Amor pela filosofia inspirou a primeira obra de Dante Alighieri no exílio | AGÊNCIA FAPESP

Amor pela filosofia inspirou a primeira obra de Dante Alighieri no exílio O Convívio, livro que antecedeu A Divina Comédia e inaugurou a segunda fase literária do grande poeta italiano, é republicado agora em português com nova tradução (Dante a Verona, de Antonio Maria Cotti / Wikimedia Commons)

Amor pela filosofia inspirou a primeira obra de Dante Alighieri no exílio

26 de abril de 2019

José Tadeu Arantes  |  Agência FAPESP – O Convívio, primeira obra escrita por Dante Alighieri (c. 1265-1321) no exílio, está novamente ao alcance dos leitores de língua portuguesa. Com nova tradução, segundo rigorosos critérios filológicos, introdução e notas de Emanuel França de Brito, o livro foi lançado neste ano.

Partidário dos Guelfos Brancos, que reivindicavam mais liberdade para Florença frente ao poder do Papado, Dante foi exilado em 1302. E permaneceu fora de sua cidade natal até o fim da vida. Esse corte radical teve profundas consequências em sua produção literária. Afastado da atividade política, que consumia boa parte de seu tempo e energia, ele se voltou para a reflexão filosófica e a busca espiritual, disso resultando sua obra maior, A Divina Comédia.

“Dante tem uma biografia pré e uma biografia pós-exílio. O Convívio foi a obra que inaugurou seu segundo período. É um texto ambicioso, porém inacabado, que antecipa ideias que seriam, depois, plenamente elaboradas e explicitadas em A Divina Comédia”, disse Brito à Agência FAPESP. Professor de língua e literatura italianas na Universidade Federal Fluminense (UFF), ele investigou o Convívio em sua pesquisa de doutorado, desenvolvida na Universidade de São Paulo (USP) com bolsa da FAPESP.

No Convívio, Dante substitui seu amor pela jovem identificada como Beatrice Portinari (1266-1290), a bela filha da alta burguesia florentina pela qual teria se apaixonado aos nove anos de idade e que seria a inspiradora de sua obra Vida Nova, por outra dama mais austera: a filosofia. Mas a alma de Beatrice, morta muito cedo, aos 25 anos, voltaria posteriormente ao texto de Dante, como condutora do poeta pelo Paraíso, na terceira e última parte de A Divina Comédia.

O Convívio foi, de certa forma, resultado de duas perdas. Depois na morte de Beatrice, Dante socorreu-se no estudo da filosofia. Em 1302, ao perder também seu segundo grande amor, a cidade de Florença, retomou o estudo, agarrando-se a ele como a uma tábua de salvação. E comentou as canções herméticas de teor filosófico que havia composto naquele primeiro momento. “No Convívio, ele procurou tratar desse amor pela filosofia, desse amor pelo conhecimento, de uma forma mais teórica, mas em conexão com a sua poesia”, disse Brito.

Dante idealizou a obra em 15 partes, das quais escreveu efetivamente quatro: um tratado introdutório e mais três de comentários. Nos dois primeiros comentários, discorreu sobre os grandes filósofos que o levaram a trilhar o caminho do conhecimento e sobre como o pensamento deles se manifestou em sua poesia. No último, tratou da nobreza. Não da nobreza de berço ou hereditária, mas da nobreza como dom divino, da nobreza de caráter.

“O interessante é que Dante desenvolveu essas reflexões a partir de poemas próprios. Os dois primeiros tratados apoiam-se em canções de alegoria muito fechada, escritas antes do exílio. Nessas canções, ele evocou essa dama misteriosa que não era uma mulher comum. Que essa dama fosse a filosofia, isso só ficou explícito nos comentários do Convívio. Na canção que fundamenta o último tratado, Dante abandonou a alegoria, e discorreu sobre a nobreza de modo explícito”, disse Brito.

O grande fio que amarra o Convívio e a Divina Comédia é a busca de uma iluminação. No Convívio, Dante supôs que poderia chegar a isso pela via intelectual. Na Divina Comédia, a partir da grande alegoria que é a viagem pelo mundo dos mortos, sua busca tornou-se claramente espiritual, embora sempre apoiada no solo terreno.

“Dante nunca deu o Convívio para a publicação. Guardou o original, que passou a circular apenas após sua morte. Assim, por quase dois séculos, o Convívio foi transmitido por meio de cópias manuscritas, antes que se chegasse à edição impressa, em 1490. Esse período de transmissão manuscrita gerou uma série de variantes, de modo que hoje há diferentes reconstruções críticas da obra. Em minha tese de doutorado, tratei, em certa medida, dessa questão. Adotei uma das reconstruções críticas e apresentei também, traduzidas, as variantes de mais relevo do ponto de vista filológico”, disse Brito.

No livro agora publicado, para tornar o material mais acessível, as questões filológicas foram deixadas de lado. O pesquisador traduziu o texto-base adotado, escreveu uma introdução geral à vida e à obra de Dante e, nas notas, fixou-se mais nos aspectos históricos, intertextuais e intratextuais, estabelecendo conexões entre o Convívio e outros escritos do poeta florentino.

A erudição exibida por Dante no Convívio, e mais ainda em A Divina Comédia, suscitou a lenda de que ele teria estudado filosofia em Paris, na França, ou até mesmo em Oxford, na Inglaterra, dois grandes centros de instrução filosófica da época. Mas, segundo Brito, essa ideia é tida hoje pela crítica como não sendo possível de confirmar e nem de desmentir. “O mais provável é que tenha tido instrução filosófica nos mosteiros franciscano e beneditino da própria Florença, além de períodos nos centros intelectuais da vizinha Bolonha. Posteriormente, no exílio, seu progresso intelectual e espiritual parece ter-se apoiado muito mais no autodidatismo”, disse.

Convívio
Autor: Dante Alighieri
Tradução, introdução e notas: Emanuel França de Brito
Apresentação: Giorgio Inglese
Editora: Companhia das Letras, em associação com Penguin Group
Ano: 2019
Páginas: 480
Preço da edição impressa: R$ 49,90
Preço do e-book: R$ 29,90
Mais informações: www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=85203.
 

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