O continente africano é sub-representado em bancos de dados de genomas. Além de permitir incluir as populações africanas em iniciativas de medicina de precisão, que utiliza informações genéticas para os tratamentos, as sequências obtidas em Angola podem ser importantes para conhecer a diversidade genética brasileira (imagem: Freepik)
Em parceria com pesquisadoras de Angola, professora da Unicamp vai liderar sequenciamento de 750 amostras de DNA daquele país; informações vão contribuir para o desenvolvimento da medicina de precisão
Em parceria com pesquisadoras de Angola, professora da Unicamp vai liderar sequenciamento de 750 amostras de DNA daquele país; informações vão contribuir para o desenvolvimento da medicina de precisão
O continente africano é sub-representado em bancos de dados de genomas. Além de permitir incluir as populações africanas em iniciativas de medicina de precisão, que utiliza informações genéticas para os tratamentos, as sequências obtidas em Angola podem ser importantes para conhecer a diversidade genética brasileira (imagem: Freepik)
André Julião | Agência FAPESP – Embora tenha mais de 2 mil grupos etnolinguísticos e seja a origem da espécie humana, o continente africano é extremamente sub-representado em bancos de dados de genomas. Essas informações são essenciais, por exemplo, para estudar doenças que afetam mais ou menos certos grupos étnicos e direcionar tratamentos.
Para suprir a lacuna de conhecimento existente sobre a genética do continente mais diverso do planeta, um grupo liderado por pesquisadores africanos está empenhado na coleta de amostras e no sequenciamento de genomas de populações residentes em oito países africanos. Somada a África do Sul, que coordena parte do projeto, são nove países africanos envolvidos, além de parceiros em outros cantos do globo.
Os desafios e próximos passos do projeto, batizado de AGenDA (Avaliando a Diversidade Genética na África, na sigla em inglês), foram descritos em artigo publicado na revista Nature.
No Brasil, o grupo da professora Iscia Lopes-Cendes, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp), vai sequenciar 750 amostras de DNA coletadas em Angola.
A coordenação das coletas e da extração do DNA no país africano foi de Maria Madalena Chimpolo, das universidades angolanas Katyavala Bwila e Agostinho Neto. Outro envolvido no projeto, que também assina o trabalho, é Nasser Calumbuana, médico e professor nesta última instituição.
“O AGenDA é uma continuação do Human Heredity and Health in Africa [H3Africa], que começou cerca de uma década atrás e teve êxito em ser o primeiro projeto de diversidade genética a tentar unir todo um continente. No entanto, algumas regiões continuam sub-representadas. O objetivo agora é amostrar algumas populações que ficaram de fora da primeira iniciativa”, explica a professora da Unicamp, única brasileira que assina o artigo.
Lopes-Cendes é uma das pesquisadoras principais do Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) financiado pela FAPESP e sediado na Unicamp.
Estão envolvidas ainda no projeto Nkembi Matilde Miguel Ferraz, angolana que realiza doutorado sob orientação de Lopes-Cendes com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e que também assina o artigo. Além dela, Thais Crippa de Oliveira, que realizou pós-doutorado, supervisionado pela pesquisadora, com bolsa da FAPESP, também integra o projeto.
Além de permitir incluir as populações africanas em iniciativas de medicina de precisão, que utiliza informações genéticas para os tratamentos, as sequências obtidas em Angola podem ser importantes para conhecer a diversidade genética brasileira.
A chamada rota de Angola forneceu cerca de 40% dos 10 milhões de africanos trazidos para as Américas, segundo o Geledés – Instituto da Mulher Negra, organização da sociedade civil voltada ao combate do racismo e do sexismo. No Brasil, os navios que partiam da costa dos atuais territórios do Congo e de Angola se destinavam principalmente aos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro.

“Um traço muito positivo é que são os pesquisadores africanos que conduzem todo o processo. Além disso, os dados vão ficar armazenados no continente”, conta Lopes-Cendes, da Unicamp (foto: arquivo pessoal)
Novo horizonte
O H3Africa levou ao sequenciamento de 432 genomas de indivíduos de 50 grupos etnolinguísticos em 13 países. Em um trabalho que descreveu parte dos resultados, publicado em 2020 na revista Nature, os autores enfatizam a extensa variabilidade genética do continente, tanto geograficamente quanto pela etnicidade autodeclarada.

Nkembi Matilde Miguel Ferraz, cientista angolana que realiza doutorado sob orientação de Lopes-Cendes, também assina o artigo publicado na Nature (foto: arquivo pessoal)
Apesar do número de amostras considerado modesto para os padrões atuais, na ocasião foram identificados mais de 3 milhões de novas variantes genéticas. A maioria das amostras era da região conhecida como Níger-Congo, grupo étnico mais populoso e amostrado no continente. Porém, a maior parte dos 2 mil grupos etnolinguísticos do continente continua não amostrada.
Por isso, o esforço atual pretende dar conta de populações deixadas de lado no último grande levantamento, como falantes de línguas afro-asiáticas, caçadores-coletores do sul do continente, forrageiros da África Central e populações do norte africano e de ilhas no Índico. Esses grupos estão em um ou mais de oito países: Angola, República Democrática do Congo, Ilhas Maurício, Quênia, Líbia, Ruanda, Tunísia e Zimbábue.
“Um traço muito positivo é que são os pesquisadores africanos que conduzem todo o processo. Além disso, os dados vão ficar armazenados no continente e até mesmo as amostras que forem sequenciadas fora do continente, utilizadas ou não, voltarão posteriormente”, conta Lopes-Cendes, que vai enviar de volta todo o material usado para Angola, onde ela ajudou a implementar uma infraestrutura de pesquisa.
“Esperamos que nossa colaboração seja uma vitrine para incentivar outras pesquisas na área e ajudar a estruturar as agências de financiamento e instituições de pesquisa africanas, grande parte ainda muito carente de recursos”, encerra a pesquisadora.
O artigo Enriching African genome representation through the AGenDA Project pode ser lido em: nature.com/articles/s41586-025-09935-7.
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