Plataforma ReSolution reúne indicadores inéditos da Região Metropolitana de São Paulo | AGÊNCIA FAPESP

Plataforma ReSolution reúne indicadores inéditos da Região Metropolitana de São Paulo Dados sobre demografia, raça e imigração, religião, educação, renda e trabalho estão disponíveis em sistema desenvolvido pelo Centro de Estudos da Metrópole, um CEPID da FAPESP, permitindo comparar padrões sociais de segregação e acessibilidade (imagem: CEM)

Plataforma ReSolution reúne indicadores inéditos da Região Metropolitana de São Paulo

08 de agosto de 2019

Agência FAPESP * – O Centro de Estudos da Metrópole (CEM) desenvolveu uma nova plataforma que permite a qualquer interessado verificar em mapas e gráficos interativos os números absolutos e relativos sobre como se distribuem distintos grupos populacionais na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP).

Intitulada ReSolution, acrônimo para Resilient Systems for Land Use Transportation (Sistemas Resilientes para Transporte Terrestre), a inovação acaba de ser lançada e pode ser consultada em http://200.144.244.157:8000/resolution. O CEM é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) apoiados pela FAPESP.

O portal ReSolution apresenta 97 variáveis absolutas e relativas. Uma delas é a concentração da população branca, amarela, parda e negra na RMSP, informada por meio do indicador cor-etnia. Na região central de São Paulo, por exemplo, nota-se que pretos e pardos se localizam predominantemente no entorno dos bairros São Joaquim, Baixada do Glicério, Praça da Sé, Parque D. Pedro, São Bento e Luz, enquanto a população branca se concentra no chamado "centro expandido", como Consolação, Pacaembu, Higienópolis e Jardim Paulista. A plataforma proporciona a visualização simultânea no mapa e no gráfico correspondente. Permite ainda selecionar dinamicamente locais no mapa ou no gráfico e fazer consulta específica clicando na região de interesse para maiores detalhes.

“Com o ReSolution, pela primeira vez, conseguimos um sistema que oferece, de forma amigável para o usuário, indicadores de demografia, raça e imigração, religião, educação, renda e trabalho, em uma só plataforma, e que agrega novos indicadores, os de acessibilidade e segregação, permitindo comparar padrões sociais com segregação e acesso”, disse Eduardo Marques, vice-coordenador do CEM, coordenador do projeto ReSolution e professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

Adicionalmente, o projeto envolveu o desenvolvimento de estudos sobre segregação e acessibilidade, assim como um modelo baseado em agentes que simula, em ambiente computacional, dinâmicas de localização residencial de distintos grupos populacionais e seus reflexos nos padrões de segregação e diferenciais de acessibilidade ao trabalho. Todas as atividades de pesquisa foram realizadas para Londres (Inglaterra) e São Paulo, de forma comparativa.

Os indicadores se baseiam no Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Pesquisa Origem e Destino 2007 do Metrô de São Paulo foi usada pela equipe de Mariana Giannotti, coordenadora de Transferência do CEM e professora da Escola Politécnica da USP, para levantamento dos tempos de viagem e cálculos para os índices de acessibilidade. A equipe da pesquisadora Flávia Feitosa, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), desenvolveu os índices de segregação, aplicados à realidade da RMSP. Ambas as frentes, de acessibilidade e segregação, contaram com a equipe da professora Joana Barros, do departamento de Geografia da Birkbeck, Universidade de Londres, no Reino Unido. O modelo baseado em agentes foi desenvolvido em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). O projeto também contou com a parceria dos pesquisadores Mike Batty, Duncan Smith, Chen Zhong e Yao Shen, do Centre for Advanced Spatial Analysis da University College London, no Reino Unido.

Com a plataforma ReSolution, é possível identificar e quantificar no espaço urbano, de forma clara, a acessibilidade – conceito que demonstra as oportunidades de acesso a postos de trabalho, com base no local onde se mora e no meio de transporte disponível.

“O portal ReSolution mostra nos mapas de acessibilidade quantas oportunidades de emprego se consegue alcançar a partir do seu local de origem [moradia], considerando o tempo de viagem”, disse Giannotti.

Uma pessoa que more no entorno do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na avenida Paulista, por exemplo, tem a seu alcance mais de 1,3 milhão de postos de trabalho, em um raio de distância que pode ser percorrido em 30 minutos com transporte público. Nos mesmos tempo e distância, um morador do entorno do Conjunto Habitacional Inácio Monteiro, em Cidade Tiradentes, bairro da zona leste da capital, tem acesso potencial a 100 vezes menos empregos – pouco mais de 13 mil postos de trabalho ao seu alcance. É claro que o acesso a esses postos não se restringe à questão do deslocamento físico, envolvendo atributos educacionais e ocupacionais entre outros, “mas a medida ajuda a colocar uma lupa para observar o quanto o transporte pode dificultar o acesso para algumas populações em comparação a outras, acrescentando por vezes mais uma barreira que reforça as desigualdades”, disse Giannotti. “Essa é, na verdade, uma dimensão central das desigualdades sociais em metrópoles como São Paulo.”

O portal ReSolution também mostra e quantifica, de forma inédita, o processo de segregação espacial. “Para entender os diferentes aspectos da segregação, trabalhamos a chamada cartografia do invisível, ‘transformando’ conceitos em equações, usando dados populacionais”, disse Barros. “Como existem várias maneiras de entender a segregação, temos várias medidas. Para cada conceito, temos uma maneira de medir”, acrescentou.

A plataforma traz indicadores de segregação residencial e ocupacional. “Tradicionalmente se mede a segregação residencial, mas faz sentido medir a dos espaços de trabalho, dado o tempo que ficamos ou gastamos com ele. Como estávamos observando a questão do transporte, era interessante ter uma narrativa que juntasse essas duas coisas”, disse.

O ReSolution mostra como os grupos estão distribuídos na cidade, considerando espaços de residência e de trabalho, por meio de indicadores como o de “dissimilaridade” e “índice H” (da Teoria da Informação). Esses indicadores olham o local e comparam sua composição populacional com a de toda a metrópole. Se o local é muito segregado, não terá uma composição semelhante ao do todo. Outro indicador é o “índice de exposição”, que mostra a chance de grupos diferentes compartilharem o mesmo espaço.

Parceria com o exterior

A ideia do ReSolution nasceu de um pós-doutorado de Marques financiado pela FAPESP na Inglaterra, em 2004. Lá ele conheceu o trabalho do Centre for Advanced Spatial Analysis (CASA), centro de pesquisa interdisciplinar da University College London (UCL) focado no desenvolvimento científico aplicado a métodos, ideias de modelagem e visualização baseados em computação e aplicados às cidades. Eles desenvolveram o DataShine, um sistema que produz mapas on-line no nível da menor desagregação do censo inglês, gerando com muita velocidade um grande volume de dados sobre toda a Inglaterra.

“Eu os procurei para negociar uma transferência de tecnologia, pois os webmaps brasileiros eram muito lentos, pouco amigáveis e de design ultrapassado, mas eles propuseram uma pesquisa em conjunto”, contou Marques.

Nessa colaboração financiada pela FAPESP e pelo Economic and Social Research Council (ESRC-UK), os pesquisadores puderam comparar a questão da segregação socioespacial e acessibilidade em São Paulo e Londres. Da parte inglesa, a coordenação ficou com Batty (CASA-UCL) e Barros (Birkbeck, Universidade de Londres).

“A acessibilidade é muito melhor em Londres e seus padrões de segregação muito diferentes”, ressaltou. Na capital da Inglaterra, os padrões de segregação são mais complexos, associados à microssegregação, processo de segregação caracterizado pela existência de pequenos territórios de grupos específicos, que podem ser de classe, étnicos ou religiosos, e que se localizam tanto no interior quanto fora da metrópole. Já São Paulo é mais macrossegregada.

“Uma das missões do CEM é transferir o conhecimento que produzimos na academia. Desenvolver aplicativos construídos com base em temas sociais, de forma interdisciplinar por colocar engenheiros e profissionais da tecnologia da informação para conversar e trabalhar junto com cientistas sociais. Não é uma tarefa trivial, mas encontramos uma maneira de fazer isso”, disse a diretora do CEM, Marta Arretche, cientista política e professora da FFLCH-USP.

Marques ressaltou ainda os ganhos na capacitação do próprio CEM. “O projeto permitiu que inovássemos também em nossa área técnica, aprimorando nossas bases de dados, possibilitou a integração dos bolsistas de tecnologia da informação e comunicação às nossas pesquisas, viabilizou a vinda da professora Mariana Giannotti para nossa equipe e nos atualizou em termos de transferência”, disse.

*Com informações da Assessoria de Comunicação do CEM
 

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