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Aplicações terapêuticas para estudos de farmacogenômica ainda são limitadas e seu uso em uma medicina personalizada está longe da realidade, dizem especialistas no Congresso Brasileiro de Genética (foto: F.Castro)

Muito a fazer

17 de setembro de 2010

Por Fábio de Castro, do Guarujá (SP)

Agência FAPESPOs estudos sobre farmacogenômica – que se dedicam a investigar como a variabilidade genética pode influenciar a eficácia dos fármacos – têm feito grandes progressos em todo o mundo. Mas as aplicações terapêuticas dessas pesquisas ainda são uma realidade distante e o caminho para o uso da farmacogenômica como ferramenta para uma medicina personalizada pode ser muito mais longo do que se pensava.

A conclusão é de especialistas que apresentaram diferentes estudos farmacogenéticos durante o 56º Congresso Brasileiro de Genética, nesta quinta-feira (16/9), no Guarujá (SP). O evento é promovido pela Sociedade Brasileira de Genética e reúne mais de 2 mil cientistas e pesquisadores.

De acordo com Júlio Licínio, pesquisador da Universidade Nacional da Austrália, os exemplos mais utilizados de aplicações da farmacogenômica referem-se a poucas doenças e poucas drogas.

“Para a maior parte dos medicamentos, a farmacogenômica não é levada em conta. Mas é preciso ter paciência com a chamada medicina translacional. Em 2000, quando foi sequenciado o genoma humano, foram feitas muitas promessas de aplicação clínica, mas nenhuma delas está nem perto de se concretizar”, afirmou o cientista nascido na Bahia.

Segundo Licínio, que também é editor do Pharmacogenomics Journal, isso não quer dizer que os estudos em farmacogenômica sejam ineficientes, mas sim que a expectativa em torno de resultados rápidos foi exagerada. A lentidão no surgimento de resultados práticos da ciência médica, segundo ele, não é exclusividade da genética.

“Desde a primeira vacina contra a varíola até a erradicação da doença transcorreram 184 anos. Dentro de 50 ou 100 anos vamos ter muitas aplicações. Mas isso não ocorrerá da noite para o dia, nem em uma ou duas décadas. Hoje, essas aplicações terapêuticas são um mito e a trajetória do mito para a realidade é muito mais lenta do que gostaríamos de acreditar”, afirmou.

Para Claiton Bau, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o tempo para que a medicina baseada em farmacogenômica chegasse à clínica foi subestimado, mas o processo está em curso.

“Houve quem achasse que a medicina com base na farmacogenômica seria uma realidade em 2015 ou em 2020. Hoje, vemos que estávamos muito mais distantes do que podíamos imaginar. Mas se trata de uma variável contínua, um processo que nunca chegará ao fim. Talvez estejamos seguindo por uma escada com degraus bastante baixos, mas é importante ter em mente que não paramos nunca de subir”, afirmou.

Segundo Bau, se for criada uma expectativa de que a farmacogenômica deverá chegar a um estágio de desenvolvimento completo, o resultado será a frustração de expectativa, levando pesquisadores a desistir de tentar.

“O mais interessante é incorporar à farmacogenômica a ideia de personalização com base em ambiente. Isto é, estudar a contribuição do ambiente e dos demais fenótipos de um indivíduo para a manifestação da doença ou a resposta a tratamentos. Acredito que vamos melhorar a prática médica a partir dessa ideia. A medicina personalizada, que sempre foi feita na base da tentativa e erro, cada dia mais vai ser feita com base em evidências científicas”, afirmou.

Rosario Domingues Crespo Hirata, professora titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo, apontou que a farmacogenômica já tem muitos resultados importantes em relação a determinadas doenças e no monitoramento terapêutico.

“Sou otimista. Acho que não podemos esquecer a importância da farmacogenômica, por exemplo, para a área das doenças infecciosas. Na área das doenças oncológicas, a FDA [Food and Drug Administration, do governo dos Estados Unidos] já preconiza a análise farmacogenética para indicar o medicamento. Em algumas doenças hematológicas o paciente está em risco sem esse tipo de análise”, disse.

Muitos medicamentos, segundo ela, foram desenvolvidos exclusivamente por se conhecer as alterações gênicas. “Devemos lembrar também da importância do PCR-ABL nas terapias direcionadas. Esses métodos permitem o monitoramento terapêutico. Estamos contribuindo há muitos anos com esse conhecimento e seguimos avançando”, disse a cientista que coordena três projetos apoiados pela FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular.

Para Guilherme Suarez-Kurtz, da Coordenação de Pesquisa do Instituto Nacional do Câncer (Inca), a ciência deverá obter muito mais sucesso nos processos monogênicos envolvendo a farmacogenômica. Ainda assim, esse tipo de estudo exigirá enorme número de pacientes e análises altamente complexas.

“Há respostas imunológicas que são monogênicas e a farmacogenômica nasceu disso. Nesse campo, há exemplos que apontam para uma farmacogenômica ideal, que genotiparia um gene e teria uma resposta importante a partir daí. Mas não sei se há exemplos para respostas clínicas benéficas. A realidade a curto prazo tenderá mais para os efeitos adversos que para a resposta clínica”, disse.

Segundo ele, a farmacogenômica também possui um alto valor na produção de ciência básica. “Os estudos farmacogenéticos estão gerando uma quantidade imensa de informação. Com essa massa de informação que é continuamente acumulada, os cientistas deparam com novos conhecimentos que nem sempre eram o objetivo inicial. Os estudos em farmacogenômica têm levado os pesquisadores a descobrir funções desconhecidas em genes que já haviam sido estudados”, afirmou.

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