Coleta de madeira para análise de isótopos na celulose (imagem: Luiz Antonio Martinelli)

Conservação
Análise isotópica pode auxiliar a polícia no combate ao comércio ilegal de madeira da Amazônia
21 de julho de 2026

Pesquisa da USP está mapeando a distribuição de diferentes formas de oxigênio, carbono e outros elementos na composição das árvores da floresta, que possam servir para rastrear origem do material apreendido

Conservação
Análise isotópica pode auxiliar a polícia no combate ao comércio ilegal de madeira da Amazônia

Pesquisa da USP está mapeando a distribuição de diferentes formas de oxigênio, carbono e outros elementos na composição das árvores da floresta, que possam servir para rastrear origem do material apreendido

21 de julho de 2026

Coleta de madeira para análise de isótopos na celulose (imagem: Luiz Antonio Martinelli)

 

Sophia La Banca | Agência FAPESP – Um mapa da distribuição de isótopos na madeira de árvores amazônicas pode ser usado para ajudar na identificação de madeira extraída ilegalmente da floresta. O uso da razão entre diferentes formas de elementos como oxigênio, carbono, nitrogênio e estrôncio permite apontar com maior precisão a região de onde a madeira foi retirada e, com isso, ajudar no combate ao comércio ilícito do material.

A extração ilegal de madeira é uma das grandes causas de desmatamento na Amazônia. Para combater essa prática, os órgãos ambientais e a polícia usam uma série de ferramentas para tentar determinar a procedência da madeira, incluindo análises da anatomia vegetal, do mapa de ocorrência das espécies e de registros burocráticos, como o Documento de Origem Florestal (DOF) – a licença necessária para o transporte e armazenamento de produtos florestais emitida pelo Ministério do Meio Ambiente. Mas nem sempre isso é o suficiente para garantir a procedência legal da mercadoria.

O grupo do professor Luiz Antonio Martinelli, professor titular no Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), em Piracicaba, está aperfeiçoando um novo instrumento que pode auxiliar nessa tarefa. Ele se baseia no uso dos isótopos – átomos de um mesmo elemento químico que possuem o mesmo número de prótons, mas um número diferente de nêutrons – para restringir a área de onde a madeira foi extraída. O grupo está criando um mapa da distribuição desses diferentes isótopos na madeira das árvores da floresta amazônica com o qual a polícia possa comparar a composição da madeira investigada.

“Queremos fornecer para a Polícia Federal [PF] um modelo isotópico que ela possa usar. Para que, a partir dos isótopos, possa dizer se a procedência daquela madeira realmente é de onde consta no DOF”, explica Martinelli.

A principal vantagem da abordagem é que não existe uma forma de falsificar a composição da madeira. “Pensamos em prover a PF com um método que seja inviolável. Não tem como falsificar isótopos estáveis”, explica Martinelli. Além disso, a partir do momento em que o mapa, chamado de isoscape, estiver pronto, a metodologia é facilmente aplicável por peritos fora dos laboratórios de pesquisa. O grupo de Martinelli já possui parcerias com peritos da PF para empregar a metodologia nas investigações.

A base da metodologia está no cálculo da razão entre dois pesos diferentes de um mesmo átomo, como o oxigênio-18 e o oxigênio-16, na celulose que compõe a madeira (os números se referem à quantidade de nêutrons em cada átomo). Em artigo publicado em maio no periódico Molecules, a equipe demonstra que existe um gradiente sudoeste-noroeste da razão das duas formas – sendo que a forma mais leve predomina no oeste. Ou seja, na madeira proveniente do oeste da floresta existe mais oxigênio-16 e menos oxigênio-18 em comparação com a madeira proveniente do leste.

Essa diferença pode ser explicada pela perda gradual da forma pesada do oxigênio que compõe a água à medida que a umidade do oceano Atlântico se desloca sobre o continente. Como a água que chega ao oeste da Amazônia perdeu parte do oxigênio-18 pelo caminho, quantidades menores dessa forma do átomo serão incorporadas na madeira das plantas da região quando absorverem a água da chuva que cai sobre a floresta.


Mapa mostrando a diferença da ocorrência do oxigênio-18 em árvores de diferentes regiões da Floresta Amazônica (imagem: Luiz Antonio Martinelli)

Limitações e próximos passos

Ocorre que o oxigênio não pode ser utilizado isoladamente para essa tarefa. “Como a Amazônia é muito complexa e muito grande, não dá para usar só um isótopo”, explica Martinelli. O projeto de doutorado em andamento da aluna Isabela Maria Souza Silva, desenvolvido com apoio da FAPESP, está mapeando os isótopos de outros dois átomos, o carbono e o nitrogênio. O grupo também pretende adicionar o estrôncio ao modelo.

No estágio atual do projeto, a ferramenta ainda apresenta algumas limitações. “O nosso melhor modelo consegue excluir 80% da área florestal da Amazônia, que são 3,2 milhões de quilômetros quadrados. O problema é que 20% ainda é muito. Para se ter uma ideia, dá mais ou menos 640 mil quilômetros quadrados [uma área equivalente a duas vezes e meia o Estado de São Paulo]”, diz Martinelli.

Outra dificuldade enfrentada é o fato de que existe uma variabilidade maior nos resultados de árvores provenientes do arco do desmatamento, a faixa geográfica que demarca a fronteira do avanço da destruição do bioma. Isso acontece porque a retirada ilegal de madeira acaba por reduzir o número de amostras disponíveis para coleta pelos pesquisadores, dificultando a aplicação do método na madeira proveniente justamente da região onde ocorre mais extração.

Martinelli e sua equipe pretendem reduzir essas limitações ampliando não apenas o número de isótopos usados, mas também o número de amostras coletadas. “Nós já coletamos 800 árvores em 63 diferentes locais da Amazônia e já vimos que, se quisermos um modelo mais preciso, precisaremos coletar ainda mais árvores em mais locais”, detalha. A equipe também estuda a possibilidade de usar novas abordagens químicas para além da medida de isótopos, como a criação de mapas que mostrem a diferença de concentração de determinados elementos químicos na madeira, o chamado elementalscape. Com a combinação dessas diferentes abordagens, o grupo espera criar uma ferramenta ainda mais precisa para auxiliar no combate ao desmatamento.

O artigo Isoscape of oxygen stable isotopes in woods of the Amazon pode ser lido em mdpi.com/1420-3049/31/9/1542.
 

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