As palavras são de Celso Lafer, presidente da FAPESP, em nota de pesar (a seguir) pelo falecimento da antropóloga aos 77 anos, em decorrência de problemas cardíacos, na noite de terça-feira (24/6), em São Paulo. O enterro será na manhã desta quinta-feira, no cemitério da Consolação.
Lafer destaca o "inovador exemplo de utilização do conhecimento como meio de ação social" e "a consciência do papel dos movimentos sociais [como] elemento essencial para a adequada compreensão da realidade da sociedade contemporânea", constantes na carreira e na vida da antropóloga.
"Cumpre à FAPESP igualmente prestar homenagem à professora universitária que foi pesquisadora vinculada a esta instituição, além de nossa assessora científica, integrando a tradicional parceria existente entre a comunidade acadêmica e a Fundação – principal razão, aliás, do seu sucesso ao longo dos mais de 45 anos desde sua criação", destacou.
Mulher do ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso, com quem se casou em 1953 e teve três filhos, Ruth Vilaça Corrêa Leite Cardoso nasceu em 19 de setembro de 1930, em Araraquara, interior paulista.
Fez graduação, mestrado e doutorado na Universidade de São Paulo e pós-doutorado na Universidade Colúmbia, nos Estados Unidos. Foi professora de antropologia e ciência política na USP e pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
Como docente e pesquisadora também atuou na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, na Universidade do Chile, na Maison des Sciences de L’Homme, na França, e na Universidade da Califórnia em Berkeley.
Foi presidente do conselho da Comunidade Solidária e presidente e fundadora da Comunitas, organização não-governamental promotora de parcerias entre sociedade civil, universidades e empresas.
Foi também presidente do conselho assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento sobre Mulher e Desenvolvimento, membro da junta diretiva da UN Foundation e da Comissão da Organização Internacional do Trabalho sobre as Dimensões Sociais da Globalização e da Comissão sobre a Globalização.
Entre seus livros estão Estrutura familiar e mobilidade social (1972), A aventura antropológica: teoria e pesquisa (1986), A trajetória dos movimentos sociais (1994) e Estrutura familiar e mobilidade social: estudos dos japoneses no Estado de São Paulo, tese de doutorado publicada em livro em 1995, em português e japonês.
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Nota de pesar pelo falecimento de Ruth Cardoso
No momento em que a nação brasileira manifesta seus sentimentos em razão do falecimento de Ruth Cardoso, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) gostaria de destacar alguns aspectos que entende fundamentais da vida desta professora que soube, com rara proficiência, aliar virtudes pessoais e acadêmicas com ação social.
Ruth Cardoso, desde que desempenhou relevante papel público como esposa do Presidente Fernando Henrique Cardoso – dando, aliás, inédita dimensão às atribuições usualmente desempenhadas pelo cônjuge do chefe de Estado no Brasil –, tornou visíveis para a população diversas de suas qualidades pessoais, dentre as quais têm especial relevo sua dignidade e integridade de caráter, sua simplicidade no trato com as pessoas, sua sensibilidade social e seu profundo conhecimento da realidade brasileira.
A síntese dessas virtudes resultou no programa Comunidade Solidária, verdadeiro marco em termos de uma nova visão das políticas sociais em nosso país, tendo como essência a utilização do conhecimento como vetor na qualidade de vida da população e como criação efetiva de uma cidadania econômica e política.
A FAPESP, dada sua missão institucional como agência de fomento à pesquisa científica e tecnológica, é particularmente sensível ao modo pelo qual Ruth Cardoso deu um inovador exemplo de utilização do conhecimento como meio de ação social.
Entretanto, cumpre à FAPESP igualmente prestar homenagem à professora universitária que foi pesquisadora vinculada a esta instituição, além de nossa assessora científica, integrando a tradicional parceria existente entre a comunidade acadêmica e a FAPESP – principal razão, aliás, do seu sucesso ao longo dos mais de 45 anos desde sua criação.
Como acadêmica, os caminhos percorridos por Ruth Cardoso a levaram da antropologia à ciência política, permitindo que, nesta última área, enfrentasse temas fundamentais, até então não muito presentes nas pesquisas em nosso país, tais como a sociedade civil e seu modo de ação em organizações não-governamentais; os movimentos sociais; e as reivindicações de gênero.
O foco de Ruth Cardoso estava, desse modo, mais fixado sobre o ambiente da sociedade civil, em sua relação com o Estado, do que sobre o ambiente interno do próprio Estado.
E a consciência do papel dos movimentos sociais é elemento essencial para a adequada compreensão da realidade da sociedade contemporânea. Nas palavras de Ruth Cardoso, ao prefaciar o livro O poder da identidade, de Manuel Castells, "aprendemos como se formam novos atores sociais, como sua atuação é fragmentada, muitas vezes isolada, mas sempre em interação com os aparatos do Estado, redes globais e indivíduos centrados em si mesmos. Todos esses elementos não se articulam, pois suas lógicas são diferentes e sua coexistência não será pacífica; mas certamente será ‘produtiva’ para a transformação da sociedade. A globalização não apagou a presença de atores políticos. Criou para eles novos espaços pelos quais se inicia um processo histórico que não tem direção prevista. A criatividade, a negociação e a capacidade de mobilização serão os mais importantes instrumentos para conquistar um lugar na sociedade em rede".
Mas também, a par de veicular a manifestação institucional da Fundação que presido, não poderia deixar de mencionar, pessoalmente, a amizade que por longos anos tive o privilégio de manter com Ruth Cardoso, cujo conselho tantas vezes busquei na minha vida acadêmica e pública, bem como minha admiração sincera de seu conjunto de virtudes que a tornou uma pessoa especial.
É com grande tristeza, portanto, que compartilho o momento de dor que todos agora sentem, particularmente meu amigo Presidente Fernando Henrique Cardoso, seus filhos Luciana, Bia e Paulo Henrique, netos e demais familiares.
São Paulo, 25 de junho de 2008.
Celso Lafer
Presidente
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