Agência FAPESP - Para quem acredita que 30 anos é pouco tempo para uma análise do movimento feminista brasileiro, vale lembrar que apenas em 1988, na redação da nova Constituição, a chefia da família, antes dada ao homem por lei, pôde ser assumida também pela mulher. Pouco antes, na década anterior, as questões eram o uso dos contraceptivos orais e o tabu da virgindade.
"Os avanços foram enormes em termos de direitos conquistados pelas mulheres", afirma Maria Luiza Heilborn, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). A cientista social foi uma das participantes da mesa-redonda "30 anos do feminismo no Brasil", realizada nesta quarta-feira (26/10) no 29º Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), em Caxambu, sul de Minas Gerais.
Em termos gerais, se o movimento esteve nessas três décadas voltado para processos de interpelação do Estado – o que Bila Sorj, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chamou de "feminismo republicano" durante o debate –, ele também conseguiu penetrar na sociedade, na visão de Maria Luiza. "Não tem ainda a absorção ideal, mas temos alguns exemplos que mostram ter havido transformações na vida em sociedade nesse período", disse à Agência FAPESP.
A questão da violência doméstica contra as mulheres é um dos temas usados pela pesquisadora da Uerj para exemplificar as mudanças do período. "A consciência sobre esse problema hoje está bastante presente. E para isso contribuiu muito a mídia televisiva, por conta de séries como Malu Mulher e outras", afirma a pesquisadora do Rio de Janeiro. As delegacias da mulher, um fenômeno brasileiro, também surgiram nesse bojo, tendo sido replicadas posteriormente em outros países.
A aceitação do uso da pílula e o fato de a mulher poder exercer sua sexualidade com mais naturalidade – a virgindade não é mais uma condição indispensável para o casamento – causaram mudanças tão radicais que podem ser medidas inclusive em números.
Segundo Maria Luiza, entre 1960 e 2000, a iniciação sexual feminina caiu em termos da idade mediana de 20,1 anos para 17,8. "Isso pode parecer pouco, mas não é. Para o homem, a idade continuou em 16,2", explica a cientista social.
Se o momento é de comemoração – o marco oficial que inicia o feminismo no Brasil foi um congresso sobre a condição da mulher brasileira realizada no Rio de Janeiro em julho de 1975, patrocinado pelas Nações Unidas –, a data também permite que se olhe para as lacunas.
Para Celi Jardim Pinto, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, um desses espaços a serem preenchidos está no campo político. "O movimento não fez, pelo menos em um primeiro momento, um trabalho de cutucar a sociedade. Ainda precisamos romper com a situação de termos tão poucas mulheres tanto no Legislativo como nas esferas do Executivo", disse a pesquisadora, que considera esse campo como um dos últimos grandes redutos masculinos existentes no Brasil.
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