Fogo cerrado contra a homeopatia | AGÊNCIA FAPESP

Estudo publicado na The Lancet compara popular método terapêutico com o uso do placebo (foto: divulgação)

Fogo cerrado contra a homeopatia

26 de agosto de 2005

Agência FAPESP - A revista The Lancet, uma das mais prestigiosas publicações da área médica, resolveu declarar guerra contra a homeopatia. O fogo cerrado, na edição desta semana, vem em três frentes.

A primeira é um artigo que joga um novo banho de água fria nos adeptos da terapia. De acordo com o estudo, os efeitos clínicos do método são compatíveis com os do placebo.

Mathias Egger, da Universidade de Berna, na Suíça, e colegas compararam 110 experimentos do uso de remédios homeopáticos com controle por placebo com outros 110 em que foram aplicados tratamentos pela medicina convencional, para doenças e situações semelhantes, de infecções respiratórias a anestesias em cirurgias.

Os efeitos dos tratamentos foram analisados após a divisão em grupos pequenos com experimento de menor qualidade e grupos maiores com experimentos de melhor qualidade. Os pesquisadores verificaram mais efeitos benéficos no primeiro caso em relação ao segundo, tanto para quem foi tratado por homeopatia quanto por alopatia.

Entretanto, quando a análise se restringiu aos grupos maiores com experimentos de melhor qualidade, não foi identificada evidência convincente de que a homeopatia seria superior ao placebo. "Os resultados são compatíveis com a noção de que os efeitos clínicos da homeopatia são efeitos placebo."


Relatório polêmico

Em editorial com o título "O fim da homeopatia", The Lancet diz que o mais surpreendente não são os resultados do estudo, mas que o debate continue após "150 anos de resultados desfavoráveis" à homeopatia.

O método foi criado no fim do século 18 pelo médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843). Para a revista, é curioso que "quanto mais diluídas se tornam as evidências da homeopatia, aparentemente maior é a sua popularidade." Segundo os editores, apesar de não haver comprovações científicas dos benefícios da terapia, ela não apenas é muito popular em todo o mundo como seu uso tem crescido nos últimos anos.

Os editores da revista lembram que, apesar de por muito tempo ter havido uma complacência com o método homeopático, o cenário tem mudado recentemente. Em 2000, o Comitê Parlamentar em Ciência e Tecnologia do Reino Unido emitiu um relatório ressaltando que "qualquer terapia que afirme ser capaz de tratar de condições específicas deve mostrar evidência de que isso será feito acima e além do efeito placebo". O governo suíço foi além. Após a divulgação de um estudo clínico de cinco anos, decidiu retirar a cobertura dos tratamentos homeopáticos do sistema de saúde nacional.

A revista faz um alerta incisivo. "São as atitudes dos pacientes e dos profissionais de saúde que aumentam o perigo da escolha de terapias alternativas, criando uma ameaça maior para o tratamento convencional – e ao bem-estar dos pacientes –, mais do que os argumentos artificiais dos supostos benefícios de diluições absurdas. (...) Agora, os médicos precisam ser corajosos e honestos com seus pacientes a respeito da ausência de benefícios da homeopatia."

Em reportagem,The Lancet ataca um recente relatório preliminar publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), feito pelo mesmo grupo que avaliou a acupuntura em 2003, em outra análise controversa.

O relatório da OMS sobre homeopatia, Homoeopathy: review and analysis of reports on controlled clinical trials, afirma que o método terapêutico se mostrou superior ao placebo em experimentos controlados e "equivalente à medicina convencional no tratamento de doenças, tanto em homens quanto em animais".

Os críticos não pouparam palavras. "O relatório é baseado em dados positivos e esquece os negativos encontrados em outros estudos", disse Edzard Ernst, da Escola Médica Península, do Reino Unido. "A OMS não deveria promover a homeopatia, da mesma forma que o fez com a acupuntura."

A OMS se defende ao afirmar que o relatório, além de preliminar, tem o objetivo de estimular mais pesquisas sobre o assunto. "Nossa proposta é melhorar as abordagens das pesquisas e levar a estudos clínicos mais apropriados", disse Xiaorui Zhang, que coordenou a análise da OMS.

Mais informações: www.thelancet.com


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