Roland Barthes e a arte na fotografia | AGÊNCIA FAPESP

Roland Barthes e a arte na fotografia Livro de Leda Tenório da Motta destaca a atenção do crítico e semiólogo francês à imagem fotográfica, vista por meio de uma "nova escola do olhar" que começa por corrigir seu desmerecimento filosófico e termina por "envolvê-la em uma nova visão do sublime artístico". Obra foi publicada em edição bilíngue português-francês com apoio da FAPESP (detalhe de foto de Bernard Faucon que ilustra a capa do livro)

Roland Barthes e a arte na fotografia

02 de agosto de 2019

Sidnei Santos de Oliveira  |  Agência FAPESP – Um novo livro analisa a última safra de textos do francês Roland Barthes (1915-1980) presente nas obras completas do autor e joga nova luz ao pensamento barthesiano, que vai de encontro às ideias hegemônicas relacionadas à imagem até então vigentes no campo acadêmico ao apresentar uma “nova escola do olhar”.

O ponto de partida para a investigação sobre a fotografia está no que o próprio Barthes intitula como “grau zero da linguagem”, ou seja, a imagem fotográfica em estado silencioso, conotativo e irredutível no que diz respeito aos sentidos assertivos.

“Podemos afirmar que Barthes veio na contramão do pensamento que imperava, quando se dava por certo que a civilização era das imagens e que o mundo estava doente delas”, disse Leda Tenório da Motta, professora do Programa de Pós-Graduação em Semiótica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

Motta é autora do livro Rumores da Língua e Desditos da Fotografia de Arte – Roland Barthes Começo e Fim (Lumme Editor, 2019), publicado com apoio da FAPESP em edição bilíngue português-francês.

A obra é resultado de três meses de estudos realizados em arquivos franceses em 2017 – também com apoio da FAPESP – e envolveu análise de documentos em diversas instituições do país, dentre elas a Mediathèque de l’Architecture et du Patrimoine (MAP), a Biblioteca Nacional da França e a Fundação Cartier.

“Barthes não se importava com as fotografias de reportagem, de cunho meramente jornalístico e que eram dominantes em seu tempo”, disse Motta à Agência FAPESP.

Barthes é considerado um dos mais importantes pensadores contemporâneos. Filósofo, escritor e crítico literário, tornou-se mestre da análise semiológica e expoente da assim chamada virada linguística francesa. Sua dedicação ao estudo da linguagem abrange desde a literatura até a indústria cultural, a imagem e a moda.

Também foi membro da escola estruturalista francesa ligada à matriz de Ferdinand Saussure (1857-1913), corrente que define fatos linguísticos a partir das noções de estrutura e de sistema, sendo a língua uma estrutura lógica e harmoniosa cujo objetivo é a comunicação.

Motta foi aluna de Barthes nos anos 1970, durante o mestrado que cursou na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais, em Paris. “Na época, eu já tinha como certo o objetivo de estudar a obra de Barthes”, disse.

A pesquisadora também é autora de Roland Barthes, uma Biografia Intelectual (Iluminuras, 2011), na qual reconstrói a história do autor a partir da análise de sua obra. O estudo cuidadoso das mais de 5 mil páginas que compõem as obras completas de Barthes lhe rendeu uma familiaridade ainda maior com o autor, que, segundo ela, não era muito querido pelos fotógrafos.

“Muitos tinham mágoa, pois ele demonstrava grande apreço pelas imagens mais comuns, do álbum de família, principalmente do seu”, disse Motta.

Em seu último livro, A Câmara Clara (1980), Barthes definiu o conceito de “punctum”, palavra latina que, contextualizada por sua teoria, significa “ponto”, “picada” ou “ferida”. É esse elemento que, na fotografia, surge como o que autor diz ser uma espécie de “gume apunhalador da imagem”.

“No elegante sistema semiológico de Barthes, a palavra tem lugar de destaque. Tudo converge para ela. Todos os códigos de comunicação estão em articulação solidária com a palavra. Ela é a fiadora última do sentido. O que Barthes intitula como ‘mito’, aliás, nada mais é do que uma exorbitância das palavras. Nesse sistema, imagens refluem constantemente aos signos verbais, com seus valores conceituais. Assim, fotografias estão repletas de signos. É dessa verificação que parte a teoria barthesiana para as imagens fotográficas”, disse Motta.

Fotógrafos e artistas

A relação entre Barthes e a fotografia pode ser observada pelo apontamento diferencial que o autor faz em relação a três fotógrafos franceses que lhe pareciam levar a fotografia à condição de arte.

Lucien Clergue (1934-2014), Daniel Boudinet (1945-1990) e Bernard Faucon (1950) eram até então pouco conhecidos do grande público. Tinham em comum uma certa linguagem perturbadora, dificilmente interpretável, movida a silêncio.

“Para Barthes, eles eram verdadeiros estilistas da imagem. Representavam uma nova categoria do sublime fotográfico”, disse Motta.

Clergue foi colaborador e amigo de Picasso em meados do século 20. Quando Barthes se interessa por ele, no final dos anos 1970, estava esquecido. Boudinet frequentou as aulas de Barthes na Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais. Depois de prestigiado por Barthes, o fotógrafo foi tema de uma grande retrospectiva no ano de 2018 no Jeu de Paume, museu dedicado à conservação e difusão de imagens do século 20 e 21, na cidade de Tours.

Já Faucon, o único ainda vivo entre os três, dedicou-se à pintura antes de iniciar as primeiras experimentações na fotografia. Chamou a atenção de Barthes justamente pela capacidade de ilustrar as notas barthesianas sobre a imobilidade terrível das fotos e o atestado de morte nela envolvido. É de autoria de Faucon a imagem que ilustra a capa do livro de Motta.

“A escolha da foto deveu-se à particular maneira como o menino de cera estampa o desastre silencioso que, para Barthes, é inseparável da fixidez da fotografia”, disse Motta.

Selecionada no álbum As Grandes Férias ( Les Grandes Vacances, 1970), cujas imagens foram captadas na região de Provença, a escolha da imagem também se deu pelo fato de Faucon ser o único a incluir modelos vivos em suas produções.

“Sendo contra o Naturalismo, como diria Barthes, livre de qualquer espírito de reportagem, o fotógrafo mistura crianças e manequins de vitrine, em uma inquietante teatralidade, que alude diretamente à rigidez mortal dos clichês fotográficos”, disse Motta.

Proposta como uma leitura em grande angular da obra de Barthes, o livro de Motta considera a recorrência de temas barthesianos e que a autora revela ser uma forma de “círculo virtuoso”.

“O que muda com esse trabalho é mostrar aos leitores que, inesperadamente, depois de revalorizar a fotografia mais comum, que é aquela do álbum de A Câmara Clara, Barthes chega até a fotografia de arte ou, melhor dizendo, a certa arte da fotografia”, disse Motta.

Rumores da Língua e Desditos da Fotografia de Arte – Roland Barthes Começo e Fim
Editora: Lumme Editor
Ano: 2019
Páginas: 128
Mais informações: https://lummeeditor.com/site/catalogo/%EF%BB%BFrumores-da-lingua-e-desditos-da-fotografia-de-arte/.

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