Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, líder da expedição (no centro da foto): "Os resultados foram muito além do que a gente esperava. Todos os grupos se ajudaram e isso gerou num resultado espetacular" (foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP)
Com o retorno dos pesquisadores, milhares de espécimes coletados passarão por triagem, depósito em acervos científicos e investigações detalhadas que podem levar anos para confirmar novas espécies
Com o retorno dos pesquisadores, milhares de espécimes coletados passarão por triagem, depósito em acervos científicos e investigações detalhadas que podem levar anos para confirmar novas espécies
Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, líder da expedição (no centro da foto): "Os resultados foram muito além do que a gente esperava. Todos os grupos se ajudaram e isso gerou num resultado espetacular" (foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP)
Elton Alisson | Agência FAPESP – Quando o helicóptero Black Hawk do Exército Brasileiro decolou dos acampamentos principal e secundário da expedição científica à Serra do Aracá, na manhã do dia 12 de setembro, os cientistas deixaram para trás os nevoeiros das montanhas, trazendo na bagagem diversos espécimes de plantas e animais, além de amostras de solo, água e parasitas, e uma certeza: a etapa de campo terminou, mas as verdadeiras descobertas científicas estão apenas começando.
Após 19 dias de amostragem divididos em duas bases – uma em um platô de uma montanha a 1.265 metros de altitude e outra a 850 metros, em uma elevação desgarrada do maciço principal do Aracá, batizada de Aracazinho –, a equipe multidisciplinar recolheu todas as armadilhas e encerrou as atividades com um saldo espetacular de coletas.
“A expedição foi sensacional. Os resultados foram muito além do que a gente esperava. Não imaginávamos ter uma coleta tão rica em diversidade. Todos os grupos se ajudaram e isso gerou num resultado espetacular”, disse à Agência FAPESP Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e líder da expedição.
Ao todo, foram amostradas nove espécies de lagartos (sendo cinco provavelmente novas para a ciência, incluindo um possível gênero novo), 18 espécies de anfíbios (das quais dez têm potencial de ser inéditas), cerca de 20 espécies de mamíferos (80 exemplares), 80 espécies de aves (200 exemplares), mais de 300 amostras de invertebrados e 2 mil exsicatas (partes prensadas para herbário) de plantas – das quais dezenas são possivelmente novas – referentes a 400 números (espécimes dos quais foram coletadas várias amostras).
O inventário incluiu ainda cem amostras de parasitas sanguíneos, material de solo e água para estudo de DNA ambiental (eDNA), além de perfurações de solo para estudos paleopolínicos, que pretendem reconstruir a evolução da vegetação regional nos últimos 30 mil anos.
“Até o último dia rendeu resultados. Pegamos uma cobra, talvez uma nova espécie, após uma noite de muita chuva”, relatou Trefaut.
Legado da expedição
Com o regresso dos pesquisadores, o material biológico começa a ser processado para integrar coleções científicas permanentes. A maior parte dos acervos zoológicos – como répteis, anfíbios e aves – será depositada no Museu de Zoologia (MZ), enquanto os mamíferos seguirão para a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), ambas instituições da USP. As plantas passarão por secagem e catalogação no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, antes de serem distribuídas entre o Herbário do IB-USP, o Jardim Botânico do Rio de Janeiro e o Jardim Botânico do Missouri (Estados Unidos). Já as amostras de solo para estudos paleopolínicos seguirão para o Instituto de Geociências (IGc) da USP.
Para o pesquisador Alexandre Percequillo, especialista em mamíferos e professor da Esalq-USP, a consolidação desses acervos representa o legado mais duradouro da missão para a ciência brasileira. “Essas coleções estão abertas ao estudo de vários colegas do Brasil e do exterior. Elas são para todos e estarão disponíveis para gerações de cientistas daqui a dez, 20 ou 50 anos. O importante é que deixamos um testemunho de áreas que podem mudar drasticamente diante das mudanças climáticas. Essas coleções vão permitir entender o impacto real na biota ao longo do tempo”, avaliou.

Vania Yoshikawa e Jenifer Lopes trabalham com material botânico coletado em campo (foto: Phelipe Janning/Agência FAPESP)
O tempo da ciência
Para além da identificação taxonômica tradicional, o trabalho nos laboratórios de biologia molecular será crucial para desvendar conexões biogeográficas e confirmar se os animais coletados correspondem de fato a novas espécies. O herpetólogo Ivan Prates, pesquisador associado do Museu de História Natural de Oslo, na Noruega, explica que as investigações vão focar na variação morfológica e, principalmente, no sequenciamento genético dos exemplares. Especialista no estudo de lagartos, Prates utilizará ferramentas genômicas para reconstruir a história evolutiva das populações.
“Uma das coisas que a gente consegue fazer com base no sequenciamento de DNA, uma vez que chega ao laboratório da universidade, é pegar um pedacinho de tecido, uma amostra do animal, e fazer uma série de reações e de análises também no computador para caracterizar a sequência do DNA. Com isso, conseguimos inferir a história das espécies e a relação entre elas”, detalhou.
O parasitólogo Bruno Fermino, pesquisador do Instituto Federal da Amazônia (Ifam), explica que as amostras de tecidos biológicos foram divididas em três partes ainda no acampamento de campo. “Coletamos em torno de 50 amostras de mamíferos, cem de aves e cem de répteis. Uma parte foi destinada para análise morfológica imediata no Ifam, a parte mantida em etanol foi para a análise de material genético e a cultura in vivo de parasitas seguiu para o Instituto de Ciências Biomédicas da USP”, detalhou.
A determinação taxonômica precisa e a publicação dos resultados em revistas científicas demandarão anos de dedicação em laboratório.
“Como vimos nas expedições anteriores ao Pico da Neblina e à Serra do Imeri, os primeiros trabalhos mais consistentes costumam levar, em média, de quatro a cinco anos para serem publicados. Ciência de qualidade exige estudo detalhado de coleções e análises de laboratório; nada é imediato”, sublinhou Trefaut.
A expedição foi financiada pela FAPESP e realizada com o apoio do Exército Brasileiro, responsável pelas operações logísticas e de segurança.
A equipe foi composta por cientistas de diversas instituições, incluindo a USP, o Inpa, o Ifam, as universidades Federal de São Carlos (UFSCar), de Toulouse (França) e Autônoma de Madri (Espanha), além do Jardim Botânico do Missouri e do Museu de História Natural de Oslo – todos com formação no Brasil, em sua maioria com apoio da FAPESP, e larga experiência em trabalhos de campo na Amazônia. Entre eles estão especialistas em répteis, anfíbios, mamíferos, aves, insetos, plantas e parasitas.
Um relato completo da expedição será publicado na edição de novembro da revista Pesquisa FAPESP.
Para ler os textos anteriormente publicados na Agência FAPESP, acesse: agencia.fapesp.br/diarios-de-campo.
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