Herman Lent morre aos 93 anos | AGÊNCIA FAPESP

Um dos principais nomes da ciência brasileira, Lent era professor emérito da Fundação Oswaldo Cruz e referência mundial no estudo do inseto transmissor da doença de Chagas (foto: Peter Ilicciev/Fiocruz)

Herman Lent morre aos 93 anos

09 de junho de 2004

Agência FAPESP - Herman Lent, médico parasitologista, pesquisador e professor emérito da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) morreu na segunda-feira (7/6), no Rio de Janeiro, aos 93 anos, de causas naturais. Foi sepultado no dia seguinte no cemitério do Catumbi, na mesma cidade.

Um dos maiores especialistas em todo o mundo no estudo do barbeiro, inseto transmissor da doença de Chagas, Lent publicou mais de 240 trabalhos científicos, entre os quais descrições de dez novos gêneros e 97 espécies de insetos e de 22 novos gêneros e 89 espécies de helmintos (vermes). Existem 22 espécies de insetos que levam o nome lenti, em sua homenagem.

"Ele foi uma referência mundial em triatomíneos e um dos continuadores da obra de Arthur Neiva (1890-1943, o primeiro a classificar o barbeiro). Conheci-o em 1939 e imediatamente nos tornamos amigos e colaboradores", disse o também médico e pesquisador da Fiocruz Sebastião José de Oliveira, em comunicado da instituição. Um dos maiores amigos de Lent, Oliveira deu o nome lenti a uma nova espécie de mosca, em 1954.

Lent foi um dos cassados pelo golpe militar durante o episódio conhecido como "Massacre de Manguinhos", em 1970, quando dez dos principais pesquisadores da Fiocruz foram impedidos de trabalhar e afastados de suas funções.

Nascido em 3 de fevereiro de 1911, no Rio de Janeiro, filho de imigrantes poloneses, Lent se formou em medicina pela Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1934. Foi nomeado pesquisador em biologia e professor de helmintologia do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em 1933. Foi também chefe da seção de entomologia e da divisão de zoologia.

Por influência de Neiva, voltou-se para a entomologia, especializando-se em triatomíneos (barbeiros). Implantou a criação de barbeiros no IOC, na década de 1930, que se tornou uma das maiores do mundo. Na semana passada, quando foi visitado no hospital por Oliveira, outro dos cassados em 1970, pediu que não deixassem de cuidar da coleção de barbeiros.

Cassado e impedido de trabalhar no Brasil, Lent esteve na Venezuela, onde deu aulas na Universidade de Los Andes, e no Paraguai, na Universidade de Assunção. Em seguida, morou nos Estados Unidos, onde foi pesquisador associado do Museu Americano de História Natural de Nova York e escreveu a monografia na qual relatava os tipos de barbeiros existentes.

Voltou ao Brasil em 1976, em plena ditadura militar, passando a lecionar na Universidade Santa Úrsula (USU), onde foi decano do Centro de Ciências Biológicas, professor titular e membro do Conselho de Ensino e Pesquisa. Por gratidão à Madre Maria de Fátima Maron Ramos, chanceler da USU, foi o único dos cassados no "Massacre de Manguinhos" a recusar a reintegração ao IOC, em 1985. Mas continuou colaborando com o instituto, notadamente nos trabalhos em conjunto com seu discípulo, José Jurberg, entomologista do IOC.

Foi editor da Revista Brasileira de Biologia e das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz e professor conferencista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ocupou ainda a chefia da seção de História Natural da edição brasileira da Enciclopédia Delta Larousse e foi editor de diversas publicações da Academia Brasileira de Ciência.

Recebeu vários prêmios e distinções, entre os quais o Prêmio Costa Lima de Entomologia da Academia Brasileira de Ciências (1972) e a Ordem Nacional do Mérito Científico no grau de comendador (1995). Foi fundador da Sociedade Brasileiras de Zoologia, da Sociedade Brasileira de Microbiologia e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).


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