Cientistas desenvolvem método não invasivo para monitorar a pressão intracraniana | AGÊNCIA FAPESP

Equipamentos resultantes de pesquisa coordenada por Sérgio Mascarenhas na USP em São Carlos estão em fase de patenteamento e registro para serem comercializados (divulgação)

Cientistas desenvolvem método não invasivo para monitorar a pressão intracraniana

03 de fevereiro de 2012

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Há mais de dois séculos perdurava um dogma na medicina, conhecido como doutrina de Monro-Kellie, que afirmava que o crânio é uma estrutura óssea rígida e inextensível.

Nos últimos cinco anos, pesquisadores do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos começaram a derrubar esse paradigma, estabelecido em 1783.

Eles provaram que o aumento ou a diminuição da pressão intracraniana causa variações volumétricas lineares na caixa craniana. E que, em função dessa pequena elasticidade da estrutura óssea, seria possível medir e monitorar a pressão interna do cérebro de pacientes com hidrocefalia, traumatismo craniano e tumores, sem a necessidade de perfurar o crânio, como fazem os equipamentos existentes atualmente.

Para isso, os cientistas fundaram uma empresa e desenvolveram por meio de um projeto, realizado com apoio do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), um método simples e minimamente invasivo.

Idealizado pelo professor Sergio Mascarenhas, fundador e ex-coordenador do polo do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP em São Carlos, o equipamento ganhou agora mais duas novas versões.

“Começamos o projeto com um método minimamente invasivo e, por meio das pesquisas que realizamos ao longo desses cinco anos, conseguimos desenvolver nos últimos meses mais dois equipamentos não invasivos”, disse Gustavo Henrique Frigieri Vilela, pesquisador da empresa Sapra Assessoria, apoiada pelo PIPE, à Agência FAPESP.

Segundo Vilela, para realizar o monitoramento da pressão intracraniana pelo primeiro equipamento que desenvolveram, era necessário raspar o cabelo e realizar uma pequena incisão na pele da cabeça do paciente, de modo a colar um sensor sobre o crânio que registra sua deformação óssea – que é proporcional à pressão interna do cérebro.

Por meio dos dois novos equipamentos não é preciso sequer cortar o cabelo do paciente. “Basta tocar o sensor sobre o couro cabeludo para realizar o monitoramento”, afirmou.

A primeira nova versão do equipamento, que pode ser utilizada em clínicas e ambulatórios, é um sistema que se prende à cabeça do paciente para medir a deformação do crânio.

Por sua vez, o segundo novo equipamento, batizado de Brain Strap, é uma faixa de 10 centímetros para ser colocada em volta da cabeça do paciente, que não precisa ficar imóvel e pode estar acordado ou realizando atividade física durante o monitoramento.

Segundo Vilela, os dois novos equipamentos têm a mesma sensibilidade do método minimamente invasivo e serão patenteados nos Estados Unidos e alguns países da Europa por meio do apoio da FAPESP.

Os três equipamentos estão em fase de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e serão certificados posteriormente na agência regulatória de alimentos e fármacos dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) e na Comunidade Europeia para poderem ser comercializados.

“Nós aprimoramos os protótipos dos equipamentos, depois patenteamos e agora estamos na fase de registro para podermos alcançar o mercado”, disse Vilela.

Artigos e nova empresa

O equipamento minimamente invasivo foi testado em pacientes com traumatismo cerebral internados no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto.

Posteriormente, passou a ser testado para diversas outras aplicações, como no diagnóstico e acompanhamento de pacientes com acidente vascular cerebral (AVC) – que aumenta o volume interno do cérebro e a pressão intracraniana –, além de no diagnóstico de morte encefálica, quando desaparece a pressão intracraniana, e epilepsia.

Outras possíveis aplicações do equipamento estão em farmacologia, para medir os efeitos de drogas que atuam sobre desequilíbrios químicos do cérebro que alteram a pressão intracraniana – como a enxaqueca – e em veterinária, para medir a pressão intracraniana de animais de grande porte, como boi e porco, de modo avaliar a presença de encefalite – que aumenta o encéfalo e a pressão intracraniana.

Comparando o equipamento com os métodos invasivos existentes hoje para monitorar a pressão intracraniana nos estudos clínicos iniciais, de acordo com Vilela, os resultados atingidos pelo dispositivo que criaram foram melhores. Além disso, o método minimamente invasivo também foi capaz de captar os sinais de respiração e batimento cardíaco dos pacientes.

“O equipamento passou de ser um monitor clínico para um multiparamédico, capaz de registrar, além da pressão intracraniana, as frequências cardíaca e respiratória dos pacientes”, afirmou.

Em fevereiro, os pesquisadores brasileiros publicarão um capítulo na Acta Neurochirurgica Supplementum, em que demonstram por meio do método que desenvolveram que a doutrina de Monro-Kellie não é mais válida.

Intitulado Intracranial Pressure and Brain Monitoring XIV, o livro reunirá cerca de 80 artigos de pesquisas apresentadas no 14º Simpósio Internacional de Pressão Intracraniana e Monitoramento Cerebral, que ocorreu em setembro de 2010 em Tuebingen, na Alemanha.

Em março, eles também publicarão outro artigo, no International Journal of Mechatronics and Manufacturing Systems, em que descrevem a utilização do novo equipamento e do método minimamente invasivo para o monitoramento da pressão intracraniana em neurocirurgia e neurofisiologia.

“Nosso projeto tomou uma proporção um pouco maior do que imaginávamos no início e possibilitou o surgimento de uma nova empresa, chamada Brain Care, que estamos registrando para comercializar os equipamentos para aplicação neurológica”, disse Vilela.

O artigo The New ICP Minimally Invasive Method Shows that the Monro-Kellie Doctrine Is Not Valid, de Vilela e outros, pode ser lido na Acta Neurochirurgica Supplementum, que pode ser adquirida em www.springer.com/medicine/surgery/book/978-3-7091-0955-7.

Leia mais sobre a pesquisa: www.revistapesquisa.fapesp.br/?art=3860&bd=1&pg=1&lg= e agencia.fapesp.br/14264.

 

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