Efeito multiplicador | AGÊNCIA FAPESP

Além de possibilitar aquisição de instrumentos científicos especiais, Programa Equipamentos Multiusuários da FAPESP, que abriu chamada de R$ 70 milhões, gera redes que dão impulso exponencial à ciência (foto: Eduardo Cesar/FAPESP)

Efeito multiplicador

25 de setembro de 2009

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Com o lançamento de uma nova chamada de propostas para o Programa Equipamentos Multiusuários (EMU), a FAPESP disponibilizou R$ 70 milhões para que pesquisadores tenham acesso a instrumentos científicos cuja aquisição normalmente seria inviável para seus grupos.

De acordo com cientistas já contemplados pelo EMU em editais anteriores, além de possibilitar o acesso continuado de inúmeros pesquisadores a esses equipamentos, o programa tem um efeito multiplicador, gerando novas redes de pesquisa que impulsionam o avanço do conhecimento de forma exponencial.

Luiz Nunes de Oliveira, professor do Departamento de Física e Informática do Instituto de Física de São Carlos da Universidade de São Paulo (USP), recebeu em 2005 auxílio do EMU para aquisição de um supercomputador IBM PowerPC 970. O equipamento, que foi encomendado e chegou ao laboratório no início de 2007, tem produzido importantes resultados científicos e parcerias inéditas.

“O projeto foi elaborado por um consórcio formado por 66 grupos de pesquisa da USP, que teve acesso prioritário ao equipamento durante um primeiro período. Depois disso o acesso foi aberto e tivemos muitos resultados interessantes. A maior parte na área de física, mas também em química e astronomia, por exemplo”, disse Nunes de Oliveira à Agência FAPESP.

Segundo o pesquisador, o supercomputador – que consiste em um cluster (aglomerado computacional) de 448 processadores que operam em conjunto, possibilitando um desempenho de 2,9 trilhões de operações por segundo (teraflops) – não poderia ter sido adquirido sem o Programa EMU.

“Alguns pesquisadores tinham projetos engavetados há cinco anos por falta de uma máquina adequada para executá-los. O próprio projeto do supercomputador só foi viabilizado com o EMU”, disse.

A aquisição do equipamento teve efeito multiplicador: colocou em contato grupos com interesses comuns de pesquisa. “Temos cientistas das áreas de química e biociências que não se conheciam e, a partir das reuniões relacionadas ao uso do supercomputador acabaram desenvolvendo uma colaboração forte, graças ao projeto. Esse é um benefício talvez até mais importante do que o próprio uso da máquina”, afirmou.

As solicitações na nova chamada do programa serão recebidas até 30 de outubro de 2009. A chamada contempla instrumentos científicos com valores superiores a R$ 100 mil e caracterizados por terem utilidade, de forma continuada, para um conjunto de pesquisadores com ampla experiência e comprovada competência.

As solicitações deverão ser sustentadas por pelo menos três projetos associados de pesquisa, coordenados por diferentes pesquisadores e apoiados pela FAPESP que estejam vigentes ou tenham terminado há menos de dois anos.

Diversidade de equipamentos

Jackson Cioni Bittencourt, chefe do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, obteve, entre 2000 e 2003, apoio do Programa EMU para equipar e montar um laboratório multiusuários especializado em técnicas de biologia celular e molecular. Bittencourt afirma que, na época, o departamento tinha extrema necessidade de equipamentos atualizados.

“O departamento tem uma tradição de 95 anos na formação de anatomistas, que sempre usaram cadáveres como objeto de pesquisa. Mas esse modelo chegou a certos limites e já tínhamos professores que utilizavam novas metodologias. Por isso era preciso obter equipamentos modernos, que, no entanto, tinham preços proibitivos. Uma ultracentrífuga, por exemplo, custa cerca de R$ 310 mil”, contou.

Como o uso de equipamentos desse porte por um número muito limitado de pessoas não se justifica, segundo Bittencourt, os pesquisadores do Departamento de Anatomia uniram as necessidades de suas diferentes linhas de pesquisa e conseguiram recursos do Programa EMU.

“Adquirimos algumas centrífugas, uma câmara fria, câmaras escuras, freezers de 86 graus negativos e equipamentos especiais para o crescimento de bactérias que são utilizados na transfecção de bactérias para a confecção de sondas. Pudemos montar um laboratório multiusuários com 150 metros quadrados que é hoje altamente produtivo. Sem o programa da FAPESP não estaríamos no patamar de pesquisa competitiva que alcançamos hoje”, afirmou.

O laboratório atualmente é utilizado por dez dos 18 pesquisadores do departamento, além de seus alunos de todos os níveis acadêmicos e de pesquisadores externos ao ICB e à USP. “Para nós, o mais importante foi a diversidade de equipamentos e a rede de contatos formada a partir do uso do laboratório. As instalações são controladas por computador, com acesso feito por cartão magnético restrito aos pesquisadores credenciados”, explicou Bittencourt.

Em reportagem publicada pela revista Pesquisa FAPESP, o professor Edison Zacarias da Silva, do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), destacou que o sistema computacional adquirido em 2006 por meio do EMU, pelo Centro Nacional de Processamento de Alto Desempenho em São Paulo (Cenapad-SP), coordenado por ele, foi amplamente utilizado por pesquisadores de vários lugares do Brasil. Metade do tempo de uso do sistema, até agosto de 2008, foi dedicado a cálculos feitos por pesquisadores de outros estados.

Segundo ele, o investimento feito pela FAPESP rendeu frutos em vários lugares do Brasil. “O Cenapad de São Paulo ficou em situação mais favorável e por isso tornou-se referência para pesquisadores de outros estados”, disse.

Sem a aquisição feita em 2006, de acordo com o pesquisador, teria sido comprometida a realização, nos últimos três anos, de simulações computacionais em áreas como física, química, biologia, engenharia, matemática e genômica.

Foco na competitividade

O Programa Equipamentos Multiusuários foi criado pela FAPESP em 1996 como um módulo do Programa de Apoio à Infraestrutura de Pesquisa, passou a ser tratado de 1998 a 2002 como um Programa Especial autônomo e foi retomado em 2004.

De acordo com Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, o programa tem um papel fundamental para a competitividade da ciência produzida no Estado de São Paulo.

“Hoje, em diversas áreas, para que a atividade de pesquisa tenha competitividade internacional é preciso ter acesso a certos instrumentos, mas o custo desses instrumentos científicos cresceu ao longo das últimas décadas. Ao mesmo tempo, também foi se consolidando a possibilidade, em muitos casos, de os equipamentos serem utilizados por muitos grupos de pesquisa em ocasiões diferentes”, disse.

Segundo Brito Cruz, com a nova chamada do programa, a FAPESP pretende impulsionar a pesquisa no Estado e, consequentemente, no país. “A ideia é oferecer mais uma oportunidade para que a comunidade científica paulista se organize a fim de adquirir alguns desses equipamentos multiusuários e, ao mesmo tempo, colocá-los em disponibilidade para serem utilizados pelo maior número possível de pesquisadores”, explicou.

A nova chamada oferece R$ 70 milhões, quantia consideravelmente maior do que os R$ 50 milhões do último edital. De acordo com o diretor científico, com base no aprendizado adquirido a partir das chamadas anteriores, a FAPESP está fazendo exigências mais fortes e mais explícitas sobre a garantia de apoio institucional para a obtenção de recursos.

“O objetivo é justamente comprar, instalar e operar equipamentos complexos e custosos. E isso só pode funcionar corretamente se as instituições que vão receber os equipamentos garantirem certos apoios essenciais, como local e infraestrutura adequada, pessoal técnico capaz de operar e manter funcionando o equipamento e, eventualmente, contratos de manutenção e de fornecimento de materiais necessários para o prosseguimento da operação”, afirmou.

Brito Cruz contou que a nova chamada possibilita a aquisição de conjuntos de equipamentos a fim de compor instalações multiusuários mais amplas. “Uma novidade é que as instituições poderão se organizar em um estágio mais sofisticado. Em vez de ter um equipamento isolado, poderão obter um conjunto de equipamentos que tenham características complementares ou associáveis e organizar um projeto no formato que designamos como facilities – isto é, um laboratório multiusuário”, disse.

De acordo com Brito Cruz, o edital é bastante competitivo e exigente em termos da qualidade das propostas e dos projetos a ela associadas. “É muito importante para a FAPESP que os projetos sejam fundamentados em uma necessidade objetivamente demonstrável por meio de projetos de pesquisa que a Fundação já tenha financiado ou esteja financiando e que possam se beneficiar do acesso a tais equipamentos”, disse.

Mais informações sobre a chamada: www.fapesp.br/emu.
 

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