Thoreau, o climatologista | AGÊNCIA FAPESP

Registros de cerca de 500 espécies de plantas feitas pelo escritor no século 19 são usados para avaliar prejuízos à biodiversidade causados por mudanças climáticas. Na região do lago Walden, 27% das espécies documentadas pelo autor desapareceram

Thoreau, o climatologista

05 de novembro de 2008

Agência FAPESP – O escritor norte-americano Henry Thoreau (1817-1862) foi um dos principais opositores da escravidão e defendeu a resistência individual a governos injustos (em A desobediência civil) e a vida simples em contato com a natureza (em sua obra mais conhecida, Walden).

Agora, um novo estudo aumenta o extenso currículo do pensador que influenciou Gandhi, Martin Luther King e Leon Tolstoi ao destacar sua contribuição como climatologista. Algo que Thoreau, que morreu quando a Revolução Industrial estava começando, não poderia jamais suspeitar.

Em 1851, quando vivia sozinho às margens do lago Walden, próximo à cidade de Concord, onde nasceu e morreu – em uma cabana emprestada pelo filósofo Ralph Waldo Emerson –, Thoreau começou a anotar em cadernos quando e onde as plantas floresciam.

A idéia de identificar as mudanças ocasionadas pelas diferentes estações do ano serviu como notável registro que, comparado com o cenário atual, tornou possível a um grupo de cientistas avaliar as alterações na vegetação promovidas pelas mudanças climáticas globais.

O estudo, feito por pesquisadores das universidades de Boston e Harvard, foi publicado na edição on-line da revista Proceedings of the National Academy of Sciences.

Segundo os autores, as conclusões são claras. Na média, as espécies mais comuns estão florescendo sete dias mais cedo atualmente do que na época de Thoreau. Um assustador total de 27% das espécies documentadas pelo escritor simplesmente deixaram de existir no local, enquanto que 36% estão presentes em número tão reduzido que não durarão muito tempo.

Mudanças aceleradas na temperatura levam a alterações nos períodos das atividades sazonais, o que é particularmente sentido por alguns tipos de plantas e flores, como orquídeas e lírios. Das 21 espécies de orquídeas observadas por Thoreau, apenas sete foram encontradas atualmente.

O estudo, que teve início em 2002, envolveu a análise de 473 espécies, cujos registros são bem documentados nas florestas de Concord desde a época de Thoreau. O escritor registrou sistematicamente o período de floração de cerca de 500 espécies.

Segundo os autores, a perda da diversidade de plantas induzida pelo clima tem sido tão grande – apesar de 60% da área da região estar protegida – que será preciso um grande esforço de preservação para que mais espécies não passem a figurar apenas em livros.

O artigo destaca que a temperatura média na região aumentou 2,4ºC nos últimos 100 anos e estima-se que subirá ainda de 1,1ºC a 6,4ºC nos próximos 100.

“Espécies cujos períodos de floração não se adaptaram a mudanças na temperatura estão sumindo. Por outro lado, espécies cujos períodos de floração foram alterados para começar mais cedo têm se desenvolvido melhor sob condições mais quentes”, destacaram.

O artigo Phylogenetic patterns of species loss in Thoreau's woods are driven by climate change, de Charles Willis e outros, pode ser lido por assinantes da Pnas em www.pnas.org.
 

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