Pedagogia da ação-reflexão | AGÊNCIA FAPESP

Com foco na construção de novas formas de conceber a prática político-pedagógica na organização escolar, projeto inova ao criar ações integradas em uma unidade de ensino público fundamental em Campinas (foto: Jornal da Unicamp)

Pedagogia da ação-reflexão

20 de agosto de 2009

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – “A transformação da escola pública pode ser considerada como uma utopia ou como uma atitude. Como perspectiva utópica estará por vir, mas como atitude a transformação se incorpora ao trabalho cotidiano.”

Essa definição, de viver integralmente a realidade escolar, norteou o projeto “Trabalho integrado na escola pública: participação político-pedagógica”, coordenado pelo professor Pedro Ganzeli, da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O projeto – desenvolvido na Escola Municipal de Ensino Fundamental Vicente Ráo, localizada no Parque Industrial, em Campinas – teve apoio da FAPESP por meio do Programa de Melhoria do Ensino Público.

De acordo com Ganzeli, a série de iniciativas ajudou a construir uma nova forma de organização democrática, tanto no âmbito interno da escola como na relação da unidade com os órgãos centrais de educação da rede municipal que controlam todo o processo escolar.

“As soluções foram pensadas pelos próprios professores, que deixaram de ser tarefeiros para adotar um trabalho reflexivo no enfrentamento dos problemas. A visão profissional se sobrepôs à visão personalista predominante na escola pública”, disse à Agência FAPESP.

O projeto, iniciado em julho de 2006 e concluído no mês passado, buscou romper com a lógica de organização do espaço escolar tradicional, baseada majoritariamente nas decisões dos gestores da educação.

A escolha da escola se deu a critério da equipe gestora. E, a partir das necessidades da unidade, as ações começaram a ser elaboradas de maneira participativa. Segundo Ganzeli, a organização burocrática, fragmentação e falta de diálogo que ainda se fazem presentes na escola pública dificultam o entendimento das necessidades pedagógicas pelo setor administrativo.

“Ao discutir as demandas, o que víamos eram trabalhos muito fragmentados. A supervisora conversava com a diretora enquanto a coordenadora pedagógica mantinha contato com a orientadora pedagógica de forma isolada. E elas todas nunca se reuniam”, apontou.

A escola Vicente Ráo, indicada pela supervisão de ensino, contava em 2005 com um quadro completo de gestores (diretora, dois vice-diretores e orientadora pedagógica), responsável por 1,2 mil alunos em quatro turnos.

“Iniciamos as reuniões para compor o grupo de bolsistas. A partir de diálogos constantes, desenvolvemos cinco subprojetos e terminamos com sete. Dos 14 professores pesquisadores, chegamos a 19 e, ao final, eram 16 bolsistas”, contou Ganzeli.

Além das reuniões gerais com todo o grupo, para cada subprojeto houve encontros e ações específicas. Durante as reuniões do subprojeto intitulado Planejamento participativo: caminho da gestão democrática, que envolveu o planejamento participativo e o conselho de escola, não se notou, por exemplo, a presença de um regimento interno.

 

“Quando passamos a discutir o significado do regimento interno, começamos a perceber o significado do conselho e ampliamos a participação no processo de eleição. Por proposta dos gestores, informatizamos esse processo na eleição do conselho de escola, com mais divulgação. A dinâmica participativa aumentou bastante na unidade escolar”, disse.

Outro subprojeto inovador foi o “Jogos da amizade”, que, segundo professor da FE, envolveu a escola como um todo. “Ele ampliou muito a interdisciplinaridade. Os alunos criaram uma comissão organizadora dos jogos e tanto eles como os pais passaram a participar da organização. Isso foi fundamental também”, afirmou.

Ampliar a participação na organização do trabalho escolar foi o que permeou os diferentes subprojetos. Além dos dois já citados, foram destaques: Ação integrada da supervisão educacional, laboratório interativo de ciências, inclusão e o trabalho integrado na escola pública, Construção de ciclos de desenvolvimento humano e registro em vídeo no cotidiano escolar.

O trabalho com câmara de vídeo, segundo o coordenador, foi usado como ferramenta pedagógica e atendeu a várias funções, como “registro histórico da escola, imagens de algumas reuniões importantes, estudos sobre os sem-terra ou registro de visita ao assentamento de sem-terra”.

Instrumentos avaliativos

A metodologia denominada de “pesquisa-ação-reflexão” incluiu produção de diários de campo e de instrumentos avaliativos, além de relatórios sintetizando todo o trabalho do mês. Foram 114 reuniões gerais nos últimos três anos do projeto.

De acordo com Ganzeli, o objetivo foi levar à reflexão e, a partir dela, à elaboração de ações concretas, que por sua vez, após serem avaliados os resultados, geravam nova reflexão e novas ações. “Esse processo melhorou as ações porque os professores passaram a refletir sobre o próprio fazer pedagógico”, disse.

“Devolvíamos os relatórios mensais com algumas correções e eles começavam a perceber mais o que estava ocorrendo em seu próprio trabalho. E isso foi criando a ideia de pesquisa coletiva. O grupo passou a ter uma visão, uma consciência maior de como o processo era construído”, apontou.

Segundo o professor da Unicamp, não há perspectiva de pensar essas ideias como um modelo a ser seguido. “Pelo contrário, é uma concepção de educação em que pensamos que cada escola tem sua dinâmica própria.”

Para socializar a experiência, Ganzeli conta que o grupo está envolvido agora na preparação de um livro. “Esperamos que a publicação sirva para ampliar a discussão sobre o processo vivido levantando discussões sobre plano de ensino, plano de ação da equipe gestora, interdisciplinaridade, construção do trabalho integrado, entre outros temas”, destacou.
 

 

  Republicar
 

Republicar

A Agência FAPESP licencia notícias via Creative Commons (CC-BY-NC-ND) para que possam ser republicadas gratuitamente e de forma simples por outros veículos digitais ou impressos. A Agência FAPESP deve ser creditada como a fonte do conteúdo que está sendo republicado e o nome do repórter (quando houver) deve ser atribuído. O uso do botão HMTL abaixo permite o atendimento a essas normas, detalhadas na Política de Republicação Digital FAPESP.


Assuntos mais procurados