Coordenador do BIOTA-FAPESP alerta para o risco de o país ficar sem representante nas principais instâncias da entidade e atribui o fato à ausência de diplomatas do Itamaraty na 6a Reunião Plenária da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (foto: F. Villegas / IPBES)

Brasil pode perder protagonismo nas ações da IPBES nos próximos anos

Coordenador do BIOTA alerta para o risco de o país ficar sem representante nas principais instâncias da entidade e atribui o fato à ausência de diplomatas do Itamaraty na 6a Reunião Plenária da Plataforma

27 de março de 2018
Brasil pode perder protagonismo nas ações da IPBES nos próximos anos

Coordenador do BIOTA alerta para o risco de o país ficar sem representante nas principais instâncias da entidade e atribui o fato à ausência de diplomatas do Itamaraty na 6a Reunião Plenária da Plataforma

27 de março de 2018

Coordenador do BIOTA-FAPESP alerta para o risco de o país ficar sem representante nas principais instâncias da entidade e atribui o fato à ausência de diplomatas do Itamaraty na 6a Reunião Plenária da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (foto: F. Villegas / IPBES)

 

Karina Toledo, de Medellín  |  Agência FAPESP – O Brasil tem contribuído ativamente para as atividades da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) desde sua criação, em 2012. Mas o país corre o risco de perder, nos próximos anos, o protagonismo alcançado, pois vai ficar sem representantes nas principais instâncias da entidade: o Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP) e o Bureau, uma espécie de diretoria executiva.

Carlos Alfredo Joly, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador do Programa BIOTA-FAPESP, tem participado do MEP desde a sua criação – chegando a coordenar o painel nos seus primeiros anos de existência ao lado do australiano Mark Londsdeale, da Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth (CSIRO). Porém, seu segundo mandato chegou ao fim neste domingo (25/3) e nenhum brasileiro foi indicado para substituí-lo ou para integrar o Bureau.

Em entrevista à Agência FAPESP, Joly atribuiu o fato à ausência de representantes do Ministério das Relações Exteriores (MRE-Itamaraty) na 6a Reunião Plenária da IPBES, evento que teve início no dia 17 de março em Medellín, na Colômbia.

“Nossos diplomatas têm uma fantástica capacidade de negociação e compreensão dos acordos entre os países da América Latina e do Caribe. Em Medellín, esse treinamento em negociações fez muita falta. Foi um desastre a ausência do Itamaraty na reunião regional que ocorreu no dia 17 de março”, disse.

Na ocasião, acrescentou o pesquisador, México e Colômbia capitanearam a decisão em relação aos cinco representantes da região no MEP (para os próximos três anos) e também no Bureau (para os próximos quatro anos, o que supostamente poderia ter sido decidido em 2019, com todos os países presentes).

“A decisão foi tomada de forma pouco transparente e aproveitando a ausência de representantes brasileiros, chilenos e peruanos. Soube que o Itamaraty está tentando reverter a situação em relação ao Bureau, exigindo que o assunto volte à agenda na 7ª Plenária da IPBES, em março de 2019, na França”, afirmou.

Na avaliação de Joly, a situação atual contrasta fortemente com a significativa participação da comunidade científica brasileira na elaboração do recém-divulgado Diagnóstico Regional sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos nas Américas (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/27421), um dos quatro relatórios regionais aprovados durante a 6a Reunião Plenária da IPBES.

O documento contou ao todo com a participação de 25 brasileiros, entre eles Cristiana Simão Seixas, pesquisadora da Unicamp que coordenou o relatório americano ao lado do canadense Jake Rice e da argentina Maria Elena Zaccagnini.

Cinco dos brasileiros envolvidos na produção do documento são membros do Programa BIOTA e um deles integra o Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais. Todos são também membros da Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (BPBES), da qual Joly é coordenador.

A falta de brasileiros no MEP e no Bureau, acrescentou Joly, contrasta também com o fato de o país ser o único com pesquisadores nas três forças-tarefa conduzidas no âmbito da IPBES: Capacity Building (Capacitação de Profissionais e Instituições), Indigenous and Local Knowledge (Conhecimento Indígena e Local) e Data, Knowledge and Information (Dados, Conhecimento e Informação).

Em 2014, Joly coordenou as ações de Capacity Building da Plataforma (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/19840) e, como membro do MEP, ajudou a criar as diretrizes que orientam todos os demais documentos produzidos pela IPBES.

Além disso, pesquisadores brasileiros participaram de todos os diagnósticos propostos no primeiro Programa de Trabalho da IPBES – para serem realizados entre os anos de 2015 e 2019. Além dos quatro Diagnósticos Regionais sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, já foram concluídos relatórios sobre Polinização e Produção de Alimentos (com Vera Imperatriz Fonseca, pesquisadora do BIOTA e membro da BPBES, como um dos coordenadores), Modelagem e Cenários em Biodiversidade e Degradação e Restauração da Biodiversidade. Há ainda um diagnóstico global sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos a ser lançado em março de 2019.

“O aprendizado dos pesquisadores brasileiros que participaram deste primeiro Programa de Trabalho foi tão significativo que nos organizamos para criar a BPBES nos mesmos moldes da Plataforma internacional. Atualmente, estamos produzindo o primeiro Diagnóstico Brasileiro de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos”, disse Joly.

Para Seixas, o protagonismo do Brasil na IPBES é evidente desde a criação da Plataforma. “A indicação de Joly para a coordenação do MEP revela a liderança da ciência brasileira na área de biodiversidade. Joly era um dos nomes considerados para integrar o Bureau nos próximos anos e, sem dúvida, faria um excelente trabalho, pois conhece cada processo, documento e estratégia desenvolvida pela IPBES. Sempre foi ativo para a criação e condução da entidade nesses últimos seis anos. Infelizmente, porém, o Itamaraty não pôde estar presente na reunião”, disse Seixas.

IPBES planeja três novos diagnósticos temáticos

Em entrevista à Agência FAPESP, o presidente da IPBES, Robert Watson, revelou que foi aprovada durante a 6a Reunião Plenária a realização de três novos diagnósticos temáticos: um sobre “Uso Sustentável de Espécies Selvagens”, outro sobre “Espécies Invasoras” e um terceiro sobre “Conceituação Diversificada de Valores”. Este último, talvez o mais ambicioso dos três, tem como meta atribuir valores à biodiversidade, ou seja, calcular o quanto a natureza vale em termos de produção de comida, de água, promoção de saúde e bem-estar e muitos outros benefícios materiais e imateriais para a vida humana.

“Definitivamente, vamos precisar de bons especialistas do Brasil para a elaboração principalmente dos relatórios sobre espécies selvagens e o de conceituação de valores. Precisamos de boas nomeações e, para isso, é fundamental o engajamento das organizações científicas e do governo brasileiro. E isso inclui não apenas os ministérios que cuidam de Relações Exteriores e do Meio Ambiente, mas também o de Energia, Agricultura, Desenvolvimento. Trata-se de um país importante por ser um grande produtor de alimentos e de biocombustíveis”, disse Watson.

Como explicou Joly, não bastam o interesse e a capacidade da comunidade científica brasileira para que brasileiros sejam selecionados.

“Com a presença de um representante do país no MEP ou no Bureau é possível estimular pesquisadores brasileiros a se candidatarem, sugerindo nomes diretamente à IPBES, articulando com a Academia Brasileira de Ciências (ABC) e com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) para a indicação de bons nomes e trabalhando em colaboração com o Itamaraty, que é quem faz as indicações oficiais. Também é possível defender nomes brasileiros para coordenar a elaboração dos relatórios. Sem brasileiros nesses dois órgãos temo que a participação nacional encolha no 2º Programa de Trabalho da IPBES”, disse.

Procurados, representantes do Itamaraty e do Ministério do Meio Ambiente (MMA) não se manifestaram.

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