1 As lições da Seca do Milênio | AGÊNCIA FAPESP

As lições da Seca do Milênio | AGÊNCIA FAPESP

As lições da Seca do Milênio Efeitos da Seca do Milênio na cidade de Benambra, no estado de Victoria (Wikimedia)

As lições da Seca do Milênio

29 de abril de 2015

Karina Toledo | Agência FAPESP – Acostumados a conviver com a alternância entre períodos de seca e de inundações, os australianos foram surpreendidos no fim do século 20 pela chamada Seca do Milênio, uma estiagem sem precedentes que atingiu todo o país entre os anos de 1997 e 2009 e afetou fortemente a cidade de Melbourne, capital do estado de Victoria.

“Foi uma seca completamente diferente do que se poderia prever com a análise de mais de 100 anos de registros meteorológicos. Quando a estiagem finalmente terminou, tivemos enchentes em várias cidades, além de fortes ondas de calor. Foram batidos 123 recordes meteorológicos, de precipitação e de temperatura, no verão de 2012/2013. No ano seguinte, foram 156 recordes”, relatou Tony Wong, diretor executivo do Centro de Pesquisa Cooperativa para Cidades Sensíveis à Água – uma iniciativa do governo australiano que reúne pesquisadores de várias áreas e instituições, indústrias e parceiros governamentais para o desenvolvimento de soluções sociais e tecnológicas para a gestão da água urbana.

A seca afetou fortemente o afluxo de água para os reservatórios responsáveis pelo abastecimento de Melbourne. Em 2008, o nível da principal represa da região, instalada no rio Thomson, era semelhante à situação atual do sistema Cantareira, em São Paulo. Embora o nível da represa australiana tenha melhorado nos anos seguintes, jamais retornou à média histórica e voltou a cair recentemente.

“Houve um momento em que ficamos realmente preocupados, pois havia água suficiente apenas para 18 meses de abastecimento. Foi quando tomamos a decisão de construir uma planta de dessalinização”, contou Wong.

Em um evento realizado em São Paulo, no dia 22 de abril, com a participação da FAPESP, Wong afirmou que a Seca do Milênio ensinou duas importantes lições aos australianos. A primeira é que, em um cenário de mudanças climáticas sujeito a eventos extremos, a gestão dos recursos hídricos de uma cidade não pode se basear apenas na análise de séries históricas de dados meteorológicos.

Além disso, a infraestrutura para o futuro deve ser planejada de modo a acomodar os eventos extremos de maneira integrada, ou seja, as soluções não devem mirar fenômenos como seca e enchente isoladamente.

Wong integrou a Missão de Educação para a América Latina, organizada pelo governo de Victoria, um dos mais importantes estados australianos, com o objetivo de fomentar colaboração acadêmica em áreas como educação, gestão da água, planejamento urbano, agricultura e biotecnologia (Leia mais em: http://agencia.fapesp.br/australia_quer_criar_centro_de_estudos_sobre_cidades_do_hemisferio_sul/21042/).

Ele lembrou que, desde 2004, quando os especialistas australianos ainda afirmavam que a estiagem não passava de um evento comum de variabilidade climática, o governo de Victoria já vinha tomando uma série de medidas para minimizar os impactos da escassez hídrica. O primeiro passo foi investir em estratégias de conservação da água.

“Teve início uma grande campanha para mudar o comportamento das pessoas. Um grande cartaz foi instalado em nossa principal estação de trem para alertar diariamente para os níveis dos reservatórios, e os índices iam caindo dia a dia. Foi então que percebemos que estávamos enfrentando uma crise hídrica”, relatou.

Em nível nacional, os cidadãos tiveram de conviver com medidas de restrição. Foram proibidos, por exemplo, de usar água potável na lavagem de carros ou na irrigação de jardins.

A campanha para a redução do consumo doméstico foi aliada a estratégias de conservação no setor agrícola. Um programa de modernização dos sistemas de irrigação já havia começado a ser implantado antes mesmo do início da seca e ajudou a aumentar a eficiência no uso da água de 30% para 80% nas fazendas australianas. Além disso, foi criado uma espécie de mercado da água, no qual os fazendeiros podiam vender seu excedente para colegas cujas culturas demandam maior volume de recurso hídrico.

“O consumo por habitante em Melbourne começou a cair na medida em que a comunidade como um todo foi ficando mais engajada. Se não fosse por essa mudança de comportamento, teríamos ficado completamente sem água até 2009. A estratégia de conservação salvou a cidade, pois não havia tempo hábil para construir a planta de dessalinização”, disse Wong.

Paralelamente às medidas de conservação, foram idealizadas iniciativas para aumentar a captação de água de fontes alternativas, que incluíram o desenvolvimento de infraestrutura para aproveitamento de águas pluviais e reciclagem de águas residuárias.

“Mas por volta de 2007 ficou evidente que todas essas iniciativas levam tempo para serem efetivadas e apresentarem soluções reais e, por isso, o governo decidiu investir em dessalinização. A seca terminou antes de a planta ficar pronta e até hoje ela não foi acionada. Mas essa infraestrutura nos concedeu um período de certeza – de que se a seca vier, não faltará água – e nos permite investir em soluções de longo prazo mais sustentáveis como reciclagem de água”, avaliou Wong.

Diversidade de fontes

Outra importante lição aprendida com a Seca do Milênio, segundo Wong, foi a necessidade de diversificar o portfólio de fontes de água e rever constantemente as estratégias com base na emergência de novas tecnologias. Já não é possível, na avaliação do australiano, garantir segurança hídrica às cidades apenas com base no modelo tradicional de captação por meio de represas.

“Nosso esgoto é um recurso frequentemente ignorado e podemos criar soluções descentralizadas para reaproveitar essa água na irrigação de plantas e nas descargas de sanitários, por exemplo. Com políticas públicas adequadas, cada vez que um prédio antigo for abaixo podemos estimular que o novo introduza infraestrutura para reúso de água”, afirmou.

Já o investimento em infraestrutura para coleta de água da chuva pode, segundo Wong, ajudar a solucionar também o problema das enchentes.

“Em Melbourne estamos construindo grandes áreas alagáveis para coleta de água pluvial e, assim, também conseguimos evitar inundações em regiões vulneráveis. Com o monitoramento dos radares meteorológicos, podemos prever a chegada de uma tempestade e drenar os reservatórios a tempo”, disse.

Como já não é possível confiar em dados históricos para prever condições futuras, uma vez que a ciência mostra que não há mais estacionariedade, Wong defende o uso de modelos matemáticos para simular cenários futuros e avaliar o impacto de políticas públicas antes que sejam implementadas.

“A infraestrutura do futuro terá de ser uma combinação de soluções centralizadas (grandes iniciativas implementadas pelos governos) e descentralizadas (soluções locais, implementadas pelos cidadãos e estimuladas por políticas públicas). E são as soluções descentralizadas que darão às cidades resiliência para sobreviver em um clima de incerteza”, afirmou Wong.

Além de Wong, outros 20 representantes de universidades e instituições de pesquisa e do governo do estado de Victoria fizeram parte da Missão de Educação, que também passou pelo Chile e seguirá para Colômbia e Peru.

“Muitas cidades latino-americanas compartilham desafios similares aos da Austrália e aos do estado de Victoria. Essas experiências compartilhadas ressaltam áreas de interesse mútuo e possíveis alianças entre nossos governos, pesquisadores e especialistas em educação”, afirmou Steven Herbert, ministro de Educação Profissional e Tecnológica do estado de Victoria e chefe da missão.

A cônsul e adido comercial da Australian Trade Comission em São Paulo, Sheila Hunter, afirmou que os australianos estão familiarizados com o problema da escassez hídrica e desejam compartilhar sua experiência com os paulistas.

“São Paulo está enfrentando uma grave crise nos reservatórios de água. Esperamos que ao compartilhar nosso aprendizado possamos ajudar a identificar soluções inovadoras para lidar com as mudanças climáticas que todos iremos enfrentar no futuro”, disse.

Representando a FAPESP no evento estiveram o assessor da presidência Fernando Menezes, o coordenador adjunto de Pesquisa para Inovação e do Plano Diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação para o Estado de São Paulo, Sergio Robles Reis de Queiroz, e o coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), Reynaldo Luiz Victoria.

Para falar sobre a atual crise hídrica enfrentada pelo Estado de São Paulo e as estratégias que estão sendo implementadas para aumentar a segurança hídrica na região esteve presente o professor Américo Sampaio, coordenador de Saneamento da Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo.

“A dessalinização da água do mar por enquanto está descartada em São Paulo em razão do alto custo. Temos de conciliar a gestão da oferta – ir atrás de novos mananciais cada vez mais distantes, o que historicamente sempre foi feito no Brasil e em São Paulo – e a gestão da demanda  adotar medidas para reduzir o consumo”, disse Sampaio.

Como exemplos de gestão da oferta Sampaio citou as obras emergenciais e também as de médio e longo prazo que estão sendo implementadas pelo governo estadual, entre elas a transposição de águas do Rio Paraíba do Sul.

No âmbito da gestão da demanda, Sampaio afirmou que o governo paulista pretende estimular a medição individualizada da água em condomínios, a adoção de infraestrutura para reúso da água e a troca de aparelhos sanitários – vasos, chuveiros e torneiras – por modelos poupadores. Disse ainda que é preciso rever o valor da tarifa de água, considerada por ele muito barata, e investir no controle de perdas do sistema.
 

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