Aves que dispersam mais tipos de sementes têm maior chance evolutiva | AGÊNCIA FAPESP

Aves que dispersam mais tipos de sementes têm maior chance evolutiva Estudo realizado na Universidade de São Paulo e publicado na revista Science correlaciona aves e plantas em redes de dispersão de sementes (sanhaço-cinzento; foto: Rodrigo Gusmão)

Aves que dispersam mais tipos de sementes têm maior chance evolutiva

15 de julho de 2021

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Mais de 70% das espécies vegetais que produzem flores dependem de aves para dispersar suas sementes. Como as aves consomem frutos de diferentes espécies vegetais, a interação ave-planta configura uma série de redes complexas.

Um estudo, conduzido no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), mostrou que a estabilidade evolutiva de cada espécie de ave depende da posição que ela ocupa na rede, sendo tanto maior quanto maior o número e mais centrais são as interações que estabelece com potenciais espécies de plantas parceiras – isto é, quanto mais conexões mantenha com diferentes partes da rede como um todo.

Os resultados da pesquisa, que contou com apoio da FAPESP, foram divulgados na revista Science.

“As espécies de aves que ocupam posições mais centrais na rede, isto é, que se conectam mais, tendem a ser mais estáveis em termos macroevolutivos”, diz à Agência FAPESP Gustavo Burin, primeiro autor do artigo.

O pesquisador conta que estabelecer essa correlação entre as interações das espécies e sua dinâmica evolutiva constituiu um enorme desafio, porque foi necessário cotejar dois processos que ocorrem em escalas de tempo completamente diferentes. A dispersão de sementes se dá na escala do ano, enquanto a evolução acontece na de milhões de anos.

“Trabalhamos durante quatro anos no tema, integrando dados de 468 espécies de aves pertencentes a 29 redes de dispersão de sementes. E demonstramos que, quanto mais vínculos a espécie de ave estabelece com espécies de plantas, maior sua chance evolutiva. Ou, dito talvez de forma mais precisa: quanto maior a estabilidade evolutiva de uma espécie de ave, mais chance nós temos de observar sua importância relativa dentro de uma rede de dispersão de sementes – importância que é avaliada pelo número e padrão de interações que a espécie estabelece”, afirma Burin.

“As espécies que ocupam posições centrais na rede atendem a uma de duas características: ou são mais longevas, com maior tempo de existência no planeta, ou são aquelas que pertencem a grupos que acumularam muitas espécies em intervalo de tempo relativamente curto, de modo que se uma espécie desaparece outras muito parecidas a substituem”, complementa o pesquisador.

Entre as aves nativas no território brasileiro, dois exemplos de espécies longevas são o sabiá-laranjeira ( Turdus rufiventris) e o sanhaço-cinzento ( Thraupis sayaca).

“Estamos aqui enfatizando a importância das interações com as plantas para o sucesso evolutivo da espécie de ave. Mas a recíproca também pode ser verdadeira. Plantas que podem contar com mais espécies de aves para disseminar suas sementes têm maior chance de se propagar e sobreviver. Quando existe um animal vertebrado dispersor, a semente pode ser levada a dezenas de quilômetros de distância da sua posição de origem”, ressalta Burin.

Esse mecanismo é mais intenso e efetivo em regiões quentes, úmidas e menos sujeitas a variações sazonais. Não é por acaso que a Amazônia colombiana e o sudeste asiático abrigam os principais santuários de biodiversidade do planeta, tanto animal quanto vegetal.

A pesquisa combinou dados ecológicos, modelagem matemática e computacional e ferramentas analíticas derivadas do estudo de redes complexas. E, além de Burin, teve a participação de Paulo Guimarães Jr e Tiago Quental.

Recebeu financiamento da FAPESP por meio de cinco projetos (2014/03621-9, 2018/04821-2, 2018/14809-0, 2012/04072-3 e 2018/05462-6).

O artigo Macroevolutionary stability predicts interaction patterns of species in seed dispersal networks pode ser acessado em: https://science.sciencemag.org/content/372/6543/733. E um comentário, também publicado com destaque pela revista Science, pode ser lido em: https://science.sciencemag.org/content/372/6543/682.

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