Jovem professor do ITA recebe Prêmio José Leite Lopes de 2018 | AGÊNCIA FAPESP

Jovem professor do ITA recebe Prêmio José Leite Lopes de 2018 Premiação contemplou tese de doutorado sobre anomalia magnética do Atlântico Sul e efeitos na navegação aérea. Partículas geradas por raios cósmicos podem afetar computadores de bordo e saúde de tripulantes (foto: arquivo pessoal)

Jovem professor do ITA recebe Prêmio José Leite Lopes de 2018

03 de janeiro de 2019

José Tadeu Arantes  |  Agência FAPESPMaurício Tizziani Pazianotto foi o ganhador do Prêmio José Leite Lopes de 2018, concedido pela Sociedade Brasileira de Física (SBF). A tese de doutorado “Transporte da radiação cósmica na anomalia magnética do Atlântico Sul e aplicação em aeronáutica”, desenvolvida com bolsa da FAPESP, foi considerada pela SBF a melhor de 2016.

Professor no Departamento de Física do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Pazianotto, 31 anos, recebeu orientação de Brett Vern Carlson, do ITA, e coorientação de Odair Lelis Gonçalez, do Instituto de Estudos Avançados do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (IEAv/DCTA).

“O que fizemos foi modelar o perfil da radiação cósmica na anomalia magnética do Atlântico Sul, que cobre grande parte do nosso continente. Fizemos simulações das radiações primárias e secundárias e as comparamos com medidas colhidas no solo e por aeronaves. Os dados experimentais foram levantados por nós mesmos, em parceria com outros grupos, do país e do exterior, que fazem parte de nossa rede de colaboração”, disse Pazianotto à Agência FAPESP.

Os dados referidos são emissões de nêutrons resultantes da interação dos raios cósmicos com a atmosfera terrestre. Foram levantadas quantidades em diferentes pontos do território brasileiro e em diferentes épocas, de 2009 a 2015. “Esse levantamento em diferentes épocas foi importante para certificar que a influência da atividade solar, considerada em nossas simulações, foi apropriadamente levada em consideração”, explicou.

No passado, a anomalia estava situada acima do Atlântico. Mas ela vem se deslocando lentamente rumo ao Pacífico. Agora, seu epicentro localiza-se aproximadamente na região de Foz do Iguaçu. As causas do deslocamento ainda não estão de todo esclarecidas, mas basicamente decorrem do movimento do magma, que provoca alterações no campo magnético da Terra.

“Nosso principal interesse era saber se e como a anomalia poderia perturbar o campo de raios cósmicos primários e secundários em altitudes de voo. Para isso, desenvolvemos simulações computacionais considerando os efeitos das linhas do campo magnético terrestre na propagação da radiação cósmica na atmosfera”, disse Pazianotto.

Por meio dessa pesquisa, foi possível evidenciar que a anomalia magnética do Atlântico Sul influencia a radiação cósmica de forma significativa para altitudes acima de 40 km. Como parte dos resultados, foi possível também mostrar que o nível de radiação incidente nas tripulações em altitudes de voos comerciais poderia exceder o limite recomendado para o público em geral.

“Essas partículas podem causar danos nos equipamentos eletrônicos, afetando, por exemplo, o funcionamento dos computadores de bordo e dispositivos eletrônicos das aeronaves. E podem prejudicar também os organismos de tripulantes e passageiros habituais”, disse Pazianotto.

A exposição a nêutrons afeta não somente os aviões que cruzam a anomalia magnética do Atlântico Sul, mas os voos de maneira geral, tornando-se tanto mais relevantes quanto mais perto dos polos se encontrem as rotas. Essa linha de pesquisa nasceu no Instituto de Estudo Avançados, em São José dos Campos, em 2008.

O grupo do qual Pazianotto participa, formado por pesquisadores do IEAv e do ITA, é pioneiro no país no campo da dosimetria de radiação cósmica. Como resultado da tese agora premiada, foi desenvolvida a primeira modelagem capaz de realizar simulações do perfil da radiação cósmica desde o nível do solo até 100 quilômetros de altitude, com detalhamentos inéditos e aplicações em dosimetria aeronáutica.

“Uma nova pesquisa que iremos desenvolver – em parceria do ITA com o Hospital A.C. Camargo, em São Paulo, o Instituto de Estudos Avançados, em São José dos Campos, e a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre – consiste em coletar amostras de sangue das tripulações para investigar danos genéticos e sua correlação com a dose recebida. A primeira fase desse projeto prevê realizar medições em voo em aeronaves militares em latitudes desde equatorial até polares, correlacionar os resultados com nossas simulações e avaliar seus efeitos genotóxicos”, disse Pazianotto.
 

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