Doença de Chagas via oral | AGÊNCIA FAPESP

Vários T. cruzi aderem a uma fibra muscular cardíaca (foto: Helene Santos Barbosa/Fiocruz)

Doença de Chagas via oral

24 de março de 2005

Por Thiago Romero

Agência FAPESP - Depois da morte de três pessoas em Itajaí (SC), vítimas da doença de Chagas, o que antes era um indício passa agora a estar comprovado. O protozoário Trypanosoma cruzi também pode ser transmitido pelo consumo de alimentos contaminados. As mortes ocorreram após ingestão de caldo de cana.

Desde 2002, cientistas do Centro de Pesquisa Gonçalo Moniz, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) da Bahia, sugeriam que a transmissão por via oral da doença poderia existir. A hipótese tomava como base estudos realizados com camundongos, que mostraram que o suco gástrico desses animais não era suficiente para impedir a ação do protozoário causador da doença.

Durante os experimentos, o T. cruzi foi introduzido diretamente no estômago dos camundongos, por meio de um tubo. "Os animais desenvolveram a doença com lesões tão intensas quanto as obtidas pelos roedores controle, onde o protozoário foi inoculado via sangüínea", disse Sonia Andrade, responsável pelo estudo, à Agência FAPESP.

Para os casos trágicos em Santa Catarina, a pesquisadora levanta uma outra hipótese para a origem da contaminação. "Acredito que as cepas que transmitiram a doença de Chagas sejam do biodema tipo 3 e tenham origem em animais silvestres. Naquela região não há registro de casos de barbeiros domiciliados", disse.

Segundo a médica especialista em patologia experimental, os resultados somados agora aos casos de contaminação no Sul do país reforçam a tese de que a doença de Chagas pode ser transmitida ao humanos por via oral.

Para os técnicos da Secretaria da Saúde de Santa Catarina, as contaminações também poderiam ter ocorrido a partir do próprio barbeiro. Nesse caso, os insetos ou as fezes deles teriam sido moídos junto com a cana, onde estariam escondidos. A análise científica dos casos ainda deverá responder essa questão.

"A infecção, no caso dos camundongos, variou de acordo com os diferentes graus de virulência dos parasitas. A cepa de T. cruzi conhecida como biodema tipo 3 conseguiu infectar os animais e levá-los à morte", disse Sonia.


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