Dinossauro de 200 gramas | AGÊNCIA FAPESP

Laura Parro com o crânio de 4,5 centímetros de comprimento que esclarece dúvidas sobre a evolução dos dinossauros de carnívoros para herbívoros (foto: divulgação)

Dinossauro de 200 gramas

27 de outubro de 2008

Agência FAPESP – Um dos menores crânios de dinossauro de que se tem registro foi descoberto por um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido. Com apenas 4,5 centímetros de comprimento, o fóssil pertenceu à um filhote de heterodontossauro que pesava cerca de 200 gramas.

Em artigo que será publicado no Journal of Vertebrate Paleontology, os cientistas destacam importantes conclusões obtidas após a análise do fóssil, entre as quais como e quando os ornitisquianos, a família de dinossauros herbívoros que inclui os heterodontossauros, mudou a dieta principal de carne para plantas.

“Provavelmente todos os dinossauros evoluíram a partir de ancestrais carnívoros. Como os heterodontossauros estão entre os mais antigos dinossauros adaptados a se alimentar de plantas, eles podem representar uma transição entre ancestrais carnívoros e descendentes mais sofisticados e totalmente herbívoros”, disse Laura Porro, da Universidade de Chicago, uma das autoras do estudo.

Segundo ela, o crânio analisado permite concluir que os heterodontossauros estavam no meio dessa transição alimentar. Os animais do gênero viveram há cerca de 190 milhões de anos, no início do período Jurássico, na região que hoje corresponde à África do Sul.

Apesar de ter pertencido a um exemplar jovem, o heterodontossauro adulto não era lá muito grande, não chegando a 1 metro de altura e com peso máximo de 2,5 quilos.

Como os fósseis de heterodontossauros são extremamente raros, sabe-se muito pouco do gênero, em comparação com dinossauros mais recentes e maiores.

“Havia apenas dois fósseis conhecidos de heterodontossauros, ambos adultos. Ouvimos boatos de que um museu na África do Sul teria um crânio de um exemplar jovem e resolvemos investigar”, disse Laura. Em visita ao Museu Iziko, a pesquisadora encontrou o crânio na coleção não catalogada da instituição.

“A descoberta é importante porque representa a primeira vez em que se se examina como os heterodontossauros mudavam à medida que cresciam. O exemplar juvenil tinha olhos relativamente maiores e um focinho mais curto na comparação com um adulto. São diferenças semelhantes às encontradas entre um cão adulto e um filhote”, disse Richard Butler, do Museu de História Natural de Londres, principal autor do estudo.

Especialista em mecanismos de alimentação, Laura se interessou particularmente pelos dentes do exemplar. Heterodontossauros (nome que vem de “lagartos com diferentes dentes”) tinham uma combinação incomum de dentes, com caninos protuberantes, como se fossem presas, na frente da mandíbula e uma espécie de molar, gasto pela mastigação constante. A mistura destoa dos répteis, que têm dentes que pouco mudam de forma.

A inusitada combinação levou a discussões sobre o que os heterodontossauros comiam. Alguns cientistas apontaram que se tratavam de animais onívoros, que usavam os diferentes dentes para comer tanto plantas como pequenos animais. Outros sugeriram que eram herbívoros cujos caninos representavam dimorfismo sexual, presentes apenas em machos. Nesse caso, as presas eram usadas como armas nas disputas com outros machos por fêmeas ou territórios.

Mas o novo estudo indicou que o exemplar juvenil já contava com um conjunto de caninos desenvolvido. “A presença de caninos em um estágio inicial de crescimento é um forte indicador de que não se trata de dimorfismo sexual, cujas características tendem a se manifestar mais tarde”, afirmou Laura.

A pesquisadora e colegas suspeitam que os caninos eram usados como defesa contra predadores e para uma alimentação que incluía ocasionalmente insetos e pequenos répteis e mamíferos, em complementação a uma dieta que consistia basicamente de plantas.

Semelhante aos mamíferos

Se a pesquisa esclareceu alguns mistérios, também lançou um novo. Por meio de raio X e tomografia computadorizada, os cientistas verificaram a ausência completa de dentes de substituição nos crânios adultos e juvenis.

A maioria dos répteis, como os atuais crocodilos e lagartos, trocam os dentes constantemente durante suas vidas, de modo que dentes afiados e pouco gastos estejam sempre prontos para o uso. O mesmo ocorria com os dinossauros.

A maioria dos mamíferos, por outro lado, trocam dentes apenas uma vez, o que permite que as arcadas superior e inferior desenvolvam um ajuste preciso e bem apertado.

O novo estudo indica que, nesse sentido, os heterodontossauros eram mais parecidos com os mamíferos, não apenas pela presença de dentes de formatos diferentes como também na troca muito mais lenta – se é que havia troca – e no estreito contato entre eles.

O artigo poderá ser lido em breve por assinantes do Journal of Vertebrate Paleontology em www.vertpaleo.org/publications/JVPContent.cfm.
 

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