A safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2025 foi 18% maior do que a de 2024, recorde da série histórica. Arroz, milho e soja são os três principais produtos, que, somados, representam 93% da estimativa de produção e 88% da área a ser colhida (foto: Conab/divulgação)

Agricultura sustentável
Modelo mapeia com mais precisão impactos de geadas em lavouras de milho
19 de janeiro de 2026

Ferramenta usa sensoriamento remoto para reduzir incertezas quanto às perdas agrícolas, contribuindo com políticas públicas

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Ferramenta usa sensoriamento remoto para reduzir incertezas quanto às perdas agrícolas, contribuindo com políticas públicas

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A safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas em 2025 foi 18% maior do que a de 2024, recorde da série histórica. Arroz, milho e soja são os três principais produtos, que, somados, representam 93% da estimativa de produção e 88% da área a ser colhida (foto: Conab/divulgação)

 

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma metodologia que permite mapear, por meio de sensoriamento remoto, os impactos de geada nas lavouras de milho, reduzindo a exposição a riscos climáticos e a incerteza quanto às perdas agrícolas.

O modelo permite personalizar um conjunto de variáveis, o que pode ser útil para outras culturas em diversos contextos agrícolas. Tem, assim, potencial para nortear estimativas mais precisas durante as safras e contribuir para a elaboração de políticas públicas voltadas a apoiar cadeias produtivas e dar suporte a sistemas de seguro.

Com a produção mundial de grãos, especialmente arroz, milho, trigo e soja, concentrada em cinco países – China, Estados Unidos, Índia, Brasil e Argentina –, oscilações de safras podem provocar efeitos tanto nos preços como no abastecimento mundial. Além disso, essas culturas têm sofrido com os impactos das mudanças climáticas, expostas a secas severas, chuvas extremas e geadas mais frequentes, levando o tema dos sistemas agroalimentares a rodadas de negociação como a COP30, realizada em Belém (PA).

No estudo, os cientistas mapearam mais de 700 mil hectares de milho plantados na segunda safra na mesorregião oeste do Estado do Paraná (Toledo e Cascavel) para identificar os danos provocados por geadas registradas entre maio e junho de 2021, consideradas severas.

Eles integraram dados de sensoriamento remoto óptico (sensor MultiSpectral Instrument, de média resolução espacial, a bordo dos satélites da missão Sentinel-2) a técnicas de aprendizado de máquina (algoritmo Random Forest). Obtiveram 96% de acerto no mapeamento das lavouras de milho, revelando que 70% delas foram prejudicadas pelas geadas no período. Com o método, que chamaram de GEEadas, conseguiram apontar em mapa as áreas afetadas.

Os resultados foram publicados na edição de dezembro da revista Remote Sensing Applications: Society and Environment.

“Em 2021, tivemos uma seca que atrapalhou o plantio de soja no Paraná e, por consequência, atrasou o de milho. Depois, em junho, veio a informação da geada. Aquela região normalmente registra altos índices de chuva, o que beneficia as culturas. Mas vemos que o clima nos últimos anos não está em sua normalidade”, diz o pesquisador Marcos Adami, da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática (DIOTG) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos autores do artigo. “Uma quebra de safra ali afeta muito a vida das pessoas, que dependem na maioria da agroindústria. Desenvolver esse estudo é uma forma de prover ferramentas que deem respostas e contribuam para o planejamento de medidas que auxiliem na manutenção dessa importante atividade.”

Juntamente com o professor Michel Eustáquio Dantas Chaves, da Faculdade de Ciências e Engenharia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Tupã (SP), Adami vem trabalhando há alguns anos em pesquisas com sensoriamento remoto voltadas a aplicações práticas na agricultura.

“Os produtores ainda enfrentam uma série de incertezas climáticas durante a safra, especialmente quando há eventos extremos, como geadas, que têm impactos sociais, econômicos e ambientais. Nesses casos é preciso identificar quanto da lavoura foi afetada para informar o produtor, os bancos que concedem crédito ou os órgãos institucionais. Esse método traz precisão, indicando a área afetada e reduzindo incertezas”, afirma Chaves, primeiro autor do artigo, que recebeu apoio da FAPESP.

Importância do setor

Na estimativa de outubro de 2025, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que a safra nacional de cereais, leguminosas e oleaginosas foi de 345,6 milhões de toneladas – 18% maior do que a de 2024, recorde da série histórica. Arroz, milho e soja são os três principais produtos, que, somados, representam 93% da estimativa de produção e 88% da área a ser colhida.

O Paraná é o segundo maior produtor de grãos do país, atrás apenas do Estado de Mato Grosso. Para o milho, a estimativa de produção em 2025 foi de 141,6 milhões de toneladas, também recorde.

De acordo com a pesquisa, na safra 2019/2020 a produção atingia cerca de 103 milhões de toneladas. Representava o dobro da década anterior, com três quartos da oferta provenientes da segunda safra, quando o milho é cultivado após a colheita da soja e colhido entre junho e julho. O incremento foi possível graças a mudanças nas práticas de manejo, com a adoção de novos fertilizantes e cultivo de milho de ciclo curto, por exemplo.

Geralmente, a segunda safra de milho apresenta maior risco do que a primeira por causa da menor disponibilidade de água e da exposição a eventos climáticos, incluindo geadas. Apesar de contar com sistemas de alerta de risco de geada, o Brasil ainda tem carência de metodologias precisas para avaliar os prejuízos causados.

Buscando validar o método, os pesquisadores compararam a área de mapeamento de milho e estimativas de danos por geada com os dados oficiais fornecidos posteriormente pela Secretaria de Estado da Agricultura e Abastecimento. Também usaram informações de seguradoras. Normalmente os agricultores acionam o seguro para recuperar perdas causadas por eventos adversos. Para cada solicitação, um especialista agrícola visita a lavoura e analisa os impactos.

“Em campo, os técnicos agrícolas têm uma limitação espacial, natural da atividade. Vendo de cima, com as imagens do sensoriamento remoto, conseguimos complementar o que os técnicos fazem”, explica Chaves à Agência FAPESP.

Já Adami conta que está desenvolvendo um trabalho conjunto com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nos estados do Rio Grande do Sul, do Paraná e de São Paulo, com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de metodologias e no levantamento de dados buscando números cada vez mais precisos sobre safras.

O artigo GEEadas: GEE-based automatic detection of adverse-frost stress pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S2352938525003520.
 

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