Música para Deus | AGÊNCIA FAPESP

Alunos e professores da Escola de Comunicações e Artes da USP se reúnem no interior de Minas para celebrar repertório barroco (foto: André Fossati)

Música para Deus

14 de maio de 2004

Por Neldson Marcolin, da revista Pesquisa FAPESP

Em meados de julho, cerca de 30 músicos abandonarão suas férias da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) para internar-se em Prados, pequena cidade 500 quilômetros distante da capital paulista, no interior de Minas Gerais. Durante 16 dias, eles serão parte da localidade. Apresentarão recitais, tocarão com alguns dos 7.700 moradores e darão aulas de música para os interessados.

Os eventos serão gratuitos, numa simbiótica interação entre a população e os músicos forasteiros. Entre uma atividade e outra, eles trocarão informações sobre antigas peças musicais sacras escritas por negros e mulatos, guardadas nos arquivos das velhas bandas mineiras. Ainda hoje é possível achar raridades do século 18 que não são tocadas há 200 anos. Em Prados, uma parte do passado colonial brasileiro voltará à vida. Não será a primeira vez.

O Festival de Música de Prados ocorre anualmente desde 1977, sempre com o mesmo espírito de integração entre visitantes e moradores. Nenhum dos músicos ganha para participar. A FAPESP banca a maior parte dos custos de viagem e hospedagem de alunos e professores, mas não há, nem de longe, a publicidade que outros festivais têm. Aliás, não há publicidade nenhuma. O evento é conhecido apenas entre poucos estudantes e docentes da USP e em algumas cidades vizinhas de Prados, como São João del-Rei e Tiradentes.

"Esse é talvez o único festival de música em que a população tem uma interação real com os músicos", diz o maestro Olivier Toni, professor titular (hoje aposentado) e um dos fundadores do Departamento de Música da ECA (1970). Ele também ajudou a criar a Orquestra de Câmara de São Paulo (1956), a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo (1968), a Escola Municipal de Música de São Paulo (1969), a Orquestra Sinfônica da USP (1972) e a Orquestra de Câmara da USP (1995). Toni foi o idealizador do evento de Prados e é, ainda hoje, seu principal motor.

A descoberta da cidade mineira foi resultado da curiosidade do pesquisador. O maestro e alguns alunos visitavam São João del-Rei em 1974 quando decidiram consultar o acervo da Sociedade Lira Sanjoanense. A instituição tem um arquivo musical com grande quantidade de originais e cópias de obras religiosas antigas produzidas na região e até uma boa coleção de outras cidades do país do tempo do Brasil Colônia.

Surpresos com a excelência do material encontrado, o grupo pediu autorização da instituição para microfilmar o que fosse possível. À época, a equipe de Toni sempre levava um aparelho portátil de microfilmagem no porta-malas do carro quando se embrenhava em missões exploratórias por Minas Gerais em busca de originais pouco conhecidos. Nunca se sabia o que encontrariam em igrejas e sociedades seculares e convinha estar sempre preparados para não perder a viagem.

Ao perguntar onde havia mais músicas do século 18, como as encontradas na Lira Sanjoanense, foi-lhes indicada Prados, a 26 quilômetros dali. O pesquisador chegou na cidade com dez alunos e encontrou o maestro Ademar Campos Filho, encarregado da banda e responsável pelo arquivo. "Na Semana Santa, ele levava aquela música antiga para as procissões e tocava", conta Toni. Campos lhes mostrou documentos e peças de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746-1805) e Manoel Dias de Oliveira (1764-1837), entre outras, e tudo foi microfilmado. Depois de três dias de conversas e pesquisas, Toni sugeriu a Campos a realização do festival, idéia prontamente aceita.

Clique aqui para ler todo o texto da reportagem da edição 99 de Pesquisa FAPESP.

Pesquisa FAPESP está solicitando aos pesquisadores, bolsistas ou assessores ad hoc da FAPESP, que recebem gratuitamente a revista, que se recadastrem para continuar a receber a publicação. Para fazer o recadastro, clique aqui.

Para assinar a revista, clique aqui.


  Republicar

 

Republicar

A Agência FAPESP licencia notícias via Creative Commons (CC-BY-NC-ND) para que possam ser republicadas gratuitamente e de forma simples por outros veículos digitais ou impressos. A Agência FAPESP deve ser creditada como a fonte do conteúdo que está sendo republicado e o nome do repórter (quando houver) deve ser atribuído. O uso do botão HMTL abaixo permite o atendimento a essas normas, detalhadas na Política de Republicação Digital FAPESP.


Assuntos mais procurados