Coletânea discute o papel da mulher na produção científica do Brasil

Brasileiras e cientistas
29 de junho de 2006

Iapar lança coletânea sobre a produção científica construída a partir da participação feminina. Segundo a publicação, muito do conhecimento gerado pelas mulheres foi atribuído aos homens

Brasileiras e cientistas

Iapar lança coletânea sobre a produção científica construída a partir da participação feminina. Segundo a publicação, muito do conhecimento gerado pelas mulheres foi atribuído aos homens

29 de junho de 2006

Coletânea discute o papel da mulher na produção científica do Brasil

 

Por Thiago Romero

Agência FAPESP - Traçar um panorama histórico da inserção feminina na pesquisa científica e tecnológica no Brasil e mostrar as barreiras e dificuldades encontradas pelas mulheres em relação a seus colegas do sexo masculino.

Esse são objetivos do livro Ciência, tecnologia e gênero: Desvelando o feminino na construção do conhecimento, organizado pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar) e que será lançado nesta quinta-feira (29/6), em Londrina (PR). A cerimônia marca também os 34 anos de fundação da instituição.

A coletânea reúne oito capítulos sobre a produção de ciência e tecnologia no Brasil e em outros países, sempre sob a ótica do gênero. "Desde os tempos mais remotos da história da ciência, a construção do conhecimento sempre foi vista como atividade masculina. Os homens eram considerados mais racionais e objetivos", disse a socióloga Lucy Woellner dos Santos, uma das organizadoras do trabalho, à Agência FAPESP.

As outras organizadoras do livro são Elisa Yoshie Ichikawa, professora do Departamento de Administração da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e Doralice de Fátima Cargano, psicóloga especialista na área de Comportamento e Psicologia Organizacional e ex-coordenadora da Área de Planejamento Institucional do Iapar.

"Nossa intenção foi mostrar, a partir da literatura, de estatísticas e de relatos de casos, que esse estereótipo masculino está sendo quebrado. Desde a Idade Média as mulheres produzem tecnologia, seja no âmbito doméstico, como para o processamento e conservação de alimentos, ou no atendimento a familiares doentes, por exemplo", disse Lucy, assessora em planejamento e gestão da diretoria do Iapar. "O problema é que todo conhecimento produzido pelas mulheres era atribuído aos homens."

O livro mostra o crescimento da participação feminina na pesquisa brasileira com base no banco de dados do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). "Hoje, ainda temos maioria masculina. Mas, se olharmos os indivíduos que estão ingressando em carreiras científicas, a tendência é uma participação maior das mulheres. Isso pode ser visto na predominância feminina como docentes em escolas e universidades brasileiras", disse Lucy.

Apesar dos avanços, Lucy aponta que ainda existem muitas formas de segregação, na maioria das vezes velada. "Ninguém diz que as mulheres são intelectualmente inferiores. No entanto, elas ainda têm dificuldades para ocupar cargos de direção, por exemplo."

A publicação relata ainda estudos que revelam a potencialidade feminina em produzir com a mesma qualidade e intensidade dos homens, desde que as condições materiais e de tempo sejam iguais. Um capítulo específico enfoca a trajetória de Bertha Lutz (1894-1976).

"Ela teve uma história singular e privilegiada por ser filha de um grande cientista, o Adolpho Lutz. Com uma história de vida ligada ao campo da ciência, ela serviu de referência para muitas outras mulheres e conseguiu mudar o modelo masculino de pesquisa", disse.

Bertha, bióloga de formação, foi a segunda mulher a ingressar no serviço público brasileiro, em 1918, ao passar no concurso para o Museu Nacional. Se as mulheres podem votar e serem votadas hoje, isso ocorre por causa de uma legislação criada com a ajuda da líder feminista, filha de Lutz com a enfermeira inglesa Amy Fowler.

Mais informações: lucyws@iapar.br.


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