Blastocisto de camundongo (estrutura muito semelhante ao de humano). Em magenta, uma ampla expressão da proteína STIP1. Os núcleos das células estão corados em azul. O blastocisto representa um momento único no desenvolvimento, quando o embrião forma sua primeira estrutura organizada (imagem: Lopes et al./ICB-USP)

Biomedicina
Pesquisas desvendam novas funções de duas proteínas para a renovação de células
12 de fevereiro de 2026

Liderados por cientistas da USP, os estudos ajudam a compreender o papel da STIP1 e da maspina em processos vitais das células e abrem caminho para avanços ligados ao câncer e a aplicações em medicina regenerativa

Biomedicina
Pesquisas desvendam novas funções de duas proteínas para a renovação de células

Liderados por cientistas da USP, os estudos ajudam a compreender o papel da STIP1 e da maspina em processos vitais das células e abrem caminho para avanços ligados ao câncer e a aplicações em medicina regenerativa

12 de fevereiro de 2026

Blastocisto de camundongo (estrutura muito semelhante ao de humano). Em magenta, uma ampla expressão da proteína STIP1. Os núcleos das células estão corados em azul. O blastocisto representa um momento único no desenvolvimento, quando o embrião forma sua primeira estrutura organizada (imagem: Lopes et al./ICB-USP)

 

Luciana Constantino | Agência FAPESP – Duas pesquisas lideradas por cientistas brasileiras revelam papéis-chave de proteínas multifuncionais – a STIP1 e a maspina – em processos vitais para o funcionamento das células.

Os resultados demonstram novas funções proteicas que ajudam a compreender como as células mantêm sua forma, se comunicam e se renovam. Contribuem, assim, para novos estudos sobre câncer, embriogênese e potenciais aplicações em medicina regenerativa.

De acordo com um dos trabalhos, a STIP1 se apresenta como uma peça central no desenvolvimento embrionário e na manutenção da pluripotência (capacidade da célula se multiplicar e dar origem a outros tipos celulares).

Presente no organismo desde os primeiros estágios de vida, a STIP1 (sigla em inglês para stress inducible protein 1) é considerada essencial na manutenção do equilíbrio proteico dentro das células (homeostase). Atua como uma espécie de ponte, ajudando outras proteínas, chamadas chaperonas moleculares, a interagir e transferir suas “cargas” (proteínas-cliente) para que sejam processadas.

A outra pesquisa mostrou que a maspina atua na morfologia das células, como reguladora do citoesqueleto, e na adesão epitelial. A proteína é descrita na literatura científica como um supressor tumoral por sua função na prevenção do avanço e da disseminação da doença no organismo. Por isso, é um importante alvo relacionado ao câncer, especialmente ao de mama.

Ambos os artigos foram publicados na mesma edição da revista Communications Biology, do grupo Nature, sob a coordenação de cientistas do Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

“Nosso trabalho é voltado à pesquisa básica, um caminho que demanda tempo, dedicação e continuidade até que os resultados se consolidem. Muitos alunos e pesquisadores participam dessa trajetória, e cada um deixa sua marca no avanço do conhecimento. Ver esse esforço coletivo se transformar em uma publicação é extremamente gratificante. É a certeza de que estamos contribuindo para a construção da ciência”, diz à Agência FAPESP Marilene Hohmuth Lopes, professora do ICB-USP e coordenadora do estudo sobre STIP1.

Nathalie Cella, também docente do ICB-USP e autora correspondente do artigo sobre maspina, destaca a importância de investir em pesquisa no longo prazo. “Avanços como esses só se concretizam com investimento contínuo em ciência básica e na formação de jovens pesquisadores”, avalia.

‘Guardiã da pluripotência’

Usando camundongos geneticamente modificados, o grupo de cientistas liderado por Lopes descobriu que a STIP1 é essencial para manter as células-tronco em seu estado primitivo, ou seja, aquele em que podem se transformar em qualquer tipo de tecido.

Ao analisar células-tronco embrionárias de murinos, os cientistas detectaram que a diminuição da proteína levou à perda de pluripotência. As células também ficaram mais vulneráveis ao estresse e apresentaram instabilidade genética.

Quando a proteína foi aumentada, o efeito foi o oposto: mais crescimento, resistência e manutenção da identidade das células-tronco.

Resultado da tese de doutorado de Camila Felix de Lima Fernandes, que recebeu bolsa da FAPESP, o estudo demonstrou que STIP1 é indispensável para o desenvolvimento embrionário, controlando a estabilidade genômica, a sobrevivência celular e a expressão de genes de pluripotência, abrindo caminho para a busca de estratégias em medicina regenerativa.

Surgida a partir do final dos anos 1990, essa vertente da medicina procura formas de recuperar e regenerar tecidos, órgãos e outras estruturas danificadas do organismo humano, seja por trauma ou doença. “Descobrimos que STIP1 atua como uma espécie de guardiã das células-tronco, garantindo que o maquinário celular funcione com precisão durante as fases mais delicadas da vida”, afirma Lopes.

Versatilidade

No caso da maspina, os pesquisadores descobriram que a proteína atua diretamente na sustentação da célula. Ela se liga às estruturas internas, responsáveis por dar forma e estabilidade.

O grupo combinou abordagens proteômicas, análises funcionais e de imagem. Detectou que, ao reduzir a presença da maspina nas células que revestem superfícies do corpo (epiteliais), elas perdem parte do contato entre si e mudam de forma.

A pesquisa também mostrou que a proteína controla o crescimento de filamentos que organizam o interior das células, funcionando como uma espécie de organizador estrutural que assegura a integridade dos tecidos.

Fruto do doutorado de Luiz Eduardo da Silva, iniciado pouco antes da pandemia de COVID-19, em 2020, o estudo ajuda a explicar os motivos de a maspina poder desempenhar papel oposto dependendo do contexto celular, funcionando como protetor ou como promotor de câncer.

“Nossa trajetória com a maspina mostra como a ciência básica, quando guiada pela curiosidade e persistência, pode revelar novos aspectos de proteínas já conhecidas e redefinir conceitos estabelecidos”, completa Cella, ao contar que “herdou” há mais de 20 anos o interesse pela proteína quando fez pós-doutorado no laboratório do professor Ming Zhang, na Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos.

A FAPESP também apoiou os estudos por meio de outros 20 projetos (21/12268-4, 18/15553-9, 23/08391-0, 21/13114-0, 19/06971-4, 21/13070-3, 20/05443-1, 22/14445-3, 14/17385-5, 19/14952-0, 21/05287-2, 22/08106-1, 20/10671-3, 19/12710-9, 19/11097-1, 17/26158-0, 18/14933-2, 11/13906-2, 18/15557-4 e 19/00341-9).

Os artigos Stress-inducible phosphoprotein 1 (STIP1) is a critical stemness regulator in mouse embryonic stem cells and early mammalian development e Maspin/SerpinB5 is a cytoskeleton-binding protein that regulates epithelial cell shape podem ser lidos, respectivamente, em: nature.com/articles/s42003-025-08763-9 e nature.com/articles/s42003-025-08688-3.
 

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