Mosquitos rastreados | AGÊNCIA FAPESP

Estudantes da Faculdade de Saúde Pública da USP ganham prêmio por projeto que mapeará, dentro de um ano, a distribuição das espécies de mosquitos no Vale do Ribeira. Objetivo é direcionar atividades de controle e vigilância de agentes infecciosos (foto: Fabio Colombini - Instituto Florestal)

Mosquitos rastreados

23 de dezembro de 2008

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – O Vale do Ribeira – região do interior paulista que abriga mais de 60% da Mata Atlântica remanescente no país – terá pela primeira vez, dentro de um ano, um mapa de distribuição das espécies de mosquitos de importância médica. Um dos objetivos é fazer previsões de risco de presença das espécies que podem infectar a população local.

O projeto de pesquisa, que será realizado por Gabriel Zorello Laporta e Daniel Garkauskas Ramos, respectivamente estudantes de doutorado e mestrado do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), ganhou este mês o primeiro lugar da Bolsa de Auxílio à Pesquisa Mapfre-USP.

O prêmio, concedido anualmente pela Fundação Mapfre, sediada na Espanha, rendeu aos estudantes uma bolsa de R$ 10,2 mil reais para concluir o projeto extracurricular dentro de um ano. A orientação é da professora Maria Anice Mureb Sallum.

De acordo com Laporta, o Vale do Ribeira reúne características que o tornam uma área potencial para a introdução de novos agentes infecciosos. “A alta biodiversidade, a presença de grande variedade de mosquitos vetores e a crescente alteração antrópica, com a introdução de animais domésticos, são fatores que podem propiciar o surgimento de doenças emergentes”, disse à Agência FAPES.

Segundo ele, na região há registros da presença de diversos arbovírus – vírus transmitidos por artrópodes –, cuja distribuição está condicionada principalmente à distribuição dos mosquitos. “Consideramos que a região é um reservatório de alguns tipos de arbovírus que podem infectar os mosquitos, que são abundantes e podem transmitir ao homem esses agentes infecciosos. Até agora, no entanto, não há mapas de distribuição dessas espécies”, afirmou.

A proposta de pesquisa teve origem no projeto temático “Culicidae em área de transformação antrópica e seu significado epidemiológico”, apoiado pela FAPESP e coordenado pelo epidemiologista Oswaldo Paulo Forattini (1924-2007) no Núcleo de Pesquisa Taxonômica e Sistemática em Entomologia Médica da FSP.

O projeto coletou, entre 1996 e 2000, informações sobre as populações de mosquitos em dez pontos nos municípios de Cananéia, Pariquera-Açu, Iguape e Ilha Comprida, que têm alto risco de desenvolvimento de epidemias.

“A idéia é empregar variáveis climáticas e de vegetação com o objetivo de inferir a distribuição das espécies dos mosquitos de importância médica, extrapolando para toda a região os dados coletados nos dez pontos amostrais”, disse Laporta.

Os mapas de distribuição dos mosquitos serão úteis para desenvolver estratégias de vigilância e controle, além de contribuir para o melhor entendimento da suas relações com o homem.

Segundo Laporta, o fundamento teórico do projeto é a teoria do nicho ecológico, que já havia sido desenvolvida na época da coleta dos dados. Naquele momento, no entanto, não havia recursos técnicos disponíveis para a extrapolação dos dados pontuais para uma superfície continua.

“Com o advento de computadores mais rápidos e softwares mais específicos, tornou-se possível usar esses dados para espacializar a informação, georreferenciando as informações dos dez pontos amostrais e inferindo a distribuição potencial das espécies de mosquitos nas outras áreas de Mata Atlântica ao nível do mar”, explicou.

Cada espécie ocupa um determinado espaço, dependendo de uma série de variáveis, como temperatura, umidade e recursos alimentares. A técnica utilizada no projeto é sobrepor à malha formada pelos campos de coleta os dados de temperatura e precipitação como se fossem camadas do nicho ecológico.

“Ou seja, além dos nichos onde a espécie ocorre comprovadamente, vamos inferir onde mais ela poderá ocorrer segundo as características que favorecem sua presença. Assim, vamos calcular a presença potencial segundo as variáveis ambientais”, disse Laporta.

Influência do homem

As informações obtidas na década de 1990, organizadas por Ramos em um banco de dados, servirão como base para as análises. Dados de temperatura, precipitação e do estado de conservação da vegetação serão solicitados ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com Ramos, a literatura sobre o assunto mostra que as alterações antrópicas influenciam a comunidade de mosquitos. Em locais mais preservados, existem muitas espécies, com certa dominância de algumas delas.

“Por outro lado, em áreas modificadas pela ação do homem o ambiente fica mais homogêneo e a comunidade de mosquitos perde sua riqueza. Com isso, as espécies dominantes podem mudar e mosquitos que antes não eram vetores podem passar a ser. Por isso, é importante ter as imagens de satélite para localizar as áreas preservadas e aquelas com alterações antrópicas”, disse.

Segundo ele, a técnica possibilitará inferências muito mais detalhadas e precisas do que essas suposições. A criação de mapas, no entanto, não estava no planejamento do projeto temático que deu origem à idéia.

“Com a coleta dos dados, o professor Forattini esperava ver qual a influência antrópica na distriibuição dos mosquitos no Vale do Ribeira. A idéia era comparar o material coletado nos pontos que representavam áreas mais preservadas e em outros onde o impacto humano estava mais avançado. O princípio é relativamente simples, mas com um efeito muito significativo para o planejamento de atividades de vigilância e controle entomológico”, disse Ramos.

Os mapas, por outro lado, possibilitarão uma grande economia de recursos financeiros e humanos, segundo o mestrando. “Com esse mapeamento será possível estimar a distribuição dos mosquitos e direcionar o controle sem precisar visitar as áreas previamente”, disse.

Ramos explica que serão utilizados dois modelos biológicos. Um deles será capaz de dizer qual é a probabilidade de existência de determinada espécie. O outro dirá se o hábitat é adequado ou não para cada espécie.

“A área tem uma região serrana à sua volta e não temos pontos amostrais nesses locais. Então, não poderemos extrapolar os dados para lá, mas apenas para as áreas de planície”, disse.
 

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