Agência FAPESP - Se dependesse da História, a rivalidade entre brasileiros e argentinos não ultrapassaria os campos de futebol. Durante boa parte do período colonial brasileiro (1500-1822), o relacionamento dos dois povos foi tão estreito que fez florescer o comércio de Colônia do Sacramento, uma cidade no atual Uruguai, fronteira entre os domínios de Portugal e Espanha.
Fundada em 1680, na margem norte do Rio da Prata, a portuguesa Colônia do Sacramento ficava exatamente em frente à atual Buenos Aires, então pertencente à coroa espanhola. A fronteira múltipla propiciou a convivência entre castelhanos, portugueses, jesuítas e indígenas de diversas origens. Além da intensa troca de cultura, era comum o comércio de mercadorias entre as cidades, apesar dos acordos comerciais e tratados que impediam a relação direta entre as colônias "rivais".
"O tipo de mercadoria negociada e a forma de pagamento vigente faziam da região peça estratégica para a coroa portuguesa", disse o historiador Fabricio Pereira Prado, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e autor do livro Colônia do Sacramento: o extremo sul da América Portuguesa, à Agência FAPESP.
O porto da cidade funcionava como "porta dos fundos" para o escoamento da prata vinda das minas de Potosí, no Alto Peru (pertencente à Espanha), única fonte de metais em toda a colônia portuguesa antes do aquecimento do ciclo do ouro, no século 18. Por lá também circulavam couros e as novidades trazidas por comerciantes luso-brasileiros e estrangeiros à região do Prata. Os produtos eram pagos à vista e até com a prata, o que tornava o comércio local muito rentável.
A Colônia do Sacramento viveu seu auge populacional e urbanístico entre 1716 e 1753, período estudado por Prado a partir de registros administrativos, mapas e correspondências entre comerciantes do Brasil, Argentina, Uruguai, Portugal e Espanha. Com entorno agrícola respeitável, a cidade atingiu extensão territorial equivalente ao atual Uruguai e chegou a ter cerca de três mil habitantes, um terço do que Buenos Aires tinha na mesma época.
Segundo Prado, o trânsito nas rotas entre Colônia do Sacramento e os portos de São Paulo e Rio de Janeiro estimulou a fixação populacional no Rio Grande do Sul, nas primeiras décadas do século 18. Em 1777, a cidade passou a ser domínio espanhol.
Apesar de ter sido um dos mais lucrativos entrepostos comerciais portugueses na América, muito pouco se estudou sobre a região, a composição dos seus habitantes e seu modo de vida. "A Colônia do Sacramento é uma espécie de lacuna historiográfica", disse o pesquisador.
O desinteresse seria conseqüência de a cidade ter sido o único território colonizado pelos portugueses fora das fronteiras brasileiras. "No início do século 20, houve a preocupação de organizar a História do Brasil dentro do nosso país, cercar os fatos. Assim, a Colônia do Sacramento aparecia como uma pedra no sapato dos historiadores", disse o pesquisador.
Conhecida hoje apenas como Sacramento, a cidade é tombada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como patrimônio histórico da humanidade.
Título: Colônia do Sacramento: o extremo sul da América Portuguesa
Editora: Edição independente, publicada com auxílio do Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural de Porto Alegre
Páginas: 230
Informações: fabricioprado@uol.com.br
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