Elton Alisson, de Leiden (Países Baixos) | Agência FAPESP – Uma nova plataforma digital pública e de código aberto desenvolvida por cientistas das universidades Estadual de Campinas (Unicamp) e de Princeton (EUA) promete facilitar a formulação de políticas climáticas no país. Batizado de NetZero Brasil 2050, o sistema cruza dados georreferenciados de demanda energética, uso da terra e macroeconomia para simular cenários de neutralidade de carbono. Na prática, a ferramenta calcula as rotas de descarbonização de menor custo para o país até a metade deste século.
Apresentada na quarta-feira (28/10) pela professora Carla Kazue Nakao Cavaliero, da Faculdade de Engenharia Mecânica (FEM-Unicamp), durante a FAPESP Week Países Baixos fapesp.br/week/2026/netherlands, a ferramenta permite que gestores públicos, acadêmicos e organizações da sociedade civil cruzem dados de 39 parâmetros setoriais para desenhar estratégias de transição energética transparentes e fundamentadas em evidências.
Construída principalmente com apoio de instituitções não-governamentais, além da FAPESP por meio do Centro Paulista de Estudos da Transição Energética (CPTEn) e do Centro Paulista de Inovação em Iluminação Pública (CePIL), a iniciativa permite democratizar modelos complexos de simulação prospectiva – ou seja, torna o uso de ferramentas avançadas de previsão acessível para um público maior, facilitando o planejamento do futuro.
"O que hoje alguns grupos fazem vendendo serviço de consultoria privada, nós estamos deixando totalmente acessível dentro da política de ciência aberta", comentou Cavaliero à Agência FAPESP. "O objetivo é que os tomadores de decisão, as organizações da sociedade civil, os think tanks e os alunos de pós-graduação do Brasil inteiro se apropriem desses dados e possam propor políticas públicas interdisciplinares e transparentes."

Carla Cavaliero: “O que hoje alguns grupos fazem vendendo serviço de consultoria privada, nós estamos deixando totalmente acessível dentro da política de ciência aberta” (foto: Roberta Sales/Agência FAPESP)
Modelagem integrada
De acordo com a pesquisadora, o diferencial do NetZero Brasil 2050 reside na integração de oito ferramentas de simulação que conectam a oferta e a demanda de energia às mudanças no uso do solo e aos impactos macroeconômicos. A plataforma permite ao usuário manipular 39 parâmetros fundamentais – divididos em setores como transporte, indústria, edificações, agropecuária, energia e resíduos –, com duas a três opções de premissas para cada um deles.
O motor do sistema baseia-se em modelos de otimização matemática. A ferramenta EnergyPathways estima as demandas futuras de energia com alta resolução setorial e tecnológica. Em seguida, um modelo desenvolvido para o contexto brasileiro em cooperação com Princeton, encontra a configuração de menor custo econômico para suprir essa demanda, considerando restrições de emissões e potenciais regionais de fontes variadas, como as energias solar e eólica, a biomassa e o hidrogênio verde.
Posteriormente, dois modelos entram em ação. Um deles, calibrado para o Brasil a partir do modelo MagPIE, elaborado em conjunto com a Universidade de Lisboa (Portugal) e a Universidade de Oxford (Inglaterra), informa a alocação otimizada de culturas, pastagens, florestas plantadas e restauração para atender à demandas de alimentos e biocombustíveis. Essas informações alimentam outro modelo, voltado a distribuir as áreas agrícolas em classes de vigor de pastagem e sistema de preparo do solo, resultando nas emissões e remoções associadas. A plataforma conta ainda com módulos dedicados ao transporte, à agropecuária, gestão de resíduos e um modelo de insumo-produto elaborado pela Unicamp. Essa ferramenta mapeia como as diferentes áreas da economia interagem entre si, calculando o impacto das transições na geração de empregos e no Produto Interno Bruto (PIB) setorial.
Essa abordagem revela as interdependências entre os setores. Como explica Cavaliero, se uma parte da indústria não consegue zerar suas emissões por limitações tecnológicas, outro setor precisa compensá-las para que o saldo líquido nacional seja nulo.
"Sem controlar o desmatamento, por exemplo, não haverá como chegar à neutralidade em 2050. O modelo mostra claramente essas amarrações", afirmou a pesquisadora. "Ao incluirmos os dados financeiros e otimizarmos os cenários para o menor custo, conseguimos projetar o investimento necessário ano a ano até 2050. Podemos dizer que, para seguir determinada rota, o país precisará de tantos bilhões de dólares.”
Da escala estadual à porta das prefeituras
Atualmente, a plataforma apresenta seus resultados consolidados em escala estadual para as 27 unidades federativas brasileiras, utilizando dados do Balanço Energético Nacional (BEN) e de mapas georreferenciados. Contudo, a equipe de pesquisadores já trabalha na próxima etapa do projeto: a disponibilização dos dados para a escala municipal.
Para projetar os dados no mapa, a plataforma utiliza o modelo SEALS (desenvolvido pela Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos), que está sendo calibrado com informações do MapBiomas (iniciativa colaborativa que mapeia a cobertura e o uso da terra no Brasil). O objetivo é transitar da resolução atual de 300 metros para 30 metros de precisão no solo.
A transição para a escala municipal permitirá que prefeitos e secretários municipais identifiquem a contribuição específica de suas cidades para as metas estaduais e nacionais. A ferramenta funciona de forma comparativa, permitindo filtrar e cruzar mais de 70 cenários já pré-construídos na plataforma ou gerar simulações inéditas.
"O gestor municipal poderá olhar os resultados e entender como seu município se insere no contexto nacional", explicou Cavaliero. "Uma prefeitura pode usar essas projeções para fundamentar políticas locais de incentivo à mobilidade elétrica, eficiência energética ou conservação, inclusive assumindo metas mais ambiciosas como bandeira de neutralidade."
Laboratórios vivos
A criação do NetZero Brasil 2050 insere-se em um ecossistema mais amplo de inovação na Unicamp, que abriga sete Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) apoiados pela FAPESP voltados à transição energética. A universidade atua como um laboratório vivo (living lab) em escala urbana – com 2,1 megawatts de energia solar instalada em telhados, iluminação pública 100% LED, ônibus elétricos em circulação e a primeira microrrede universitária da América Latina, gerando uma economia anual de R$ 15 milhões em custeio de energia.
Além disso, a Unicamp avança na implantação do Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável (HIDS), em uma área de 1,4 milhão de metros quadrados que incluirá módulos experimentais de energia agrovoltaica (combinação de painéis solares e produção agrícola), biogás e hidrogênio.
A experiência acumulada fortalece a ponte internacional apresentada na FAPESP Week Países Baixos. O projeto NetZero Brasil integra uma rede global coordenada por Princeton, que já desenvolveu plataformas semelhantes para os Estados Unidos (Net Zero America), Austrália, China, Índia, Coreia do Sul e Polônia.
A expectativa da equipe é expandir a cooperação com instituições neerlandesas – incluindo as universidades de Delft, Leiden e Groningen –, absorvendo conhecimentos em rotas tecnológicas de hidrogênio e gestão de laboratórios vivos.
"A transição climática é um desafio global. Se colocarmos os dados de diferentes países em plataformas interconectadas, ganhamos uma visão ampla e evitamos que a descarbonização penalize a competitividade de economias em desenvolvimento", concluiu Cavaliero.
A plataforma pode ser acessada em: netzero.eco.br/.
Mais informações sobre a FAPESP Week Países Baixos em: fapesp.br/week/2026/netherlands.
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