiva que ocorre não é por causa do tabaco, mas relacionado ao processo ritualístico associado à inalação do vapor da planta. "Tudo se faz entre o rito e o mito", disse. Durante o ritual, segundo Liana, é comum que os índios sofram com alucinações. "Eles dizem ter visões de espíritos que vagam."

As ligações entre os processos bioquímicos, psíquicos e socioculturais não podem ser desprezadas, na visão da cientista social. O fato de a emoção estar presente no ritual feito pelo xamã, associada à liberação de adrenalina, acaba causando um impacto no sistema nervoso do paciente, tanto no central como no periférico.

"O mesmo processo lógico serve para as chamadas tribos urbanas. A crença no médico, no diagnóstico e no tratamento são fundamentais para que o quadro evolua e a cura fique mais próxima", acredita Liana.


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