Brasileiro tem interesse, mas baixo nível de informação sobre ciência | AGÊNCIA FAPESP

Brasileiro tem interesse, mas baixo nível de informação sobre ciência A pesquisa apontou que uma parcela muito pequena da população consegue lembrar o nome de algum cientista brasileiro importante (foto: Léo Ramos/FAPESP)

Brasileiro tem interesse, mas baixo nível de informação sobre ciência

14 de julho de 2015

Elton Alisson, de São Carlos | Agência FAPESP – Os brasileiros apresentam atitudes positivas em relação à ciência e tecnologia (C&T) e manifestam ter grande interesse por esses temas.

O acesso à informação científica e tecnológica, contudo, especialmente nas camadas sociais de menor escolaridade e renda no Brasil, ainda é bastante limitado.

As constatações são da quarta edição da pesquisa “Percepção pública da ciência, tecnologia e inovação no Brasil, 2015”, realizada pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

Os principais resultados da pesquisa foram apresentados nesta segunda-feira (13/07) durante a 67ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Aberta no dia 12, a reunião ocorre até o próximo sábado (18/07) no campus da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“A pesquisa apresenta um panorama estatisticamente robusto da percepção que a sociedade brasileira tem sobre ciência e tecnologia”, disse Mariano Laplane, presidente do CGEE.

“Os brasileiros manifestam ter curiosidade, respeito e uma enorme expectativa de que a ciência e a tecnologia possam melhorar suas condições de vida. É importante, entretanto, que, além dessa curiosidade, a sociedade brasileira também tome mais conhecimento do avanço e dos êxitos da ciência brasileira”, apontou.

A pesquisa ouviu 1.962 brasileiros de todas as regiões do país, com 16 anos ou mais, estratificados por gênero, faixa etária, escolaridade e renda.

De acordo com o estudo, 61% dos entrevistados demonstraram interesse ou muito interesse por C&T. O índice é comparável ao de países que realizaram pesquisas de percepção pública semelhantes, comparam os autores do estudo.

Na União Europeia, por exemplo, 53% dos participantes de uma pesquisa realizada em 2013 afirmaram ter interesse por assuntos relacionados à C&T.

No Brasil, o tema é o quinto que mais atrai a atenção da população, atrás de Medicina e Saúde (78%), Meio Ambiente (78%), Religião (75%) e Economia (68%), e maior do que em Arte e Cultura (57%), Esportes (56%), Moda (34%) e Política (27%).

Embora a atitude dos brasileiros seja positiva e o interesse por C&T seja alto, o acesso à informação é baixo, indica a pesquisa.

A TV é o principal meio de comunicação usado por 21% dos entrevistados para adquirir informações sobre C&T. Por outro lado, a maioria declarou informar-se nunca ou quase nunca sobre esse tema em outros meios de comunicação, como jornais, revistas, livros, rádio e conversas com amigos.

No entanto, mais que dobrou o uso da internet e das redes sociais como fonte de informação sobre C&T especialmente por jovens, saltando de 23% em 2006 para 48%, e se aproximando da TV, apontou a pesquisa.

Os entrevistados declararam utilizar sites de instituições de pesquisa, seguidos de sites de jornais e revistas, além do Facebook, Wikipedia e blogs, como fonte de informação sobre C&T.

“O baixo nível de informação sobre C&T da sociedade brasileira representa um desafio para a comunidade científica, para o governo e também para a mídia”, avaliou Laplane.

“Estamos constatando com preocupação que, nos últimos anos, o espaço dos cadernos de ciência e tecnologia dos principais jornais do país estão encolhendo e, em alguns casos, desaparecendo. Além disso, o pouco conteúdo que está sendo transmitido para a sociedade sobre grandes conquistas da ciência, na grande maioria das vezes, faz referência a avanços em outros lugares do mundo e, raramente, de exemplos brasileiros”, afirmou.

A pesquisa apontou que uma parcela muito pequena da população consegue lembrar o nome de algum cientista brasileiro importante ou de alguma instituição de pesquisa nacional.

O desconhecimento entre os jovens é particularmente significativo, mas mesmo entre pessoas com título superior a porcentagem de entrevistados que souberam mencionar um cientista brasileiro foi muito baixa.

“Temos que valorizar os prêmios e as conquistas dos cientistas brasileiros sem pudor e ter mais ‘celebridades’ da ciência, a exemplo do Artur Ávila [o primeiro matemático formado no Hemisfério Sul que recebeu a medalha Fields, considerada a distinção máxima na área]”, disse Jacob Palis, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

“Isso é importante para a difusão da ciência brasileira e para atrair a atenção de crianças e jovens para a ciência”, avaliou.

Atitudes positivas

A pesquisa também indicou que os brasileiros veem a ciência como geradora de resultados aplicáveis às suas vidas e capaz de solucionar problemas relacionados à saúde e às mudanças climáticas, por exemplo.

A grande maioria dos entrevistados (73%) declarou acreditar que a C&T traz mais benefícios que malefícios para a população, sendo essencial para a indústria e ajudando a diminuir as desigualdades sociais.

Comparados os resultados com outras enquetes internacionais, o Brasil se destaca como um dos países mais otimistas quanto aos benefícios das atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D), afirmam os autores da pesquisa.

A China possui um índice igual ao brasileiro (73%). Já nos Estados Unidos esse índice atinge 67%, na Espanha 64%, seguida pela Itália com 46% e a França com 43%.

Apesar da visão otimista, a postura dos brasileiros é crítica, aponta a pesquisa. A maioria dos participantes expressou preocupação em relação a aspectos éticos, políticos e ao controle social da C&T.

A maioria dos entrevistados considera que é necessário estabelecer padrões éticos sobre o trabalho dos cientistas, que esses profissionais devem expor publicamente os riscos decorrentes de suas pesquisas e que deveria haver maior participação da população nas grandes decisões sobre os rumos da C&T no país.

“A pesquisa mostra que o brasileiro não é ignorante em relação à ciência e tecnologia. Ele não tem informação, mas tem um posicionamento crítico e percebe que a ciência, por si só, não resolve todos os problemas”, disse Ildeu Moreira, consultor do estudo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), à Agência FAPESP.

A grande maioria dos entrevistados (78%) também apoia a ideia de que devem ser feitos maiores investimentos públicos em C&T no país e só 3% defendem que deveriam diminuir.

Na Argentina, a porcentagem dos que defendem mais recursos para a C&T alcança 63%. Já na Suécia, Espanha e França esse índice atinge 40%, e 25% na Alemanha e no Reino Unido, comparam os autores do estudo.

“A pesquisa revela as virtudes e deficiências das ações de divulgação científica no Brasil”, avaliou José Aldo Rebelo, ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Precisamos ter uma política de popularização da ciência no país que ajude a formar uma mentalidade científica da população como condição para o exercício da vida democrática”, avaliou.

Segundo os autores, a pesquisa foi realizada em conformidade com os padrões adotados em estudos semelhantes feitos não só em países desenvolvidos, como os Estados Unidos e nações da União Europeia, como também na América Latina.

No Brasil, além do MCTI, a FAPESP e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) financiaram estudos semelhantes recentemente.

“Essas pesquisas possibilitam obtermos um universo de informações extremamente ricas para avaliarmos o posicionamento do Brasil em comparação com outros países em relação à ciência e tecnologia e também verificarmos as transformações de atitudes da população em relação a esses temas ao longo do tempo”, disse Laplane.

Os dados do estudo podem ser acessados no endereço www.percepcaocti.cgee.org.br/
 

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