Contribuição humana para as mudanças climáticas é inegável, avaliam cientistas | AGÊNCIA FAPESP

Contribuição humana para as mudanças climáticas é inegável, avaliam cientistas Variabilidade natural do clima não explica o aumento da temperatura do planeta registrado desde o século XIX, avaliaram pesquisadores participantes da segunda edição do programa de TV “Ciência Aberta” (foto: Felipe Maeda/Agência FAPESP)

Contribuição humana para as mudanças climáticas é inegável, avaliam cientistas

10 de maio de 2018

Elton Alisson | Agência FAPESP – A temperatura média da Terra aumentou 1,02 ºC desde o século XIX e pode subir até quase 5 oC até o fim deste século, apontam estudos publicados nos últimos anos. A contribuição humana para o aumento da temperatura terrestre, por meio do aumento das emissões de gases de efeito estufa pela queima de combustíveis fósseis e o desmatamento, entre outras ações, é inegável, avaliaram pesquisadores participantes da segunda edição do programa de TV Ciência Aberta, sobre “Mudanças Climáticas Globais”, realizado na terça-feira (08/05), no auditório da FAPESP.

O programa de TV Ciência Aberta é uma parceria da FAPESP com o jornal Folha de S.Paulo. Realizado mensalmente no auditório da FAPESP, o programa é exibido ao vivo pelo site da FAPESP (www.fapesp.br), pela página da Agência FAPESP no Facebook (www.facebook.com/agfapesp) e no YouTube (www.youtube.com/user/fapespagencia) e pelo site da TV Folha (www1.folha.uol.com.br/tv).

A edição sobre “Mudanças Climáticas Globais” teve como debatedores os pesquisadores Thelma Krug, pesquisadora, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e vice-presidente do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC); Paulo Artaxo, professor titular e chefe do Departamento de Física Aplicada do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG); e Gilberto Câmara, pesquisador e ex-diretor do Inpe, copresidente do Belmont Forum e diretor do Secretariado do Group on Earth Observations (GEO). A plateia do programa foi composta por alunos do curso técnico em meio ambiente da Escola Técnica Estadual (Etec) Guaracy Silveira, de São Paulo.

“É impossível não ver nos dados observados globalmente que a evolução das emissões de gases de efeito estufa desde a Revolução Industrial e, mais especificamente, nos últimos 50 anos, não esteja relacionada com as mudanças climáticas e com o aquecimento global”, disse Krug.

“O IPCC, quando começou a produzir seus primeiros relatórios, tinha dúvida dessa atribuição. Mas, hoje, depois de 30 anos de trabalho e cinco relatórios produzidos, não há como negar essa associação [entre a ação humana e o aquecimento global]”, afirmou.

De acordo com a pesquisadora, se considerada apenas a variabilidade natural do clima terrestre nos modelos de evolução climática global, não é possível reproduzir as observações de aumento da temperatura do planeta registradas nos últimos anos. Ao integrar as variações naturais com a ação antrópica, contudo, o modelo fica bem acomodado com as observações, ela explicou.

Impactos desiguais

Os pesquisadores ressalvaram que as mudanças climáticas não atingem os países de forma equânime. Alguns países já estão sofrendo com um aumento de temperatura média da superfície maior do que a estimada pelo IPCC, de 1,5 ºC até 2040, e de entre 3 ºC e 5 ºC até o final do século.

Na região Nordeste do Brasil, por exemplo, a temperatura média aumentou 2,5 oC nas últimas décadas, ressaltou Artaxo.

“Um aumento médio de 3 ºC a 5 ºC na temperatura do planeta ao longo deste século pode resultar em um aquecimento em áreas continentais superior a 5 ºC, uma vez que elas se aquecem mais do que as áreas oceânicas”, comparou.

“Imagine uma cidade como Cuiabá (MT), onde a temperatura durante a tarde chega hoje a 41 ºC, 42 ºC, conviver com temperaturas de 47 ºC, 48 ºC. Um aumento de temperatura como esse tem impactos muito grandes, não só nas pessoas, como nas atividades econômicas, na agricultura e no funcionamento de ecossistemas, como a floresta amazônica, por exemplo”, apontou.

O nível do mar nos últimos 100 anos aumentou 24 centímetros em razão da dilatação da água com o aumento da temperatura e o derretimento de geleiras continentais.

Em regiões como na costa brasileira o nível do mar aumentou 60 centímetros nos últimos 100 anos, exemplificou Artaxo.

“Isso causa um aumento da erosão costeira e na frequência e intensidade de inundações”, apontou.

Déficit democrático

Na avaliação de Câmara, o ceticismo sobre a contribuição da ação humana para o aquecimento global deriva da incapacidade de reconhecer que certos estilos de vida adotados nas economias desenvolvidas, especialmente nos Estados Unidos, são incompatíveis com a sobrevivência do planeta.

“Enquanto se gastar energia absurdamente, utilizar carros que consomem muito óleo diesel e gasolina, e não querer mudar esse estilo de vida sabendo que isso prejudica populações que estão em outros países pobres, se arrumará desculpa para não fazer nada. Isso é o que estamos vendo hoje no governo americano atual”, apontou o pesquisador.

Há um consenso político internacional de que é preciso combater o aquecimento global e o Acordo Climático de Paris, aprovado por 195 países – incluindo o Brasil – em dezembro de 2015 durante a 21ª Conferência das Partes (COP-21), na capital francesa, é uma prova disso.

O que tem faltado agora, na avaliação de Câmara, é a capacidade de os cidadãos dos países signatários do acordo cobrarem de seus governos o cumprimento de metas de contribuição de redução de emissões de gases de efeito estufa que apresentaram para estabelecer o acordo.

“O consenso político global de que é preciso combater o aquecimento global existe. O que há, na realidade, é um déficit democrático, ou seja, uma falta de capacidade das sociedades – incluindo a brasileira – de exigir de seus governos cumprirem o que se comprometeram”, afirmou.

Para aprovar o Acordo Climático de Paris, cada país apresentou sua contribuição de redução de emissões dos gases de efeito estufa – as chamadas Pretendidas Contribuições Nacionalmente Determinadas (INDCs, na sigla em inglês) –, de acordo com o que cada governo considerou viável a partir do cenário social e econômico local.

O Brasil comprometeu-se a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 37% abaixo dos níveis de 2005, em 2025, com uma contribuição indicativa subsequente de redução das emissões de gases de efeito estufa em 43% abaixo dos níveis de 2005, em 2030. Para isso, o país se comprometeu a aumentar a participação de bioenergia sustentável na sua matriz energética para aproximadamente 18% até 2030, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, bem como alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética em 2030.

Somada a INDC brasileira com as dos 194 países signatários do Acordo do Clima de Paris, contudo, elas levarão o planeta a uma trajetória de aquecimento de 3 oC.

“Na mesma Convenção do Clima que acordou que é preciso chegar em 2100 em um nível de aquecimento bem abaixo de 2 oC e perseguir a meta de 1,5 oC, as INDCs, somadas, chegam a 3 oC”, comparou Krug.

Muitas INDCs, como a do Brasil, foram apresentadas sem condicionantes. Mas muitos países afirmaram que conseguirão atingir suas metas de redução de emissões de gases de efeito estufa se conseguirem recursos financeiros e tecnologias.

“Financiamento [de medidas de adaptação e de mitigação] é uma questão muito sensível, especialmente para os países em desenvolvimento”, disse Krug. “Se esses países não são os maiores responsáveis pela mudança do clima, que já está aí, eles questionam por que têm que pagar igualmente com o ônus de tentar refrear o aumento da mudança do clima”, disse Krug.

Assista ao programa Ciência Aberta, da FAPESP e Folha de S.Paulo, sobre mudanças climáticas:

 

 

Assuntos mais procurados