Crodowaldo Pavan morre aos 89 anos | AGÊNCIA FAPESP

Professor emérito da USP e Unicamp, geneticista foi membro do primeiro Conselho Superior e diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP (foto: SBPC)

Crodowaldo Pavan morre aos 89 anos

06 de abril de 2009

Agência FAPESP – O geneticista Crodowaldo Pavan, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP de 1981 a 1984, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), morreu na sexta-feira (3/4), em São Paulo, aos 89 anos, em decorrência da insuficiência múltipla de órgãos e sistemas. Pavan estava internado desde 26 de março no Hospital Universitário da USP.

“A FAPESP lamenta o falecimento de um grande homem da ciência brasileira que foi o professor Pavan e é muito grata pelo legado que ele nos deixou. É importante destacar o trabalho fundamental que ele realizou no apoio à pesquisa e ao desenvolvimento brasileiros, seja no plano das instituições, como foi o caso de sua atuação junto à FAPESP e ao CNPq, ou no plano da sociedade civil, pelo tempo que esteve à frente da SBPC”, disse Celso Lafer, presidente da FAPESP.

Nascido em São Paulo, filho de um industrial da área de porcelanas, Pavan se formou em história natural pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (1941) da USP e quatro anos depois concluiu doutoramento no Departamento de Biologia Geral, sob orientação de André Dreyfuss, pioneiro nos estudos de genética e evolução no Brasil. Nos dois anos seguintes, como bolsista da Fundação Rockefeller, fez pós-doutorado na Universidade Columbia, em Nova York, Estados Unidos.

Em 1952, assumiu a cátedra do Departamento de Biologia Geral da FFCL, substituindo Dreyfuss. Pavan descobriu no litoral de São Paulo um inseto especialmente favorável ao estudo da ação gênica e de citologia, o que veio a abrir novo campo da pesquisa biológica. Em 1952, observando a mosca Rynchosciara angelae, provou que em determinados tecidos de organismos vivos certos genes não funcionam.

Até então, acreditava-se que todas as células tinham a mesma quantidade de DNA. Pavan derrubou esse paradigma científico quando demonstrou que em alguns cromossomos o DNA se multiplica e em outros não.

Entre 1961 e 1963, Pavan integrou o primeiro Conselho Superior da FAPESP, exercendo papel importante para a consolidação da instituição, que começou a funcionar em 1962.

“Da mesma forma que Caio Prado Júnior, João Meiller e Adriano Marchini tiveram atuações fundamentais para a inclusão do artigo 123 [que instituiu a FAPESP] na Constituição Estadual de 1947, no governo Carvalho Pinto, Paulo Emílio Vanzolini, Crodowaldo Pavan, Florestan Fernandes, Mário Schenberg, José Reis, entre muitos outros, reconheceram o ambiente político propício e trabalharam no sentido de tornar a Fundação uma realidade”, escreveram Walkiria Chassot e Amélia Hamburger no livro FAPESP – Uma história de política científica e tecnológica, organizado por Shozo Motoyama e publicado em 1999.

O geneticista participou de vários programas de intercâmbio científico, ministrou cursos e seminários em instituições de Porto Rico, França e Alemanha. Em 1964 e 1965 foi contratado como pesquisador da divisão de Biologia do Laboratório Nacional Oak Ridge, nos Estados Unidos, onde montou um laboratório de estudos de ação gênica e efeitos biológicos das radiações.

De 1968 a 1975 foi professor titular de genética na Universidade do Texas. Em 1975, desistiu da posição e regressou ao Brasil. Foi membro da delegação brasileira no comitê científico para estudos dos efeitos das radiações atômicas, junto à Organização das Nações Unidas.

Presidiu a Sociedade Brasileira de Genética e foi coordenador geral do Programa de Integração Genética do CNPq. Por três gestões, entre 1981 e 1986, presidiu a SBPC.

Recursos para a ciência

Entre 1981 e 1984, Pavan foi diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP, durante um período especialmente difícil na história da Fundação. Liderou o esforço da comunidade acadêmica para reagir contra a limitação de recursos financeiros que, naquele período, punha em risco a pesquisa científica paulista. Pavan teve papel atuante no convencimento de lideranças e autoridades para garantir as atividades da Fundação.

“Devemos divulgar nossas intenções para a sociedade. Estamos numa luta contra um adversário extremamente forte: a ignorância e a falta de recursos para a educação, para a alimentação e para a saúde”, disse Pavan na época.

De acordo com Antonio Hélio Guerra Vieira, presidente da Fundação para o Desenvolvimento Tecnológico de Engenharia (FDTE), que presidiu a FAPESP entre 1979 e 1985, Pavan teve participação decisiva em modificações importantes no orçamento da Fundação.

“Ele conseguiu que o governo se comprometesse a pagar em duodécimos – e não mais anualmente – a quantia destinada à FAPESP. Em uma época de inflação muito alta, o atraso no pagamento dos valores devidos pelo Estado implicava efetiva desvalorização. Essa mudança foi muito importante para as finanças e o planejamento dos gastos da FAPESP”, disse.

Outra conquista fundamental de Pavan para a Fundação, segundo Guerra, foi o aumento da porcentagem de arrecadação do Estado destinada à Fundação. “Por ter um excelente relacionamento com o governo e com a Assembleia Legislativa, Pavan conseguiu aumentar esse percentual o suficiente para mudar o cenário crítico em que se encontrava a ciência”, afirmou.

Motoyama, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e diretor do Centro Interunidade de História da Ciência da mesma universidade, destaca que a atuação de Pavan na FAPESP se caracterizou pelo dinamismo.

“O professor Pavan tinha muitas ideias relacionadas a políticas científicas e ao aproveitamento eficiente dos recursos disponíveis. Durante seu mandato na presidência da FAPESP, quando o conheci, ele atuava de forma muito ativa e dinâmica, determinado a fazer da Fundação a base da implementação de uma política de ciência e tecnologia – algo que não era comum na época”, disse Motoyama.

“O professor Pavan integrou a equipe de um dos primeiros Projetos Temáticos do Programa Biota-FAPESP, tendo ajudado a consolidar o programa com sua capacidade crítica e um posicionamento de quem acreditou e apoiou o programa desde o seu início”, contou Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador do Programa Biota-FAPESP.

Mestre e amigo

Durante toda a sua trajetória, Pavan foi reconhecido por defender energicamente o aumento das bolsas de estudo para os pesquisadores brasileiros. Foi responsável por enviar os primeiros brasileiros aos Estados Unidos para realizar estudos em genética humana. Foi um dos coordenadores da Cátedra Unesco José Reis de Divulgação Científica da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Entre 1986 e 1990 foi presidente do CNPq. Em 1989, após sua aposentadoria, Pavan lecionou na Unicamp. Foi presidente do Comitê Interamericano de Ciência e Tecnologia.

Segundo Marco Antonio Raupp, atual presidente da SBPC, Pavan desempenhou, à frente da entidade e do CNPq, “um importante papel na mobilização da comunidade científica para a inclusão de um capítulo sobre ciência e tecnologia no texto constitucional dando, dessa maneira, pela primeira vez um destaque às atividades científico-tecnológicas no concerto da sociedade brasileira”.

“Pavan foi, sempre, um diligente militante da ciência brasileira, em todas as suas principais frentes: na bancada do laboratório, na sala de aula e na direção de entidades de ciência e tecnologia. Como geneticista, ajudou a formar gerações de profissionais e a constituir novas e promissoras linhas de pesquisa; como liderança, foi um dos principais responsáveis pela organização e pela expansão do sistema brasileiro de ciência e tecnologia”, disse.

Em 1986, Pavan foi nomeado comendador da Ordem do Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores e oficial da Ordem do Mérito das Forças Armadas do Brasil. Em 1987, foi agraciado com a Ordem da Inconfidência, pelo governo de Minas Gerais, e recebeu do governo de Portugal o título de Grande Oficial da Ordem do Mérito. Em 1994, recebeu do presidente da República do Brasil a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Recebeu o Prêmio Nacional de Genética, em 1963, o Prêmio Moinho Santista de Biologia, da Fundação Moinho Santista, em 1980, e o Prêmio Alfred Jurzykowski, da Academia Nacional de Medicina, em 1986. Em 2006, ganhou o Prêmio Professor Emérito – Troféu Guerreiro da Educação, concedido pelo Centro de Integração Empresa-Escola.

De acordo com Hélio Guerra, além da importante contribuição às políticas científicas, à própria ciência brasileira, Pavan deixou também uma herança muito importante na formação de recursos humanos em sua área. “Ele tinha um estilo afável e cordial, com o qual certamente seduziu muitos jovens para a carreira científica. Eu o classificaria como um cientista do tipo antigo – um cientista do século 19, no que isso tem de bom – que acreditava profundamente na ciência e fazia muitos amigos”, destacou.
 

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