Pesquisa pode encontrar novas mutações associadas à narcolepsia | AGÊNCIA FAPESP

Pesquisa pode encontrar novas mutações associadas à narcolepsia Trabalho apresentado durante o Workshop da Iniciativa Brasileira de Medicina de Precisão reforça a importância do compartilhamento de dados de pesquisa para se chegar às causas genéticas das doenças (foto: Felipe Maeda / Agência FAPESP)

Pesquisa pode encontrar novas mutações associadas à narcolepsia

13 de novembro de 2018

André Julião  |  Agência FAPESP – Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) fez o que é provavelmente o primeiro sequenciamento completo do DNA de dois irmãos gêmeos “idênticos” (monozigóticos) em que apenas um deles tem narcolepsia do tipo 1. 

A doença neurológica afeta o controle do ciclo de sono, causando sonolência excessiva durante o dia e instabilidade no sono profundo (REM). O tipo 1 da doença é caracterizado pela cataplexia, o relaxamento súbito e involuntário dos músculos, podendo causar quedas repentinas do paciente. 

Além disso, nessa variante da narcolepsia a pessoa tem um nível baixo do neuropeptídeo hipocretina. No tipo 2 nenhuma dessas duas características aparece.

O DNA completo dos gêmeos foi sequenciado pela equipe de Renata Carmona e Ferreira, em colaboração com Fernando Morgadinho dos Santos Coelho, professores do departamento de Neurologia da Escola Paulista de Medicina (EPM) da Unifesp, além de membros do Laboratório de Genômica Médica e Medicina de Precisão, coordenado pelo professor Marcelo Ribeiro da Silva Briones.

Os resultados preliminares da pesquisa foram apresentados durante o 6º Workshop da Iniciativa Brasileira de Medicina de Precisão (BIPMed), ocorrido no dia 7 na sede da FAPESP – que apoia a iniciativa. 

“Gêmeos idênticos são ótimos para estudar esse tipo de ocorrência, pois grande parte do DNA deles é idêntica. Então, o pouco que houver de discordante é potencialmente o que gera a narcolepsia em um e não no outro”, disse Ferreira à Agência FAPESP.

Banco de dados

Assim que publicados, os dados da pesquisa serão disponibilizados na BIPMed, uma iniciativa criada em 2015 por cinco Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela FAPESP. Trata-se de um banco de dados de genomas de pessoas saudáveis e de outras com doenças específicas, que cresce a cada ano. Atualmente, contém genomas ligados a encefalopatias epiléticas, anomalias craniofaciais, câncer de mama, surdez hereditária, neurofibromatose e em 2019 vai ganhar sequências ligadas ao lúpus. 

Atualmente, são mais de 900 mil variantes genéticas depositadas no banco de dados. Estados Unidos, Brasil e China são os países que mais o acessam. 

“O objetivo da BIPMed é ajudar a implementar a medicina de precisão no Brasil, agindo como elemento catalítico para estimular a colaboração entre cientistas, médicos, autoridades da saúde, hospitais e a sociedade”, disse Iscia Lopes-Cendes, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp) e membro do Comitê Diretivo da BIPMed.

Outra pesquisa apresentada foi a de Briones, que estuda como variações em alguns genes tornam a metabolização de medicamentos melhor ou pior. “Para fazer medicina de precisão, é preciso conhecer como o organismo do paciente processa o medicamento no corpo, a fim de dar a dose adequada”, disse em sua palestra. 

Para aqueles que metabolizam mal a droga, é preciso diminuir a dose. Como ela demora para ser eliminada, pode causar intoxicação. Por outro lado, quem metaboliza muito rápido precisa de uma dose maior, para que haja droga suficiente no organismo para poder fazer efeito. Esses dois grupos representam, cada um, 10% a 15% da população. “Se formos pensar no Brasil, são cerca de 20 milhões de pessoas. Não é pouca coisa”, disse Briones. 

Colaboração

Grandes bancos genéticos estão dando pistas sobre as adaptações do homem americano. Tabita Hünemeier, professora do Instituto de Biociências da USP, apresentou parte de sua pesquisa financiada pela FAPESP que retraça os passos dos primeiros americanos, baseado nas características genéticas dos seus ancestrais atuais.  

“Nossos resultados sugerem fortemente uma assinatura de seleção natural em todas as 53 populações nativas americanas estudadas, incluindo um forte sinal em populações amazônicas que são extremamente diferentes dos inuítes [povos árticos como os esquimós] em relação a cultura, ambiente e dieta”, disse durante a palestra. 

“Na nossa opinião, esse perfil genético sugere um único e muito forte evento adaptativo que ocorreu na Beringia [plataforma que ligou Europa à América do Norte e que permitiu a chegada do Homo sapiens ao continente americano], antes da expansão dos ancestrais dos primeiros americanos pelo continente americano e pela Groenlândia. Esse evento foi relacionado às adaptações metabólicas, à dieta e ao clima frio, que eram o panorama constante durante a parada na Beríngia”, disse a geneticista, que fez parte do grupo que recontou a origem do povo de Luzia (leia em agencia.fapesp.br/29157

Fátima Nunes, professora da Universidade de São Paulo, apresentou o contexto dos bancos de dados de ciência no Brasil e no mundo, parte da chamada Open Science (leia mais em agencia.fapesp.br/28799). 

Para Victor Pylro, professor da Universidade Federal de Lavras e coordenador do Brazilian Microbiome Project, bancos de dados colaborativos como da BIPMed permitem uma colaboração entre pesquisadores que é fundamental para o avanço da ciência.

 

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