Imagem real de um evento registrado pelo detector CMS do LHC. As duas linhas vermelhas correspondem ao par de múons formados pelo decaimento do bóson de Higgs (imagem: CERN/divulgação)

Interação entre o bóson de Higgs e múons é detectada pela primeira vez
04 de agosto de 2020

O evento é considerado um dos resultados experimentais mais importantes obtidos no LHC, o grande colisor de hádrons da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear

Interação entre o bóson de Higgs e múons é detectada pela primeira vez

O evento é considerado um dos resultados experimentais mais importantes obtidos no LHC, o grande colisor de hádrons da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear

04 de agosto de 2020

Imagem real de um evento registrado pelo detector CMS do LHC. As duas linhas vermelhas correspondem ao par de múons formados pelo decaimento do bóson de Higgs (imagem: CERN/divulgação)

 

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – A primeira medida da interação do bóson de Higgs com o múon foi anunciada nesta segunda-feira, 3 de agosto, pela Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (CERN). A grande importância deste resultado é que ele abre caminho para o estudo dos acoplamentos do campo de Higgs com as partículas mais leves que compõem o chamado Modelo Padrão.

O múon é uma partícula semelhante ao elétron, com carga elétrica -1 e spin 1⁄2. Sua massa, embora muitas vezes superior à do elétron, é bem menor do que as massas das partículas com as quais o Higgs já havia interagido nos experimentos anteriores realizados no LHC (Large Hadron Collider), o grande colisor de hádrons do CERN, situado na fronteira franco-suíça.

O resultado, considerado um dos mais importantes obtidos desde a descoberta experimental do próprio bóson de Higgs em 2012, foi alcançado pela equipe internacional do CMS (Compact Muon Solenoid), um dos detectores do LHC.

“O evento físico foi registrado em 2018, mas teve que passar por análises extremamente trabalhosas antes de ser reconhecido de maneira inequívoca. O fato de o CMS ter obtido essa medida complexa é mais uma demonstração do alcance do detector para explorar os detalhes do mecanismo de Higgs”, diz à Agência FAPESP o físico Sérgio Novaes, professor titular da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e líder do SPRACE (São Paulo Research and Analysis Center – Centro de Pesquisa e Análise de São Paulo), um grupo de pesquisa atuante no LHC, apoiado pela FAPESP.

“Depois da descoberta do bóson de Higgs, as colaborações internacionais do CERN confirmaram experimentalmente as predições do Modelo Padrão quanto ao acoplamento dele com todas as partículas pesadas. Essa comparação foi estendida agora ao múon, um resultado bem mais difícil de alcançar”, continua o pesquisador.

Segundo o Modelo Padrão, é o campo de Higgs que fornece massa a todas as partículas conhecidas. O bóson de Higgs é o quantum, ou quantidade mínima de energia, desse campo. No contexto experimental, o bóson de Higgs é obtido por meio da energia gerada em colisões de prótons realizadas no LHC. Como sua massa é muito grande, ele é instável e decai rapidamente em outras partículas mais leves.

Por meio dos diferentes canais de decaimento, é possível calcular as forças de interação entre o campo de Higgs e as partículas resultantes. E comparar os resultados com as previsões teóricas do Modelo Padrão. Isso lança luz sobre o processo pelo qual as partículas fundamentais adquirem massa.

“O Higgs acopla-se a todas as partículas fundamentais com uma intensidade proporcional à massa dessas partículas. Assim, a interação é mais forte, e por isso mais fácil de medir, quando as partículas são bastante pesadas. É o caso dos bósons W e Z, intermediários da interação fraca, e dos férmions quarks top e bottom e lépton tau – sendo todos estes férmions partículas de terceira geração, cujo acoplamento com o Higgs já havia sido detectado anteriormente. O múon é um lépton de segunda geração, muito mais leve do que as partículas mencionadas. A detecção de seu acoplamento com o Higgs foi uma grande façanha científica”, explica Novaes.

A chance de um bóson de Higgs decair em múons é de uma em cinco mil, aproximadamente. Além disso, quando o decaimento realmente acontece, o par de múons resultante fica “escondido” no meio de mil outros pares de múons, gerados pelo decaimento de outras partículas envolvidas no processo. É preciso isolar e identificar cada um desses pares, para saber se corresponde ou não ao resultado esperado.

“O acoplamento com o múon era considerado a próxima fronteira a ser explorada para o entendimento da interação do bóson de Higgs com as partículas mais leves. Essa fronteira foi agora transposta”, conclui Novaes.

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