Cinco séculos de memória | AGÊNCIA FAPESP

Estudo feito na FAU-USP faz inventário dos edifícios da rua São Bento, no centro da capital paulista, para colocar em perspectiva histórica as transformações na paisagem urbana (foto: Prodam/Pref.SP)

Cinco séculos de memória

05 de fevereiro de 2009

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – Antigo caminho indígena, a rua São Bento, no centro da capital paulista, manteve ao longo de cinco séculos seu traçado linear. Mas todas as outras características mudaram ao longo do tempo a tal ponto que, por meio da análise de sua história, pode-se fazer uma leitura da paisagem urbana de São Paulo.

Esse foi o objetivo de uma pesquisa realizada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de São Paulo (USP), com o título Transformações e persistências no espaço urbano construído da cidade de São Paulo por um fragmento: a Rua São Bento.

O estudo, que correspondeu à dissertação de mestrado de Regina Helena Vieira Santos, tomou como referência o trabalho de diversos autores, como o professor da FAU Benedito Lima de Toledo, para analisar uma rua que, ao longo do tempo, foi retratada em diferentes momentos urbanos, desde os registros pictóricos dos primeiros viajantes até as atuais fotos aéreas com alta tecnologia.

“A rua São Bento é uma das mais antigas da cidade. Ela presenciou múltiplas transformações, serviu como trilha dos índios, teve uso residencial no começo do século 19, seu calçamento já foi de solo batido e de paralelepípedos e recebeu trilhos dos bondes e calçadão. É um fragmento da cidade que representou em todos os séculos de vida da cidade – e representa até hoje – um trajeto muito utilizado pelos cidadãos”, disse Regina à Agência FAPESP.

A pesquisa demonstra como o traçado da rua São Bento apresentou uma grande estabilidade ao longo de cinco séculos. “Podemos ver isso com precisão na Planta da Restauração da Capitania, cuja data é estimada entre 1765 e 1774. No mais, tivemos transformações na tipologia construtiva, na volumetria dos edifícios e no aproveitamento dos lotes”, apontou.

De acordo com a arquiteta e urbanista, o trabalho se concentra em três pontos específicos: na cartografia, na legislação e na iconografia da paisagem urbana de São Paulo. No levantamento cartográfico, foram selecionadas sete plantas. A legislação, disse, possibilita entender a implantação dos imóveis nos lotes. E a iconografia foi fundamental para visualizar o número de pavimentos das construções.

“Com base nesse material, descrevi um ‘passeio’ pela rua São Bento. Partindo da Igreja de São Francisco, realizei quadra a quadra uma retrospectiva das transformações e persistências fundiárias dos lotes que influenciaram a paisagem urbana, terminando na Igreja de São Bento” explicou.

Para registrar a situação do patrimônio cultural, a pesquisadora fez um inventário dos imóveis da rua, um a um, referente à situação em 2007 e 2008. “A idéia é que o inventário contribua para a valorização do patrimônio cultural do centro e para a realização de futuros trabalhos científicos, projetos de proteção, restauro e revitalização”, afirmou.

De acordo com Regina, conhecer a situação dos imóveis é fundamental para se compreender a paisagem urbana. “É muito importante, pois conhecendo a situação existente pode-se propor novos projetos, resgatar fatos importantes da nossa cultura e restaurar objetos da história”, afirmou.

Transformação

O estudo registrou edifícios de várias décadas dos séculos 19 e 20, como os três sobrados no Largo de São Bento e a antiga residência do cafeicultor Elias Chaves que, depois da mudança do proprietário para o palacete Campos Elíseos, na avenida Rio Branco, tornou-se sede do escritório dos cafeicultores e banqueiros Prado & Chaves.

“Da primeira década do século 20 há alguns exemplares como o solar Souza Queiroz, na esquina com a rua José Bonifácio, de 1908, projeto de Maximiliano Helh. O edifício da sucursal do Grande Hotel, de 1907, projetado por Oscar Kleinschmidt, que foi de propriedade dos empreendedores Nothman e Glete. E o cine São Bento, de 1927”, exemplificou.

Apesar das transformações, a rua São Bento manteve seu traçado. Mas, segundo Regina, sua importância mudou a partir do momento em que o uso do solo também se transformou.“A rua no começo do século 19 era praticamente residencial. Mas, no início do século 20, era metade residencial e metade comercial. Atualmente, o uso é totalmente comercial ou institucional”, disse.

Segundo a pesquisadora, a rua São Bento recebeu vários nomes, como “rua de Martim Afonso”. Teve seu nome simplificado em 1647, sendo antes conhecida como “rua de São Bento para São Francisco”.

Hoje, guarda bons exemplos arquitetônicos. “Na quadra da esquina com a Praça do Patriarca existem exemplares da arquitetura eclética da primeira década do século 20, sendo um deles, de 1908, projetado por Augusto Fried. Há também um edifício projetado pelo arquiteto Gregori Warchavik em 1955, um pelo arquiteto Rino Levi e outro por Archimedes de Barros Pimentel, em 1934”, disse.


 

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