Especialistas debatem relações entre Brasil e Estados Unidos | AGÊNCIA FAPESP

Mudanças recentes, opinião pública, disparidades e importância de se ampliar o conhecimento nas relações entre os países são destacadas na FAPESP Week (foto: K. Toledo)

Especialistas debatem relações entre Brasil e Estados Unidos

14 de novembro de 2013

Por Heitor Shimizu, de Raleigh

Agência FAPESP – A importância da colaboração entre Brasil e Estados Unidos em diversas áreas foi tema de um painel de especialistas na terça-feira (12/11), segundo dia da FAPESP Week North Carolina, na cidade norte-americana de Raleigh.

O painel foi presidido por Anthony Harrington, diretor do Conselho Consultivo do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars e ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil, que abriu os trabalhos destacando que o Brasil já foi considerado o “buraco negro da diplomacia norte-americana”, mas que as relações entre os dois países “melhoraram enfaticamente desde a primeira presidência de Fernando Henrique Cardoso”.

Carlos Eduardo Lins da Silva, editor da revista Política Externa e consultor em Comunicação da FAPESP, foi o primeiro palestrante e traçou um breve panorama das relações políticas entre os Estados Unidos e o Brasil. “Uma relação historicamente boa, mas que não foi sempre intensa, tendo tido um grande aumento em importância durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil foi o único país na América Latina a enviar tropas para a Europa”, disse.

“Posteriormente, houve momentos em que as relações esfriaram, como na década de 1970, quando o Brasil fechou acordo com a Alemanha para exploração de energia nuclear e o governo norte-americano, especialmente durante a presidência de Jimmy Carter, ajudou brasileiros contrários ao governo militar então no poder no Brasil”, disse.

Nas últimas duas décadas, o cenário mudou, com a melhoria das relações entre os dois países, destacou Lins da Silva. Entretanto, houve novamente outro momento crítico em 2010, quando o Irã assinou acordo nuclear proposto por Brasil e Turquia, por meio do qual concordou em enviar urânio para ser enriquecido na Turquia.

“Barack Obama e Dilma Rousseff trabalhavam para melhorar novamente as relações quando aconteceu o caso NSA [National Security Agency]. Rousseff suspendeu a visita aos Estados Unidos que deveria ocorrer em dezembro e que seria a primeira de um chefe de Estado brasileiro desde o governo de Fernando Henrique Cardoso”, disse.

“Independentemente das questões políticas, Brasil e Estados Unidos têm mantido há dois séculos um bom relacionamento que se destaca pelo intenso intercâmbio entre artistas, atletas, cientistas, cidadãos dos dois países. E a realização da FAPESP Week North Carolina é uma amostra da importância desse relacionamento”, disse Lins da Silva.

Em seguida, Richard Mahoney, diretor da School of Public and International Affairs da North Carolina State University, falou sobre o projeto de pesquisa “Trade Liberalization, and Energy Joint-Venturing Between Brazil and the United States”, que coordena.

“Clark Kerr [1911-2003], grande acadêmico norte-americano, presidente da Universidade da Califórnia, escreveu sobre a teoria da Convergência na década de 1960, no qual identificou os motivos pelos quais sociedades industriais se integram ou se desintegram. As ideias de Kerr anteciparam a grande revolução em convergência que ocorreu depois e que ganhou o nome de União Europeia”, disse.

A teoria da Convergência aponta que os sistemas industriais irão convergir seus sistemas sociais, políticos e econômicos por conta de efeitos determinantes do desenvolvimento tecnológico.

“Segundo a teoria da Convergência, podemos pegar o Brasil e os Estados Unidos e dizer que há muita coisa que não sabemos sobre as relações entre os dois países. Tendemos a considerar principalmente os detalhes oficiais, políticos, classificando os momentos em positivos e negativos, mas há muitas outras forças em ação, incluindo várias que desconhecemos”, disse Mahoney.

“Nas relações entre Estados Unidos e Brasil, podemos dividir a convergência em três fatores. O primeiro é a institucionalização da comunicação e da colaboração. O segundo é a definição de uma agenda, isto é, a formalização de objetivos por meio de acordos binacionais para institucionalizar o compartilhamento de poder, regras e leis de mercado e abertura de fluxos comerciais”, disse.

“O terceiro aspecto é a mudança de paradigma, que envolve integrar sociedades com um abrangente fluxo de cultura, educação, comércio e outras áreas”, disse Mahoney.

Opinião pública

Amancio Nunes de Oliveira, professor no Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), e Mark Nance, professor na School of Public and International Affairs da NC State, falaram sobre a opinião pública nas relações entre Estados Unidos e Brasil.

Oliveira e Nance coordenaram uma pesquisa intitulada “Americas and the World”. No Brasil, os pesquisadores entrevistaram 2 mil pessoas em 2011. Também foram entrevistadas outras 200 pessoas em um grupo denominado “comunidade com relações internacionais”, composto de políticos, empresários, acadêmicos, jornalistas, sindicalistas e outros.

Um dos indicadores obtidos pela pesquisa foi sobre “importância estratégica e papel internacional”. Dos entrevistados, o país mais lembrado no quesito foi os Estados Unidos, com 93% de citações, seguido de China (91%), Argentina (90%), Índia (79%), Japão (77%) e Alemanha (75%).

“Mas, ao serem perguntados sobre a percepção de qual será a importância estratégica mundial dos países mencionados daqui a dez anos, se aumentará ou diminuirá, apenas 14,5% dos entrevistados apontaram que a importância dos Estados Unidos vai aumentar”, disse Oliveira. Do outro lado, a China ficou em primeiro, mencionada por 95,5% dos entrevistados como país que terá aumento na importância estratégica.

Outra questão levantada pela pesquisa foi como a orientação política influencia a opinião com relação a acordos bilaterais. Ao serem perguntados sobre o que consideram mais importante, se realizar acordos com os Estados Unidos ou com outros países latino-americanos, entre os entrevistados com orientação política de esquerda, apenas 23% apontaram os Estados Unidos, contra 77% que priorizaram as relações entre o Brasil e outros países na América Latina.

Entre os entrevistados com orientação política de direita, foi observado o oposto: 43% escolheram os países latino-americanos, contra 57% que consideraram mais importante para o Brasil realizar acordos com os Estados Unidos.

Disparidades sociais e raciais

Encerrando o painel, Kia Caldwell, professora do Department of African, African American, and Diaspora Studies da University of North Carolina em Chapel Hill, falou sobre a pesquisa “The Alyne Case: Gender, Race, and the Human Right to Health in Brazil”, que realizou em colaboração com Edna Maria de Araújo, da Universidade Estadual de Feira de Santana.

A partir do caso de Alyne da Silva Pimentel – que morreu em novembro de 2002, aos 28 anos, no sexto mês de gestação, cinco dias após dar entrada em um hospital público na Baixada Fluminense (RJ) e não receber atendimento apropriado –, a pesquisa investigou a questão das disparidades raciais na mortalidade materna.

O caso Alyne, lembra Caldwell, teve grande repercussão e levou à condenação do Brasil pela Convenção para a Eliminação de todas as Formas de Discriminação contra a Mulher da Organização das Nações Unidas (ONU) por violar direitos humanos de grávidas.

A decisão estabeleceu que o governo brasileiro deveria indenizar a família de Alyne, garantir o direito a cuidados obstetrícios de emergência e oferecer formação profissional adequada a profissionais de saúde pública.

“As circunstâncias que levaram à morte de Alyne ressaltam as graves disparidades e falhas na qualidade do atendimento obstétrico de emergência oferecido no Brasil às pessoas de baixa renda”, disse Caldwell.

Segundo a pesquisa feita por Caldwell e Araújo, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil as taxas de mortalidade materna eram – dados de 2010 – de duas a três vezes maiores para mulheres negras do que para brancas.

“Um outro estudo feito no início da década verificou que a taxa de mortalidade materna para mulheres negras ou mulatas era de 11,28 para cada 100 mil crianças nascidas vivas, enquanto que a mesma taxa para mulheres brancas ficou em 5,42%”, disse. “A mortalidade materna foi a segunda causa de óbitos entre mulheres negras no Estado de São Paulo.”

“Com relação à mortalidade materna no Brasil, podemos dizer que não existe direito pela metade, negligência pela metade ou morte pela metade”, disse Caldwell. A pesquisadora da NC State é autora de livros sobre questões de gênero e raça, como Negras in Brazil: Re-envisioning Black Women, Citizenship, and the Politics of Identity, de 2007.
 

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