Fiel da balança | AGÊNCIA FAPESP

Pesquisa feita no Centro de Estudos da Metrópole indica que, em São Paulo, as votações são decididas pelo eleitor de centro. Segundo o cientista político Fernando Limongi, os votos estão cada vez mais polarizados entre PSDB e PT, em crescente equilíbrio (Foto: F. Castro)

Fiel da balança

26 de setembro de 2008

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Quem decide o resultado das eleições na cidade de São Paulo não são os militantes de direita ou de esquerda: são os eleitores de centro. Essa é a principal conclusão de uma pesquisa feita no Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e que acaba de ser publicada na revista Novos Estudos, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

No artigo, intitulado Estratégia partidária e preferência dos eleitores – As eleições municipais em São Paulo entre 1985 e 2004, Fernando Limongi, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), e Lara Mesquita, pesquisadora do CEM, utilizaram análises estatísticas para traçar a trajetória dos diferentes grupos de eleitores paulistanos entre 1985 e 2004. O CEM, sediado no Cebrap, é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP.

O trabalho usou dados obtidos em cada urna, incluindo escolaridade, para compreender o comportamento do eleitorado em relação aos partidos na história democrática recente. A metodologia permitiu inferir como os eleitores de um candidato em dada eleição votaram na eleição seguinte.

De acordo com Limongi, que é um dos diretores do CEM e presidiu o Cebrap entre 2001 e 2006, os votos na cidade estão cada vez mais polarizados entre PSDB e PT, em crescente equilíbrio. Os eleitores de centro, inclinando-se ora à direita, ora à esquerda, são responsáveis pelo destino do pleito.

O pesquisador explica que o PSDB tem levado vantagem sistematicamente, especialmente a partir de 2002. A vantagem, no entanto, não garante vitória certa, porque a competição com o PT é mais equilibrada justamente nos segmentos que concentram a maioria dos eleitores. Uma pequena perturbação na distribuição das preferências das seções com eleitores de educação mediana pode decidir a eleição.

Na entrevista a seguir, o pesquisador comenta os resultados do estudo e explica por que o voto do brasileiro é vinculado às divisões partidárias, em um processo eleitoral bastante estável.

“O sistema partidário e eleitoral brasileiro está muito mais organizado do que pode parecer à primeira vista. Ele está muito estruturado, com linhas de clivagem muito claras”, disse Limongi.

Agência FAPESP– Quais são as principais conclusões da pesquisa publicada na mais recente edição da revista Novos Estudos?
Fernando Limongi– A pesquisa foi uma tentativa de mostrar a lógica e a estruturação da competição eleitoral na cidade. A conclusão principal é que, ao longo do tempo, foi se montando uma polarização entre esquerda e centro-direita, com uma preponderância dessa última. No entanto, há um equilíbrio crescente e quem decide o resultado da votação não são os eleitores mais à esquerda ou à direita. São os de centro.

Agência FAPESP– Qual foi a metodologia empregada no estudo?
Limongi– Utilizamos dados para o período de 1985 a 2004. Entre 1985 e 1992, reconstruímos a história eleitoral a partir de análises publicadas na época. Daí em diante, utilizamos nossos próprios dados, que fazem parte de um estudo de longo prazo. São dados do Tribunal Regional Eleitoral, disponibilizados por seção de votação, isto é, urna a urna. A idéia é usar essa grande quantidade de informação para fazer uma inferência sobre o comportamento dos indivíduos nas eleições. Utilizamos a escolaridade média como indicador e, por meio de uma técnica de estatística bastante sofisticada, recuperamos os dados individuais a partir dos dados agregados.

Agência FAPESP– Quem desenvolveu essa técnica de análise estatística?
Limongi– Gary King, da Universidade Harvard. Ele criou um método que chama de “Uma solução para o problema da inferência ecológica”. “Ecológica” porque está trabalhando com dados agregados. A técnica explora ao máximo as informações de milhares de urnas para tentar captar a informação individual.

Agência FAPESP– E a série histórica permite avaliar a variação desse comportamento individual?
Limongi– Sim, como estamos fazendo isso desde 1992, esperamos entender o comportamento de longo prazo dos eleitores em relação aos partidos. A idéia é elaborar uma série histórica e construir uma explicação que dê conta das flutuações do eleitorado. A primeira tarefa é encontrar um padrão que possa ser descrito. Já temos esse padrão razoavelmente estabelecido.

Agência FAPESP– Como é esse padrão?
Limongi– O eleitor tende a associar o voto partidariamente. Não integralmente, mas em boa medida, formando um comportamento estrutural. Ao longo do tempo, ele tende a repetir seu voto. Com isso, o processo eleitoral é razoavelmente previsível, movimentando-se dentro de uma variação relativamente limitada. No caso da cidade de São Paulo, das eleições gerais de 2002 para cá, só restaram dois partidos com candidaturas competitivas: o PSDB e o PT. Antes disso havia ainda o Paulo Maluf.

Agência FAPESP– Como passaram a votar os eleitores de Maluf?
Limongi– O que a pesquisa mostrou, basicamente, é que há uma relação interna muito forte entre o voto do Maluf e o voto do PSDB, que herdou seu eleitorado. Com exceção da eleição para governador em 1998, quando o segundo turno foi decidido entre Maluf e o tucano Mário Covas, o PSDB raramente competiu com Maluf. Naquela mesma eleição, detectamos que quem votou em Maluf para governador, votou no PSDB para presidente. Os tucanos acabaram herdando a maior parte do eleitorado de Maluf depois dos escândalos da administração Celso Pitta, entre 1996 e 2000.

Agência FAPESP– Depois de 2002, então, as eleições se polarizaram entre PSDB e PT?
Limongi– Sim. A derrocada de Maluf coincidiu com um fortalecimento do PT e atualmente há um crescente equilíbrio de forças entre PT e a centro-direita agora representada pelo PSDB. Por enquanto, a tendência mais forte na cidade tem sido a vitória da centro-direita. Na cidade de São Paulo, desde 2002, o PT só venceu o PSDB na eleição presidencial. Mas, mesmo naquele ano, o candidato do PSDB ganhou o governo estadual. Daí em diante, o PSDB ganhou todas, como na eleição para prefeito em 2004, com José Serra. Mesmo na eleição presidencial em 2006, Geraldo Alckmin ganhou na cidade, enquanto Serra ganhava para governador.

Agência FAPESP– Mesmo com essa preponderância pode-se dizer que há um equilíbrio?
Limongi– Sim, porque o PT vem crescendo e não sabemos quando poderá virar o cenário. Quando analisamos mais detidamente, vemos que a diferença a favor do PSDB está sendo feita por um tipo de eleitor que está mais ou menos no centro da distribuição. Quando o PT consegue penetrar um pouco mais nesse nicho, a eleição vira, porque ali se concentra quase 50% do eleitorado.

Agência FAPESP– O que mais a pesquisa detectou sobre esse eleitor de centro?
Limongi– Não se trata apenas de um centro político. Se analisamos o eleitor por anos de escolaridade, trata-se também do centro da distribuição. O grosso do eleitorado está nesse centro de cinco ou seis anos de educação em média. O PSDB leva pequena vantagem ali.

Agência FAPESP– Pode-se dizer que o eleitor é fiel aos partidos?
Limongi– O eleitor não vota partidariamente de forma cega. Mas o tipo de análise que fizemos, para avaliar como vota o eleitor com base em técnicas estatísticas, mostra que há um alto grau de consistência no comportamento do eleitor. Se usarmos uma disposição mínima no espectro ideológico – Maluf à direita, PMDB no centro, PSDB um pouco mais à esquerda e assim por diante até chegar ao PT – vamos ver que os eleitores vão votar sempre aproximadamente na mesma parte do espectro.

Agência FAPESP– Ouve-se com freqüência que o eleitor não vota em partidos, mas sim em pessoas. A pesquisa mostra que o senso comum está errado nesse caso?
Limongi– No fundo, o problema é que a questão é mal colocada. Quando se pergunta a um eleitor se ele vota em partido ou em pessoas, só um completo imbecil diria que vota no partido. Porque isso equivale a dizer “eu não penso, eu vou com a manada”. Fazer essa pergunta, em termos teóricos, é tão absurdo como perguntar à maçã que cai da árvore: “A senhora está sendo atraída pelo centro da Terra?”. Não se pode interrogar a teoria, pode-se demonstrá-la com outro tipo de informação. Se você perguntar ao eleitor em que pessoas ele vota, vai ver que essas pessoas estarão próximas no espectro ideológico. Portanto, ele vota em partidos.

Agência FAPESP– Então os partidos não se tornaram mera abstração?
Limongi– Não. Essa idéia não bate com os dados. De novo, a percepção e o senso comum dizem uma coisa, mas, quando se vai pesquisar, o que a análise revela é outra ordem. E o mundo tem muito mais ordem e estruturação do que pode parecer à primeira vista. Isso é o que acontece no plano eleitoral. O sistema partidário e eleitoral brasileiro está muito mais organizado do que pode parecer à primeira vista. Está muito estruturado, com linhas de clivagem muito claras.

Agência FAPESP– Mesmo com a grande quantidade de partidos nanicos?
Limongi– Esses partidos pequenos estão especializados em sobras. Eles concorrem nas eleições proporcionais e fazem alianças e negociam apoio nas majoritárias, que são as que contam. Mas eles não têm capital eleitoral forte. E nas eleições majoritárias, para presidente, desde 1994 só há competitividade entre PSDB e PT – é um mercado fechado. Para governador, se olhar cada estado, está limitado a dois ou três partidos no máximo, mudando de acordo com o estado. Com a entrada do PT no plano nacional, esse quadro fica muito mais claro. Temos o PT contra os outros praticamente no Brasil todo. Há uma estruturação que não pode ser ignorada.
 

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