Idade ativa | AGÊNCIA FAPESP

Estudo aponta que participação em programas para terceira idade pode colaborar com a boa qualidade de vida e diminuir o risco de depressão (foto: Itatiba.sp.gov)

Idade ativa

26 de fevereiro de 2009

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – Um estudo feito com mulheres a partir dos 60 anos que participam há pelo menos um ano de programas para terceira idade indicou que o envolvimento em tais iniciativas pode colaborar para a manutenção da boa qualidade de vida e do bem-estar psicológico.

Os resultados da pesquisa, publicado na revista Estudos de Psicologia (Campinas), apontaram também que quanto maior o tempo de participação nos programas menor foi a intensidade dos fatores desencadeadores da depressão. Com mais de um ano de programa houve uma melhor percepção de qualidade de vida nos domínios físico, psicológico e social.

Para a psicóloga Tatiana Quarti Irigaray, coautora do artigo, o convívio dos participantes com seus colegas e com a equipe coordenadora faz com que os idosos se sintam mais confiantes do próprio potencial, com atitudes mais positivas em relação a eles mesmos.

“A participação se reflete, entre outros pontos, na diminuição da solidão, na melhor autoestima, na aquisição de novos conhecimentos e no preenchimento do tempo com atividades prazerosas. O ponto principal é que a participação contribui positivamente para a qualidade de vida de idosos e para a diminuição de sintomas depressivos, atuando como um possível preditor de uma velhice bem-sucedida”, disse Tatiana à Agência FAPESP.

O estudo corresponde à dissertação de mestrado da autora, que integra a equipe técnica da Universidade para a Terceira Idade (Uniti) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul . O outro autor do artigo é Rodolfo Herberto Schneider, professor e membro da Comissão Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Gerontologia Biomédica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, que atualmente orienta o doutorado de Tatiana.

O programa Uniti é um exemplo bem-sucedido de programa de educação permanente voltado exclusivamente ao público idoso. Nele, os participantes são incentivados a resgatar e manter a autonomia e a independência, que são fundamentais para uma boa qualidade de vida na velhice.

“Autonomia aqui é definida como o exercício do autogoverno e independência é poder sobreviver sem ajuda para as atividades do dia-a-dia e de autocuidado”, explicou Tatiana. Participaram 103 mulheres com 60 anos ou mais, que atenderam à solicitação do estudo.

Segundo a pesquisadora, a participação exclusivamente feminina se deve ao fato de que a presença de homens em grupos de convivência de idosos é inexpressiva, não totalizando 5%, apesar de eles corresponderem a um terço da população acoma de 75 anos.

Uma possível explicação para a diferença na participação pode estar relacionada às diferenças entre homens e mulheres quanto à sua representação do envelhecimento e como eles e elas percebem essas mudanças.

“A vida mais longa das mulheres é atribuída à maior tendência ao autocuidado, como buscar assistência médica ao longo de toda a vida, ao maior nível de apoio social de que desfrutam e à menor vulnerabilidade biológica durante toda a vida. As mulheres idosas tendem a ter problemas de saúde de longa duração, crônicos e incapacitantes, enquanto os homens idosos tendem a desenvolver doenças fatais de curta duração”, disse Tatiana.

Consequentemente, as idosas têm maior probabilidade de serem viúvas do que os homens e de não se casar novamente após a viuvez. No Brasil, verifica-se uma proporção de quase cinco mulheres viúvas para cada homem viúvo.

“Talvez a solidão ocasionada pela viuvez seja uma das razões para a procura desses grupos”, disse Tatiana. No estudo, as participantes tinham média de idade de 69,2 anos, 44,7% eram viúvas, 40,8% tinham nível superior e 38,8% tinham renda de 6 a 10 salários mínimos.

Rede social

Uma das limitações do estudo, segundo a psicóloga, é que a amostra estudada foi composta, em sua maioria, por mulheres com alta escolaridade e renda, fato que não reflete a realidade de outros grupos de idosos.

“Em segundo lugar, a amostra foi recrutada por conveniência. Possivelmente, as idosas que participam desses programas têm características distintas daquelas que não participam. Por conta disso, é necessário a realização de novos estudos com outros grupos”, destacou.

Entre os fatores que podem desencadear sintomas depressivos no idoso estão a falta ou a perda de contatos sociais, história de depressão pregressa, viuvez, eventos de vida estressantes, institucionalização em casas asilares e baixa renda.

O estudo aponta que a participação em programas para a terceira idade contribui positivamente para a qualidade de vida de idosos e para a diminuição de sintomas depressivos. Mas o tempo de permanência é um fator determinante. Os autores apontam que provavelmente o maior tempo de participação deva favorecer a constituição de uma maior rede social e de maior qualidade.

“A rede social, conquistada com o tempo de participação, formada pelas colegas, ajuda a amortecer os impactos emocionais negativos de problemas, como doenças e perda de pessoas queridas. Com ela, o idoso percebe que não está sozinho, que tem com quem contar, sentindo segurança decorrente das novas amizades, do senso de pertencimento e de integração”, disse Tatiana.

Para ler o artigo Impacto na qualidade de vida e no estado depressivo de idosas participantes de uma universidade da terceira idade, de Tatiana Quarti Irigaray e Rodolfo Herberto Schneider, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui.
 

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