Cartografia da política social | AGÊNCIA FAPESP

Centro de Estudos da Metrópole oferece curso com o software livre TerraView, que permite usar dados geográficos para pesquisa ou para políticas públicas

Cartografia da política social

30 de dezembro de 2010

Por Alex Sander Alcântara

Agência FAPESP – Possibilitar a produção de análises espaciais a partir de dados sociais, econômicos e demográficos, para pesquisadores e gestores públicos, é o objetivo do curso de geoprocessamento com software livre TerraView Política Social. O curso é oferecido desde 2008 pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP.

O treinamento é destinado a usuários não especialistas ligados principalmente à área de políticas sociais, como educação, saúde, transferência de renda e habitação. O programa – que utiliza o software TerraView Política Social – foi desenvolvido pelo CEM em parceria com a Divisão de Processamento de Imagens (DPI) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O software é um aplicativo construído a partir da biblioteca de geoprocessamento TerraLib para visualização e exploração de dados geográficos e pode ser baixado gratuitamente pela internet.

De acordo com Daniel Waldvogel Thomé da Silva, pesquisador do CEM e coordenador do curso, o programa possibilita que gestores públicos de muitas cidades brasileiras utilizem a ferramenta para o planejamento de políticas em áreas prioritárias.

“O geoprocessamento propicia uma análise dos dados de maneira local e espacial, ou seja, é possível localizar onde os problemas realmente acontecem. Nosso interesse ao desenvolver o curso foi democratizar esse recurso”, disse à Agência FAPESP .

O treinamento pode ser feito em casa. “Além do software, o usuário baixa o manual e as bases de dados utilizadas no curso, a partir do preenchimento de um cadastro. O treinamento que damos é só uma forma de facilitar o processo de aprendizagem”, explicou.

Pesquisadores, técnicos de administração municipal, alunos de graduação e pós-graduação, entre outros, podem participar. Ter um domínio básico da informática (de planilhas como Excel) é o único pré-requisito.

O curso tem custo de R$ 400. Anualmente, são realizados de quatro a oito cursos, conforme a procura. Mais de 680 profissionais de diferentes áreas já fizeram o treinamento, que deverá ter nova turma em março.

O perfil dos interessados também é muito variado. “Funcionários de secretarias de educação que querem mapear escolas, arqueólogos que precisam gerar mapas para sítios arqueológicos ou arquitetos que desenvolvem pesquisas em habitação de interesse social, por exemplo”, contou Waldvogel.

O TerraView Política Social é baseado no Terra View, software desenvolvido pelo Programa Espaço e Sociedade, uma iniciativa do Inpe para aproximar as inovações derivadas do Programa Espacial Brasileiro às necessidades para a elaboração de políticas públicas sociais no país.

“Para gerar mapas é preciso construir uma base de dados para que sejam possíveis estabelecer relações, gerar hipóteses e, partir daí, inferir novos dados georreferenciados”, disse Waldvogel.

Se algum gestor público quiser descobrir áreas com maior demanda para a construção de uma nova escola, por exemplo, um dos caminhos é identificar os locais com muitas crianças e poucos estabelecimentos de ensino. “Com o geoprocessamento podemos inserir diferentes tipos de indicadores a fim de cruzar os dados e formar várias camadas sobrepostas de informações”, explicou.

Para isso são usados dados de população dos setores censitários do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para serem cruzados com informações de uma área específica de planejamento das secretarias de educação, possibilitando a identificação do número de vagas e de alunos a ser atendidos em determinada região.

“A partir daí, é possível saber onde há locais com muitas crianças e poucas escolas e definir qual demanda será prioritária para a construção de uma nova estrutura escolar”, afirmou.

Mapeamento imobiliário

Outro exemplo de uso é o mapeamento de empreendimentos imobiliários (comerciais e residenciais) do município de São Paulo, que será lançado pelo CEM no fim de janeiro.

“Será possível saber quando o imóvel foi planejado e construído, a quantidade de dormitórios, o tamanho das habitações e onde ocorreram as maiores mudanças ano a ano, entre outras informações”, disse Waldvogel. A base compreende dados de 1985 a 2009.

A ferramenta representa um avanço nos estudos em políticas públicas no país, segundo o pesquisador do CEM. “Desenvolver pesquisas com geoprocessamento no Brasil há 15 anos era muito difícil devido ao alto custo dos softwares e à falta de profissionais especializados. Infelizmente, muitos pesquisadores individuais só conseguiam trabalhar com software pirata”, disse.

O TerraView Política Social, por ser gratuito, tem permitido ampliar a produção de análises de dados georreferenciados em espaços urbanos. “Mas no Brasil ainda temos pouca base cartográfica digitalizada, quando comparado a outros países”, disse Waldvogel. A região metropolitana de São Paulo é exceção e dispõe de uma boa base digitalizada.

No curso ministrado no CEM, com carga horária de 20 horas, os participantes conhecem os fundamentos de geoprocessamento e são habilitados a explorar as possibilidades de apresentação e de análise espacial de dados coletados. Ao fim do treinamento, podem visualizar, pesquisar e analisar dados geográficos e tabulares, além de gerar mapas e gráficos com qualidade cartográfica.

Mais informações sobre o curso: www.centrodametropole.org.br, danielt@cebrap.org.br ou (11) 5574 - 0399

Para baixar o software gratuitamente: www.centrodametropole.org.br/v3/terraview.php

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