Defesa natural | AGÊNCIA FAPESP

Brasil precisa desenvolver sua própria tecnologia de controle biológico de pragas agrícolas, adaptada às características da agricultura do país, diz José Roberto Postalli Parra, da Esalq, um dos ganhadores do 56º Prêmio Fundação Bunge (foto:Eduardo Cesar/FAPESP)

Defesa natural

14 de setembro de 2011

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – O Brasil precisa continuar a desenvolver sua própria tecnologia de controle biológico de pragas agrícolas para minimizar os danos econômicos causados por esses flagelos naturais ao setor no país.

A avaliação foi feita por José Roberto Postali Parra, professor titular do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), em conferência que proferiu durante o Simpósio Científico sobre Defesa Sanitária Animal e Vegetal, promovido em 12 de setembro pela FAPESP e Fundação Bunge.

O evento, realizado no auditório da FAPESP, debateu avanços obtidos na área de Defesa Sanitária Animal e Vegetal, que juntamente com Oceanografia foram temas do Prêmio Fundação Bunge 2011. A premiação foi realizada nesta terça-feira (13/09) à noite, em cerimônia no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.

O simpósio, realizado na parte da tarde, teve palestras dos vencedores do prêmio nas categorias “Juventude” e “Vida e Obra”. Premiado na categoria “Vida e Obra” pela carreira dedicada às pesquisas sobre controle biológico de pragas agrícolas, Parra apresentou conferência sobre a situação atual e as perspectivas da área no Brasil.

De acordo com o pesquisador, o controle biológico de pragas – em que se utilizam insetos criados em massa em laboratório para combater predadores de plantas – é uma realidade no Brasil e demandou décadas de estudos para ser implementado e propagado pelo país e pela América Latina. Entretanto, por possuir grandes extensões de terra, a agricultura brasileira impõe desafios para a utilização da técnica por dificultar os levantamentos de amostragem de pragas de inimigos naturais.

Em função disso, de acordo com Parra, o país não pode recorrer a tecnologias de controle biológico desenvolvidas nos países da Europa, por exemplo, onde o controle biológico é realizado em casas de vegetação – estruturas semelhantes a estufas que possuem condições adaptadas para o cultivo –, mas deve procurar desenvolver uma tecnologia própria, adaptada às suas extensas áreas agrícolas.

“É preciso continuar desenvolvendo uma tecnologia própria de controle biológico, à semelhança da agricultura do Brasil, e utilizar a biodiversidade brasileira, que é pouco conhecida e explorada para essa finalidade”, disse.

O manejo integrado de pragas no Brasil foi iniciado na década de 1970 com a soja, em que se passou a utilizar o controle biológico ou feromônios para levantamentos de amostragem de pragas e inimigos naturais.

Hoje, segundo Parra, 3,5 milhões de hectares de cana-de-açúcar e 300 mil hectares de soja no Brasil são controlados biologicamente. O que representa um dos maiores programas de controle biológico no mundo.

“Quase metade da área plantada de cana-de-açúcar no Brasil é controlada biologicamente. Isso é um número impressionante que coloca o Brasil na liderança na América Latina e em igualdade de condições aos países mais desenvolvidos do mundo em relação a esse quesito”, comparou.

Um dos exemplos bem-sucedidos de combate de pragas por controle biológico no Brasil realizado por Parra e seu grupo de pesquisadores foi a do minador dos citros, que surgiu nas plantações de laranja no Estado de São Paulo em 1996.

Por meio do desenvolvimento de uma técnica de criação de uma vespinha (Ageniaspis citricola) trazida da Flórida, nos Estados Unidos, e que parasita os ovos do minador de citros, os pesquisadores conseguiram inverter a tendência de aumento populacional do inseto-praga.

O projeto, intitulado “Bioecologia e controle biológico do minador dos citros Phyllocnistis citrella e relações com o cancro cítrico”, contou com apoio da FAPESP.

“A introdução de Cotesia flavipes de Trinidad Tobago resultou em uma redução do prejuízo causado pela broca da cana nas colheitas da cultura no Estado de São Paulo de US$ 100 milhões para US$ 20 milhões”, disse.

Relações tritróficas

Nos últimos dois anos, Parra tem trabalhado no desenvolvimento de outra espécie de vespa para combater a doença do greening, transmitida por um inseto conhecido como psílideo, que introduz uma bactéria na planta deixando-a amarelada.

O projeto, denominado “Bioecologia e estabelecimento de estratégias de controle de Diaphorina citri Kuwayama (Hemiptera: Psyllidae), vetor da bactéria causadora do ‘greening’ nos citros”, também teve apoio da FAPESP.

“Não dá para pensar em uma aplicação muito grande desse inseto nas lavouras de laranja porque já estão sendo feitas entre 22 e 23 aplicações de inseticida para combater essa nova praga. E nós temos uma cultura muito grande do uso de inseticidas no país. O agricultor quer ver o inseto cair, e não utilizá-lo para combater uma determinada praga”, disse.

Atualmente, Parra dedica-se ao estudo das relações entre os inimigos naturais, parasitoides e plantas – as chamadas relações tritróficas –, para o desenvolvimento de feromônios e outros voláteis que atraem os insetos e atuam no processo de controle biológico, coordenando o Projeto Temático “Bases tecnológicas para identificação, síntese e uso de semioquímicos na agricultura”.

“Temos potencial para aplicação do controle biológico de pragas nas culturas de milho, algodão, eucalipto, sorgo sacarino, hortaliças e soja. Essa tecnologia no Brasil hoje é muito mais realidade do que ficção”, destacou.
 

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